Dia da Consciência Negra é celebrado em Niterói

Raquel Morais –

Amanhã é comemorado o Dia da Consciência Negra e os movimentos que lutam contra o preconceito racial chamam atenção para a causa. O combate ao racismo é uma questão política que deve ser enfrentada diariamente, não somente pelos negros. Os movimentos lutam por uma equiparidade profissional e social e o caminho para isso é a discussão sobre o assunto: preconceito. O feriado, dia do falecimento de Zumbi dos Palmares, é considerado um dia de reflexão, luta, valorização da cultura negra e resistência. E nesse ano um motivo a mais para comemorar: pela primeira vez a população que se declara de cor preta ou parda é maioria nas universidades públicas. Agora os negros representam 50,3% dos matriculados, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os dados sobre a presença de negros nas universidades públicas foram divulgados através do informativo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil do instituto. “O estudo mostra para a gente que para todos os indicadores educacionais há uma trajetória de melhora desde 2016. Isso se reflete em menor atraso escolar, mais pessoas pretas ou pardas frequentando a escola na etapa de ensino adequada para a idade, menor abandono escolar, mais pessoas pretas ou pardas concluindo o ensino médio e ingressando no ensino superior”, afirmou a analista de indicadores sociais do IBGE, Luanda Botelho.

O advogado Márcio Aleluia, secretário-geral da Comissão Nacional de Promoção da Igualdade no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Brasília, explicou que o reconhecimento da data é justamente uma forma de integrar os negros à sociedade. “É trazer uma reflexão de toda importância de honrar a cultura originária desse povo que mesmo não escolhendo estar aqui, veio e trabalhou com muito sangue, suor e lágrimas. Anos após o movimento quilombola pela libertação e muito após a abolição da escravatura nos deparamos com uma ainda sociedade com traços de racismo, discriminação, desigualdade social, de modo que o racismo hoje é um racismo estrutural. A OAB como instituição que busca promover a defesa do Estado Democrático de Direito tem buscado mediante a promoção de comissões temáticas por todo país”, contou o também diretor da Diretoria da Igualdade Racial da Seccional do Rio de Janeiro e assessor especial da presidência OAB Niterói.

Nesse contexto, a Lei 10.639, que trata dos espaços de ensino serem obrigados a tratarem sobre a história africana, também se faz fundamental para mostrar a história da construção do Brasil. “Acredito na importância dos marcos na construção de memória. O direito à memória é historicamente negado às pessoas pretas neste país, fundado na escravização e violação dos nossos corpos e dos povos indígenas. Penso o dia 20 como um marco na possibilidade de construção de memórias outras sobre a nossa constante luta e organização, para além da resistência e sobrevivência. Palmares foi o maior Quilombo da história do Brasil. Antes e desde o sequestro do nosso povo criamos tecnologia ancestral de produção de vida! Apesar da histórica tentativa e concretização de nosso apagamento e morte, visto que no Brasil a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, seguimos em luta. E estamos vivos. Fomos sonhados por nossos ancestrais. E sonho ancestral não morre”, frisou a coordenadora do movimento África em Nós, Thayná Alves, de 27 anos.

O Mestre em Cultura e Territorialidades pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Guilherme Santos, 31 anos, contou também que o povo negro tem uma enorme influência na cultura brasileira, em todos os aspectos. “E essa data é boa para lembrarmos disso, resgatarmos isso e levarmos pelo resto do ano – até o próximo – e para as nossas vidas. Todo negro, infelizmente, já passou ou vai passar por algum tipo de racismo, preconceito. É uma infeliz realidade que vivemos. Desde as formas mais sutis até as formas ‘mais agressivas’, pois todo racismo é agressivo. Vai desde um segurança nos seguindo até piadas preconceituosas, ou melhor, racismos em forma de ‘humor’”, orientou.

EVENTOS EM NITERÓI
No próprio dia 20, a partir das 10h, o símbolo de resistência de Niterói, o Quilombo do Grotão, começará as comemorações em do Dia da Consciência Negra. Às 10h terá apresentação de roda de capoeira e a partir das 12h30min a tradicional feijoada será servida e às 14h por R$ 25, e terá uma roda de samba ‘Família Quilombo’ e convidados. O quilombo fica na Rua 41, Sítio Manoel Bonfim, no Engenho do Mato.
Na Praça da Cantareira, em São Domingos, será realizada o 11º Viva Zumbi Niterói, a partir das 10h, como parte da Semana da Cultura Negra. Terá Feira Baobá, acarajé, capoeira, feijoada gratuita (às 13h), além de rodas de conversa, lavagem da estátua de Zumbi, exposição de fotografia e de roupas de matrizes africanas, roda de jongo e show da Velha Guarda da Mangueira e da cantora Mart’nália a partir das 17h.

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