Depoimento da ‘Capitã Cloroquina’ na CPI causa efeitos colaterais

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia do Senado Federal teve sequência ontem (25) com o depoimento da médica Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde. Ela ficou conhecida na mídia como “Capitã Cloroquina”, por ter defendido o uso da medicação ineficaz no chamado “tratamento precoce da Covid-19”, cientificamente inexistente. E suas declarações na CPI serviram muito mais para evidenciar contradições do ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro, do que para esclarecer as questões que estavam sob sua gestão na pandemia.

O depoimento teve duração de 7 horas. Como tem sido a tônica de todos os depoentes governistas, a estratégia foi a de tentar imunizar o presidente Bolsonaro e o ex-ministro Pazuello. Por maior que tenha sido a dosagem de sua defesa, ela esteve longe de ter 100% de eficácia.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros, disse que Mayra mentiu ou contradisse Pazuello, pelo menos, em 11 ocasiões. Como, por exemplo, quando indagada sobre a falta de oxigênio em Manaus. Ela disse que Pazuello tomou conhecimento do desabastecimento do insumo no dia 8. À CPI, o ex-ministro disse que soube da situação crítica da capital amazonense na noite do dia 10. Um outro ponto de divergência entre o depoimento de Pazuello e de Mayra foi sobre o aplicativo TratecoV, que recomendava o inútil e perigoso “tratamento precoce” para a Covid-19. Enquanto Pazuello disse que o aplicativo foi “roubado e teve os dados alterados”, Mayra afirmou que não houve alteração do que havia sido originalmente proposto pelo aplicativo, sendo o único incidente uma “extração indevida de dados”.

Sobre a aglomeração provocada pelo presidente da República, neste final de semana, no Rio de Janeiro, o senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP), questionou a depoente sobre qual seria o seu ponto de vista com relação ao descumprimento das medidas de distanciamento social e ausência de uso de máscaras. Mayra disse que faz uso regular de máscara, respeita o distanciamento social, mas que não comentaria as questões relacionadas ao presidente e aos ministros de Estado. “Esta não é a razão de eu estar aqui” – esquivando-se.

Ela afirmou, ainda, que nunca recebeu ordem do ex-ministro da pasta Eduardo Pazuello ou do presidente Jair Bolsonaro para defender o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. Aos senadores, a médica disse ainda que o ministério nunca indicou “tratamento precoce” para Covid-19, tendo apenas criado nota orientativa que estabeleceu doses seguras de medicamentos.

Sobre a defesa do uso de cloroquina – medicação sem comprovação de eficiência no tratamento da covid-19 – a médica explicou que a discussão surgiu quando o Brasil deparou com um trabalho científico produzido em Manaus, que resultou na morte de 22 pacientes. Segundo ela, a partir desse estudo, foi preciso definir parâmetros considerados seguros pelos técnicos do Ministério da Saúde para o uso do medicamento.

Perguntada a respeito de quem foi o responsável por ordenar ao Exército que ampliasse a produção de cloroquina em função do uso elevado do medicamento no tratamento de pacientes com covid-19, Mayra respondeu que não sabe de quem partiu a determinação. “Eu não sei dizer” – assinalou.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), quis saber sobre o motivo de o Brasil não ter seguido orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) em relação ao novo coronavírus. A médica afirmou que nenhum país do mundo é obrigado a isso. “O Brasil não é obrigado a seguir a OMS e se tivéssemos seguido teríamos falhado como a OMS falhou várias vezes”, destacou a secretária.

DESDOBRAMENTOS

O Senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI, afirmou ontem que tanto o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, como o ex-ministro da pasta Eduardo Pazuello serão novamente chamados para depor. Ele entende que “mentiras estão aparecendo” após o primeiro depoimento de Pazuello. A recente aparição do ex-ministro, sem máscara, em ato político, ao lado do presidente Bolsonaro, serve também de fundamento para a nova convocação. Os requerimentos serão votados hoje (26).

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