Desconfiados, moradores ‘comemoram’ obras em SG

Wellington Serrano

A Rua Lucio Tomé Feiteira, no Vila Lage, é o retrato de uma região que vive um acelerado processo de desenvolvimento urbano e imobiliário. Com o condomínio, o Reserva Solare, a via passa por uma verdadeira transformação e chama atenção por estar tão fora da realidade de São Gonçalo através de uma nova pavimentação asfáltica, colocação de lixeiras construção de passeios, meio fio e paisagismo, consequência da construção do empreendimento em frente que está sendo investigado pelo Ministério Público.

Em meio ao transtorno da acusação da 1ª Promotoria de Meio Ambiente de São Gonçalo que diz que a construção está sendo feita em área contaminada, moradores elogiam a empreiteira responsável pelas obras, mas confirmam a desconfiança de que tudo não passe de uma política de compensação, já que o empreendimento vizinho que será construído é apontado como irregular.

“Eles (funcionários contratados da construtora) querem ver tudo bonito. Até estiveram aqui em casa tirando fotos dos cômodos do meu apartamento e disseram que é para um estudo de impacto das obras. Os empregados que trabalham neste novo empreendimento que será construído em frente ao meu informaram que a empresa vai recuperar toda a fachada do nosso condomínio, construir creches e escolas”, afirmou uma moradora do bloco sete, Maria Antônia da Silva. Atualmente, há obras sendo executadas pela MRV, através da empresa contratada Ideal, segundo informações colhidas no local.

O morador antigo do local, Rodrigo Neves, de 36 anos, também falou sobre a nova urbanização da rua e disse que, independente do imbróglio da construção na justiça, também está todo contente com as conquistas do local. “O que a Prefeitura de São Gonçalo não fez em 200 anos, a MRV fez em três meses”, comemora ele ao reconhecer que tudo isso possa mesmo estar acontecendo no bairro para compensar algum tipo de problema.

Rodrigo Neves disse que trabalhou na antiga empresa dona do terreno e contou que no início tudo era uma fábrica de vidros e depois a fábrica passou a se chamar electrovidro e atuar na fabricação de isoladores poli térmicos e tijolos de vidro de alta pressão. “Trabalhávamos com produtos armazenados né? Pode ter mesmo contaminação por causa do pó de vidro”, questiona ele, ao revelar que via colegas de trabalho com problemas pulmonares devido à silicose, que é uma forma de pneumonia causada pela inalação de finas partículas de sílica.

TANIA PINHEIRO (3)“Via aqui a doença afetar os trabalhadores após anos de inalação da sílica presente no ar. Eles se queixavam da dificuldade respiratória, tontura, fraqueza e náuseas”, lamentou. Há 20 anos morando no bloco oito do velho condomínio do Vila Lage e acostumada a sair do quintal de sua casa e dar de cara com a lama na porta, a dona de casa Tânia Pinheiro, de 47 anos, estranha a velocidade de como estão sendo feiras as obras, mas comemora a sua nova calçada construída pela construtora. “É tudo de bom. Ficou um luxo, tá ótimo. Não me canso de varrer, só falta à iluminação”, afirmou à moradora.

A comerciante Rita Rezende, de 63 anos, não vê a hora do movimento do seu bar, que fica em frente ao futuro condomínio, aumentar. Ela disse que ouvir dizer que as obras são uma contrapartida pela construção do condomínio. “Por enquanto o que sei é que a construtora melhorou a rua em tempo recorde, e eu não sei se a prefeitura tem alguma coisa a ver com isso”, contou.

Questionada, a MRV Engenharia informa que as vistorias relatadas pelos moradores tratam-se de um procedimento comum da construtora de realizar a Vistoria Cautelar de Vizinhança nos imóveis próximos aos terrenos onde serão construídos os empreendimentos MRV, com o objetivo de registrar as condições de conservação dos imóveis próximos ao canteiro antes das atividades de construção e confirma que realiza as melhorias no entorno da região.

A Prefeitura de São Gonçalo, que através da Secretaria municipal de Meio Ambiente havia liberado licença para a construção, contrariando Licença Ambiental de Recuperação (LAR), do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), segundo inquérito instaurado pelo MP, não se manifestou sobre o assunto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quatro × 1 =