Crise nos hospitais municipais e estaduais de Niterói

Raquel Morais –

A crise nos hospitais públicos também está assolando as unidades de saúde de Niterói. O Hospital Estadual Azevedo Lima (Heal), no Fonseca, e o Hospital Municipal Carlos Tortelly, no Centro da cidade, estão no alvo das reclamações de pacientes, familiares de pessoas internadas e até mesmo de funcionários. As queixas vieram após muitas denúncias da precariedade do atendimento das Unidades de Pronto-Atendimento 24 Horas (UPAs), de Niterói e São Gonçalo. Longa espera por atendimento, falta de leitos e medicamentos, demora na entrega de exames básicos, macas quebradas e até mesmo atraso no pagamento do 13º salário são algumas das queixas sobre as duas unidades e suas administrações. A Comissão de Saúde da Câmara Municipal de Niterói vai analisar as denúncias e dentro dos próximos dias irá visitar os dois hospitais da cidade.

No hospital da Zona Norte, pacientes e funcionários, reclamam que a unidade está com tempo muito grande de espera para atendimento, os equipamentos de ar-condicionado estão ruins (só funcionam os da recepção do hospital), os medicamentos também estão precários, com poucas opções para os médicos receitarem. Além dessas questões ainda há superlotação na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI Neo), por exemplo, além da falta de leitos para internação de gestantes. Outros funcionários ainda ressaltaram que o 13º salário foi dividido e o Governo do Estado pagou apenas 25% em novembro e 25% em dezembro, sem previsão do pagamento dos 50% restantes.

“O depósito do FGTS também está com atraso para ser repassado, apesar de ser descontado do nosso contracheque”, desabafou uma funcionária que não quis se identificar.

A dona de casa Ana Beatriz Rodrigues, 25 anos, está grávida de seis meses da sua segunda filha, Emanuele, e reclamou da demora na entrega de exames e no atendimento.

“Eu tentei atendimento em um hospital em São Gonçalo e não consegui. Acabei conseguindo no Azevedo Lima, mas com tempo de espera muito grande. Estamos tão mal tratados na rede pública, e acostumados com um atendimento tão ruim, que ficar horas esperando para ser liberada nem é tanto problema. Mas na verdade é sim”, frisou a niteroiense.

Já a dona de casa Geni Lopes, 52 anos, reclamou do tempo de espera para a visitação, que no caso dela seria das 11h às 12h.

“Já passou da hora da entrada permitida e não deixam eu ver meu marido que está internado. Não temos informação e ficamos simplesmente aguardando sem saber o que está acontecendo”, frisou.

Já o mecânico hidráulico Erivelton Silva, 55 anos, contou com a sorte e sua mãe foi atendida em menos tempo.

“É contar com a sorte e com a boa vontade dos funcionários. Minha mãe está internada e está sendo bem atendida dentro de uma realidade de hospital público”, resumiu.

No Centro de Niterói, o hospital CPN, como é popularmente conhecido, também está passando por inchaço no atendimento. Os pacientes também reclamam do tempo do atendimento na demora para entrega de exames, como por exemplo o de sangue e de urina, que chegam a demorar três horas para ficarem prontos. Uma mulher que não quis se identificar está com o filho internado na unidade e reclama da boa vontade dos funcionários.

“O atendimento não é bom e sempre temos que ter muita paciência para falar com eles. Não sabemos o que pode acontecer e eles são muito instáveis, principalmente as enfermeiras, que chegam a fazer maldades com os pacientes. Uma enfermeira que fura com ódio a veia de um paciente está fazendo uma maldade”, contou.

Macas quebradas, banheiros e pátios internos sujos, e falta de segurança são outras questões apontadas como problemáticas para quem precisa, e usa, a saúde pública municipal.

O vereador Paulo Eduardo Gomes (Psol), presidente da Comissão de Saúde da Câmara Municipal de Niterói, também se posicionou sobre os problemas apresentados nas duas unidades e pretende fazer uma vistoria nos hospitais.

“Niterói está sem repasse de verba do Estado há pelo menos cerca de três anos. Isso acaba sendo uma verdadeira bola de neve. A saúde deixou de ser prioridade para a União, para o Estado e agora também para o município. O Carlos Tortelly está agonizando e o governo precisa assumir sua responsabilidade para não permitir que isso ocorra em 2019. Nosso papel é não deixar que os governantes esqueçam que saúde é um direito e não pode ser nem privatizada e nem abandonada. Este ano iremos mais do que nunca atuar em parceria com o Ministério Público para exigir atendimento público digno, de qualidade, tanto na nossa rede municipal quanto na rede estadual da nossa região. O contrato do Heal está para acabar e iremos acompanhar de perto qual será a postura do próximo governo”, contou

Defesa
A direção do Heal informou em nota que nos dias 3 e 4 de janeiro identificou um aumento superior a 90% na busca por atendimento no setor de admissão da maternidade, onde são feitos atendimentos a gestantes, exames e pré-natal. Funcionários da unidade foram deslocados para atender a demanda. Não houve aumento por atendimento em outros setores. Nas enfermarias da clínica médica (unidade de internação) e da maternidade os aparelhos de ar-condicionado não estão dando vazão devido ao grande calor e ao fato de haver muitas portas e janelas nestas duas unidades que muitas vezes ficam abertas. Além da manutenção nos aparelhos, há um projeto em andamento para melhoria da climatização dos setores em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde (SES).

Ainda de acordo com a nota, com relação ao pagamento do 13º salário, o hospital ressalta que há previsão de quitação dos próximos 50% em janeiro e fevereiro. Já o FGTS, todas as parcelas referentes ao ano de 2018 já foram pagas. As que ainda estão em aberto referentes ao ano anterior estão sendo quitadas desde maio do ano passado. Não há desabastecimento de medicamentos no hospital, e a unidade mantém uma ampla grade de medicamentos necessários para o perfil de um hospital de urgência e emergência. A UTI neonatal está dimensionada para atender crianças que nascem em estado grave no hospital, sem negar atendimento, por isso ocasionalmente pode ocorrer uma lotação acima da capacidade inicial da unidade por um período determinado até que o hospital consiga encaminhar a criança para outra unidade, através da Central Estadual de Regulação. Para finalizar, o hospital identificou e tomou todas as providências necessárias para evitar qualquer tipo de infecção por bactéria, resguardando as crianças internadas na unidade.

A Prefeitura de Niterói foi questionada sobre os problemas da unidade de saúde municipal e informou que a unidade possui sua emergência clínica aberta e não recusa atendimentos. Não há falta de leitos no hospital, a equipe está completa e a unidade abastecida com insumos e medicamentos.

O Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Trabalho e Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro (Sindsprev-RJ) confirmou que desde o final de semana o quadro de problemas em relação as Unidades de Pronto-Atendimento 24 Horas (UPAs) do Fonseca, em Niterói, e as UPAs de Nova Cidade e do Colubandê, em São Gonçalo, continua o mesmo. Nenhuma alteração foi notificada ao sindicato e a demora no atendimento, falta de medicamentos, ar-condicionados quebrados e até banheiros interditados continuam sendo a realidade de milhares de usuários desse serviço. A Secretaria de Estado de Saúde (SES) foi questionada novamente sobre todos esses problemas mas até o fechamento dessa edição não se manifestou sobre o assunto.

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