DH começa a periciar corpos achados no Salgueiro

Desde o último sábado (20), a violência tomou conta das comunidades que compões o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Primeiro houve a morte do sargento da Polícia Militar  Leandro Rumbelsperger da Silva, de 40 anos. No dia seguinte, a moradora Carmelita Francisca de Oliveira, de 71, foi baleado. Na manhã desta segunda-feira (22), pelo menos oito corpos foram encontrados em uma área de mangue.

Moradores da região denunciam que eles foram vítimas de uma ação violenta da Polícia Militar, entre a noite de domingo (21) e a madrugada de segunda. Segundo os relatos, ainda haveria mais corpos a serem localizados, na localidade conhecida como Palmeirinha. Em mensagens de áudio, às quais a reportagem de A TRIBUNA teve acesso, pessoas que vivem na região relataram os momentos de pânico durante o tiroteio.

“Pelo amor de Deus, os meninos estão saindo do Mangue. O pessoal está gritando ‘é morador, é morador’. Tudo dentro do mangue. Os morador tá ajudando (sic)”, diz uma mensagem. “Tem muita gente morta dentro do mangue. Todo mundo do Rosa morreu. Só saiu sete ou oito garotos aqui (sic). A gente tentou tirar de dentro do mangue, mas todo mundo morreu”, afirma outra moradora.

Diante de todos os casos de violência, moradores preferiram se resguardar em casa, perdendo até mesmo o dia de trabalho. É o que relata outra moradora, também por meio de mensagem de áudio. A mulher também conta detalhes sobre a suposta ação policial que resultou na morte das oito pessoas encontradas no manguezal e do resgate dos corpos, iniciados durante a madrugada, pelos próprios familiares.

“Eu perco o serviço, o dia, mas não vou. Só Deus sabe como está isso aqui dentro. Tem muita gente chorando. Tem muitos meninos mortos lá dentro. Os polícias quando passou (sic) no caveirão, falou ‘muito obrigado’. As mães estão entrando dentro do mangue, acima do joelho, para puxar os corpos”, disse a moradora. A PM ainda não se pronunciou sobre a denúncia. Moradores afirmam que duas mulheres ainda estão desaparecidas.

População afirma que ainda há duas pessoas desaparecidas – Foto: Marcelo Feitosa

Perícia apenas pela manhã

A Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá (DHNSG) irá investigar o caso. Por conta da falta de segurança na região, a equipe de perícia só foi enviada ao local por volta das 10h da manhã desta segunda. Anteriormente, o Corpo de Bombeiros havia relatado não ter feito o recolhimento dos cadáveres pelo mesmo motivo que atrasou a perícia.

O Corpo de Bombeiros informou que “o acionamento do serviço de remoção de cadáveres da Defesa Civil é feito, exclusivamente, pela Polícia Civil (delegacia da área), que emite um documento chamado GRC (Guia de Recolhimento de Cadáver). A retirada de um corpo pela equipe de militares depende da emissão da documentação citada, que, podemos dizer, funciona como uma autorização legal para o recolhimento. Inclusive, a GRC é imprescindível para a entrada no IML.”

Em nota, a PM informou que após o conhecimento de corpos localizados em área de mangue na região do Complexo do Salgueiro, na manhã desta segunda, a corporação deu início a uma ação no local e permanecerá na região a fim de garantir o trabalho de perícia da Polícia Civil. Em seguida, os cadáveres serão encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML) da cidade. Nenhum cadáver foi identificado, até o fechamento desta reportagem.

Defensoria acompanha o caso

Por meio de nota, a “Defensoria Pública do Rio de Janeiro informa que recebeu, por meio de sua Ouvidoria Externa, ainda na noite de domingo, relatos sobre a violenta operação no Complexo do Salgueiro. A instituição informa que sua Ouvidoria comunicou o fato ao Ministério Publico, para a adoção de medidas cabíveis a fim de interromper as violações. E que o órgão também está em contato com as lideranças locais prestando orientações necessárias.

Nesta tarde desta segunda, representantes da Ouvidoria e defensores do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh) irão à comunidade, junto com a Comissão de Direitos Humanos da Alerj e OAB-RJ, para coletar informações sobre o ocorrido para as medidas, inclusive judiciais, que se fizerem necessárias em defesa dos moradores, vítimas e seus familiares.”

Especialista aponta ‘operação-vingança’

Para Doriam Borges, professor e pesquisador da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a ação acontecida no Salgueiro denota uma espécie de “vingança”, por parte da polícia, após a morte do sargento Rumbelsperger. O especialista aponta que, em casos assim, é necessária a criação de um protocolo de atuação institucional para atender casos de agentes mortos em serviço.

“Este caso remete às dinâmicas da Polícia Militar em decorrência da vitimização policial. Ou seja, estamos falando de um cenário de revanchismo. Tendo em vista que a Polícia é o órgão institucional e legítimo que está a serviço do Estado e da população, era de se esperar que as tomadas de decisão fossem racionais e técnicas, mas o que podemos ver é a vingança “nua e crua”. Nesse contexto, o ideal seria a criação de um protocolo de atuação institucional em caso de morte de policiais para cuidar dos profissionais, das famílias em luto e para evitar mais mortes, tanto de civis em decorrência de intervenção policial, quanto de outros policiais. Até porque a letalidade policial pode gerar uma resposta por parte do tráfico”, analisou.

Recordando

No sábado (20) o 2º Sargento Leandro Rumbelsperger da Silva, de 40 anos, foi morto em uma operação no Complexo do Salgueiro para combater uma denúncia de baile funk ilegal. Ele deixou esposa e dois filhos. O enterro aconteceu no domingo (21) no Cemitério Memorial Parque Nycteroy, no bairro Laranjal.

Também no domingo, uma idosa de 71 anos foi baleada, identificada como Carmelita Francisca de Oliveira foi socorrida por vizinhos e levada para o Hospital Estadual Alberto Torres, no bairro Colubandê, mas já teve alta. Na ocasião, policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) da PM estavam atuando na região.

A ação foi deflagrada após a corporação um dos indivíduos que atacaram a equipe do 7ºBPM no sábado, na ocorrência que vitimou o sargento Leandro da Silva, estaria ferido ainda no interior desta região. As equipes foram atacadas nas proximidades de uma área de mangue com mata, ocorrendo um intenso confronto.

Na ação foram apreendidos duas pistolas, 14 munições calibre 9 mm, 56 munições de fuzil calibre 762, cinco carregadores (02 para fuzil e 03 para pistola), um uniforme camuflado, 813 tabletes de maconha, 3.734 sacolés de pó branco e 3.760 sacolés de material assemelhado ao crack. A ocorrência foi registrada na 72ª DP.

Posteriormente, por volta de 15h, uma equipe do SAMU foi acionada ao Salgueiro por conta de um indivíduo ferido e criminosos armados obrigaram a retirada deste do local. O homem foi a óbito e reconhecido por policiais do 7ºBPM como um dos envolvidos no ataque criminoso à guarnição no sábado. O caso foi registrado na 73ª DP (Neves).

Colaboração e imagens: Marcelo Feitosa

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