Criminalidade em mutação

Augusto Aguiar –

Assaltantes, falsários, traficantes, homicidas, estupradores, criminosos cibernéticos, entre outros. Com o passar dos anos, diversos tipos de crime parecem que passaram por um processo de mutação e resistiram à realidade e ao tempo, se tornando uma ameaça ainda maior para as pessoas. Algumas modalidades até quase não são mais registradas, mas não se extinguiram. Essa é a opinião de muitos policiais, alguns já aposentados, outros da ativa. Eles enumeram vários crimes com características modificadas com o tempo, como se tivessem passado por uma nova roupagem.
Um exemplo muito citado por policiais civis e militares está relacionado às armas apreendidas, com poder de destruição cada vez maior, de última geração e de calibres variados.

“Há décadas, os bandidos portavam revólveres, pistolas ou metralhadoras. Quando começaram a surgir os fuzis, essas armas eram poucas e usadas apenas para guarnecerem pontos de venda de drogas por esses marginais. Atualmente, os fuzis são utilizados por bandidos até mesmo para cometerem pequenos delitos, como roubos a estabelecimentos comerciais e a pedestres. Lembra do chamado bando do fuzil em Niterói? Vou citar outro exemplo: os mais antigos lembram dos famosos punguistas, que eram os batedores de carteira de antigamente. Atualmente, na comparação, os policiais que estão na ativa o equiparam aos atuais infratores (ou quadrilhas) especializados em furtos de celulares em eventos”, lembrou um inspetor da Polícia Civil, aposentado há dois anos e preferiu não ter seu nome divulgado.
Já o subtenente da Polícia Militar, Ricardo Garcia, de 58 anos – atualmente policial da reserva e ex-relações públicas do Batalhão de Niterói (12º BPM) – até hoje realiza palestras sobre segurança em condomínios. Ele explica que a única mudança nesse novo contexto é a forma como encaramos a criminalidade.
“Os crimes continuam os mesmos. A única coisa que mudou foi a forma de encararmos eles. O problema passou a ser cotidiano. Relembro que antigamente, entre os anos de 1981 e 1982 (há 38 anos), eu seguia fardado, de Niterói para Campo Grande (Zona Oeste), em pé, no ônibus, com um revólver calibre 38 na cintura, em direção ao batalhão. Havia respeito pelo policial. Eu fazia isso noite sim, noite não. Não houve evolução nenhuma na criminalidade, nós que começamos a aceitar isso. Atualmente os presídios estão superlotados e ainda existe a certeza da impunidade. Antigamente existia a presença do guarda de trânsito. O policial coibia qualquer ação criminosa e todos respeitavam, porque sabia que se houvesse desrespeito seria preso e conduzido para a delegacia. Hoje, se o colega fazer isso é criticado. Infelizmente”, relatou.

O policial civil aposentado prosseguiu, afirmando que nos casos de crimes de estelionato, surgem golpes cada vez mais sofisticados, lembrando que a origem de tudo seria os velhos “contos do paco” ou do “bilhete premiado” de antigamente.

“Hoje existem quadrilhas de estelionatários especializadas em clonar cartões de créditos, tarjas magnéticas, em burlar sistemas informatizados sofisticados de segurança. A nova versão dessa modalidade de crime, levou ao surgimento de um novo perfil de policial, também com formação específica e atualiza para esses delitos. São quadrilhas muito sofisticadas. E a tendência é ficarem ainda mais”.

O ex-agente acrescenta outro exemplo de modalidade de crime, que atualmente é um dos maiores desafios da segurança pública no estado, que é o roubo de carga, que na verdade para os mais antigos sempre existiu. Há décadas, esse crime era cometido em escala bem menor, de acordo com o antigo inspetor, mas com o passar do tempo sua incidência se multiplicou, se tornando um pesadelo. Mesmo os crimes mais graves, como estupros e homicídios, por exemplo, tinham incidência.

“Nos crimes de estupro, onde as mulheres são as maiores vítimas, teve muitos casos que não houve sequer registro durante vários anos, ou por medo ou por constrangimento, por exemplo. Mas com o tempo, foram surgindo as Delegacias Especializadas (Deams), no início dos anos 90, e também as campanhas de prevenção, de alerta, além de leis mais rígidas. Nos crimes de homicídios dolosos (com intenção de matar), os mais recentes números, relacionados também com a população de cada cidade, há dados de incidência entre 10 e 15 registros por amostragem de 100 mil habitantes. Porém, já teve época de até 40 ocorrências do gênero pelo mesmo número de habitantes”.

“Tráfico de drogas já existia, mas não havia as facções A, B, e C”
Outro grande desafio da Segurança Pública é conter a incidência de roubos de veículos no Estado. Os policiais tiveram que se adaptar a uma nova realidade, destacou os policiais.

“Há anos, os bandidos roubavam carro para desmontá-lo e as peças eram vendidas nos chamados desmanches. Agora isso quase não ocorre. Tem várias quadrilhas especializadas na chamada clonagem de placa (às vezes até do número de chassis). Atualmente, os marginais roubam carros em sequência para tentar confundir os policiais ou então usam o veículo roubado para transportar comparsas e assim cometem outros crimes. Depois abandonam o veículo, ou simplesmente o incendeiam. Antes da chegada dos anos 90 não havia muitos traficantes ligados à facção criminosa A, B ou C. Mas o tráfico de drogas existia sim. O confronto entre policiais e criminosos idem. Nesse caso, com o tempo foram ocorrendo mudanças de nomenclatura para um mesmo tipo de ação. Na mais recente, passou de Auto de Resistência para Morte por Intervenção de Agente do Estado”.

Os crimes de extorsão mediante sequestro (com cativeiro e pedido de pagamento de resgate) também foram lembrados como de pouca ou quase nenhuma incidência em nossos dias. Nesse caso deram lugar a ações criminosas rápidas, os chamados sequestros-relâmpago, quando as vítimas são mantidas reféns por poucos momentos, sendo obrigadas a realizarem saques em agências bancárias ou fornecerem senhas de cartões bancários para os criminosos. Também, de forma mais esporádica, são registrados os assaltos a bancos.

“O que está ocorrendo na atualidade são bandidos usando explosivos para detonar caixas eletrônicos. Outros grupos usam até tratores para destruírem fachadas de estabelecimentos que possuem terminais 24 horas”, concluiu o agente aposentado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *