Criado em Niterói, presidente do Comitê Paralímpico Internacional fala dos desafios da atual Paralimpíada

Andrew Parsons também comenta o trabalho do comitê brasileiro e relembra como entrou por acaso no esporte paralímpico

Quem lê o nome do atual presidente do Comitê Paralímpico Internacional, Andrew Parsons, pode imaginar que se trata de alguém estrangeiro. E ao ver a fisionomia dele, de pele branca e com cabelo loiro, pode ter quase uma certeza que se trata de algum europeu. Mas ao contrário do que possa parecer, ele é brasileiro e nascido na cidade do Rio de Janeiro. Embora tenha se mudado ainda criança para a cidade de São Paulo, mudou-se na adolescência outra vez com a família para Niterói, morando em São Francisco.

Com o início dos jogos previsto para a terça-feira da semana que vem, no dia 24 de agosto, ele conversou de forma exclusiva com o jornal A Tribuna e falou dos principais desafios da edição atual dos Jogos Paralímpicos. Por determinação do Comitê Paralímpico Internacional, em anúncio feito nestaa segunda (16), o público não poderá comparecer às competições.

Parsons já se encontra no Japão depois de viajar por 39 horas de avião. Embora este seja a primeira vez que ele vai trabalhar nos jogos como presidente da entidade, na edição do Rio de Janeiro, em 2016, ele conciliou as funções de presidente com Comitê Paralímpico Brasileiro com as de vice do comitê internacional. Mesmo assim, explica que a responsabilidade é diferente em ambos os casos

“Muda muito quando se é presidente do comitê internacional. O cargo é a última linha, ou seja, quando todo mundo espera uma decisão vai procurar a presidência. Com isso, meu envolvimento com todas as questões de organização da Paralimpíada é muito maior do que quando fui vice-presidente, mesmo com os jogos sendo no Rio e eu tendo que me envolver bastante por ser no Brasil”, explica.

Dentre as decisões que o presidente se refere estão a criação de procedimentos que protejam os atletas e que ao mesmo tempo garanta a segurança da população de Tóquio. Parsons assume que isso é “muito difícil” pelo fato de nunca ter existido “um manual” para isso. Mas ele tem esperança que o saldo final venha a ser positivo pelo fato de os protocolos sanitários das Olimpíadas terem “funcionado bem”.

“O número de testes positivos entre os atletas na Olimpíada foi muito baixo. Então esperamos que esse não seja um problema, mesmo com as dificuldades em relação à pandemia. Mas esse não foi o único desafio. Tivemos que adaptar o calendário internacional no processo de classificação dos atletas para os jogos. Houve um atropelamento às vésperas da edição porque eram muitos atletas com chance de disputar as Paralimpíadas. Então muitas disputas classificatórias tiveram que ficar ‘inchadas’ para qualificar quem realmente iria para Tóquio”, detalha.

Andrew Parsons segura placa em referência à Paralimpíada de Tóquio. Foto: Reprodução/Facebook

Torcida pelo Brasil contida

Parsons começou a trabalhar no CPB praticamente desde o surgimento da entidade, em 1995, em Niterói. Por isso, acompanhou de perto o avanço do Brasil no quadro de medalhas a cada edição das Paralimpíadas. E admite que terá que se conter na hora de torcer para o país pelo fato de ter que se manter neutro por ocupar a presidência da entidade internacional.

“Vamos ver como vou reagir (risos). Sempre torci muito pelo Brasil quando era presidente do comitê brasileiro, até mesmo quando estava na vice-presidência da entidade internacional. Só que agora será a primeira vez que não estarei no comitê nacional. Então tenho que ser neutro pela minha posição. Nas Paralimpíadas de inverno, em 2018, em PyeongChang, na China, eu já estava na presidência, mas como o Brasil estava com uma delegação muito pequena, não tive esse problema. Internamente, vou torcer bastante, mas não deixarei transparecer isso externamente”, admitiu.

Entrada no comitê por acaso e saudades de Niterói

A entrada de Andrew Parsons no comitê se deu completamente por acaso. Ao passar em frente à sede, que na ocasião ficava na Rua Joaquim Távora, em Icaraí, ficou impressionado com o que viu e prontamente desceu do ônibus. Ele entregou um currículo para trabalhar como estagiário de comunicação, pois era estudante do curso na Universidade Federal Fluminense. Desde então, nunca mais parou.

“Minha entrada foi muito por acaso. Eu estava voltando para casa de ônibus, no 32, Centro-Cachoeira, e vi a sede do CPB logo depois que foi inaugurada. Fiquei impressionada com aquela fachada verde e amarela. Desci e fui me oferecer. Nem tinha vaga de estágio e disse para a recepcionista: ‘Sou estudante de comunicação, moro e estudo em Niterói e sei o que é o esporte paralímpico’. Depois me ligaram, fiz uma entrevista diretamente com o então presidente do comitê, o João Batista Carvalho e Silva, e depois de algumas semanas a pessoa que assumiu a assessoria de comunicação me ligou. Também fiz uma entrevista com ela e comecei a trabalhar no mesmo dia”, recorda-se Andrew, que é formado pela UFF em Comunicação Social.

Residindo há alguns anos em Brasília, desde que a sede do CPB se transferiu para a Capital Federal, Parsons reconhece ter saudades dos amigos que tinha em Niterói, principalmente as praias niteroienses, como Camboinhas, Piratininga e Itacoatiara. E mesmo não tendo mais parentes residindo no município, ele promete visitar a cidade “assim que a pandemia passar”.

Elogios ao atual presidente do CPB e comentários sobre o legado paralímpico

Parsons comentou o trabalho do atual presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, Mizael Conrado, como “brilhante”. Para o presidente do comitê internacional, o chefe da entidade brasileira acerta ao estender o trabalho do CPB para a educação esportiva inclusiva, principalmente no cuidado com a criança que tenha algum tipo de deficiência. Por isso, espera um “resultado extraordinário” da delegação brasileira em Tóquio.

E se nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 o tão falado legado deixou de ser cumprido em muitas promessas, Parsons não tem do que se queixar em relação ao tema no esporte paralímpico.

“No esporte paralímpico houve um legado muito forte. Eu entendo que esse tema ligado às Olimpíadas foi praticamente inexistente. Mas no paralímpico foi o contrário, pois houve um planejamento. Nós priorizamos três coisas: recursos financeiros, ter um centro de treinamento e ampliar o conhecimento no Brasil do esporte paralímpico. E conseguimos atingir todos esses objetivos. E isso foi muito positivo nos jogos do Rio de Janeiro, a conexão entre a torcida e os atletas foi espetacular. E graças aos apoios do Governo Federal e do Estado de São Paulo, construímos um CT enorme na capital paulista, um dos maiores do mundo”, explica.

Com início programado para o dia 24, os Jogos Paralímpico de Tóquio vão até o dia 5 de setembro. Desde as edições de Pequim, em 2008, o Brasil sempre ocupou um lugar entre os dez primeiro no quadro de medalhas. A expectativa é que o país consiga a melhor colocar da história na atual edição.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 × cinco =