Coronavírus dos ricos e o abandono da saúde pública dos miseráveis

Nos anos 1980 o economista Edmar Bacha, um dos pais do Plano Real, inventou um país chamado Belíndia. Seria um Brasil misturando a Bélgica pequena, justa e rica, cercada por uma Índia gigantesca, pobre, miserável.

O coronavírus mostra o lado Bélgica do país, mas a realidade cospe para fora a Índia podre que ninguém quer ver e varre para debaixo dos carpetes superfaturados de Brasília

Escrevo sexta-feira, 7 de fevereiro e há apenas nove casos de suspeita de casos de infecção no Brasil, mas bilionário governo de Belíndia e sua máquina de propaganda chinfrim está excitado em participar de uma quase epidemia de ricos, de primeiro mundo, coisa fina.

É elegante, dá status, sai em todas as TVs do mundo, como carro zero km na garagem comprado em 200 prestações, mas que “dá inveja no vizinho” que mês passado também enfiou um possante na garagem pagando 150 prestações. “Eu pago mais 50 prestações do que ele”, alegra-se, orgulhoso, o dono do novo zero KM.

Os generais do governo, de terno e gravata, chamaram de heróis os militares e outros profissionais que em dois aviões Legacy (jato top de linha da Embraer) foram até a China resgatar conterrâneos não contaminados, como se tivessem ido para uma sangrenta batalha na Síria. Custo com aviões, diárias extras, adicionais, gratificações de todos passam de meio milhão de reais.

Mil leitos zero km, enfermarias zero km, equipes uniformizadas, é a saúde da Bélgica em ação enquanto a Índia padece jogada nas portas de hospitais, morrendo e com “direito” a ter o corpo atirado no lixo por servidores públicos, como vimos recentemente.

Não há uma vítima sequer de coronavírus entre os 200 milhões de brasileiros – e temos que agradecer MUITO e somente a Deus por isso – mas sexta-feira passada 11 pessoas morreram em menos de 30 horas no Hospital Pedro II, da Prefeitura do Rio. Causa provável: negligência causada ou pelo sistema de ar-condicionado que não funcionava ou defeito no sistema de oxigênio. Ou ambos.

Mais: o Hospital Geral de Bonsucesso, na mesma sexta-feira, fechou a emergência por falta de médicos. Extasiada com os holofotes sobre o coronavírus, que dá status e audiência, a mídia passou batida pela tragédia dos dois hospitais do Rio. Só mesmo o RJTV segunda edição mostrou a sórdida situação e ainda uma revoltante série sobre o despejo de esgoto no Rio Paraíba de onde a Cedae tira a água que os cariocas bebem. Nenhum jornal falou do drama do Pedro II e do Hospital Federal de Bonsucesso.

Como pode 11 pessoas morrerem por negligência em um hospital municipal e : 1 – o prefeito do Rio continuar solto; 2 – a população não se mobilizar, fazer barricadas, parar o trânsito; 4 – todos os políticos ignorarem; 3 – a Justiça ignorar; 4 – a mídia optar por fazer escândalo exclusivo de uma doença que ainda não chegou ao Brasil. E ainda: como pode o Hospital Geral de Bonsucesso chegar a nível tão baixo e o ministro da Saúde e seus baba ovos ignorarem solenemente. Estou há três dias estudando todos os gastos do Ministério da Saúde no Portal da Transparência para entender onde foram usados R$ 147 bilhões do orçamento do ano passado. Este ano são R$ 230 bilhões. É muito dinheiro. Muito.

O Pedro II é um hospital histórico, gigantesco, fundamental. Como é o de Bonsucesso, também abandonado, sem médicos, fechando emergência enquanto tipo o grupo que comanda a saúde do governo federal fica o dia inteiro no ar condicionado, tomando cafezinho com a imprensa e anunciando saúde de luxo com jatos, novos leitos, novo isso, novo aquilo só para dizer “o Brasil é pode, o Brasil é rico, o Brasil vai mandar dois aviões a China porque o Brasil cuida do seu povo”. E as vítimas do Pedro II e de Bonsucesso? Como é que ficam?

Sabe como ficam? Ficam do mesmo jeito. Para prosseguir em seu projeto de arruinar de vez o Rio, o prefeito Nero Segundo vai se aliar ao presidente que precisa destruir o governador. Isso mesmo, destruir é a única proposta. Pior: prefeito e presidente sob o comando do traficante de fé, bispo com b minúsculo, que é tio do alcaide carioca. Infelizmente, se for assim, o macabro prefeito vai ficar mais quatro anos porque ninguém supera os universais no quesito compra de votos. Ninguém!

E a Belíndia não sai da TV, enrabichada com o coronavírus. Enquanto isso, esta semana, presidente da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) e ex-assessor do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni foram alvos de busca e apreensão em operação da Polícia Federal por desvio de R$ 50 milhões no Ministério do Trabalho.

O secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten, e o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio são acusados de corrupção. Lula pode ganhar salário de milhares de reais por mês do PT que usa dinheiro do fundo partidário, ou seja, nosso.

A poucos metros do iceberg a orquestra continua tocando a bordo do Titanic.

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