Como se não bastasse, morre Jô Soares

 Luiz Antonio Mello

O brasileiro ferrenho, democrata, humorista, jornalista, escritor, dramaturgo e tudo ao mesmo tempo, Jô Soares, 84, foi embora.

Sem se despedir, deu sequência a sua turnê pelo universo, após passar anos de reclusão em casa, depois que foi grotescamente limado da Rede Globo onde mantinha o sensacional Programa do Jô.

No último 25 de julho foi internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para tratar de uma pneumonia, permanecendo no hospital por 22 dias. Morreu ao lado da mulher Flavia Pedra Soares que disse que ele estava “cercado de amor e cuidados”. O funeral será restrito para família e amigos próximos.

Última aparição

Sua última aparição pública foi em fevereiro de 2021, quando esteve no Estádio do Pacaembu para se vacinar contra a Covid-19. Jô foi um dos primeiros a se vacinar em sua faixa etária. De máscara, dentro do carro, ele falou com jornalistas na época e fez um alerta.

“Alívio. Um grande alívio. Vacinem pelo amor de Deus”, disse Jô após receber a dose.

Dá para ouvir daqui o espocar das garrafas de tubaína e sidra vagabunda nos gabinetes de Brasília comemorando “um comunista a menos” na orgia nacional. Também a pelegada que assaltou o país, via Petrobrás, não deve estar contendo o deleite porque Jô foi crítico ferrenho da horda que trocou o macacão por ternos top de linha, graças a dinheirama roubada.

Escreveu cinco livros, atuou em 22 filmes e é considerado o pioneiro do stand-up. Um dos poucos gênios que passaram pelo Brasil, ele optou por viver em São Paulo, mas começou a fazer história em 1956 na TV.

Democrata ferrenho, Jô Soares foi um dos felizardos que viu o Brasil feliz na Era JK, que surgiu do humor, talento, alto astral, essência também democrata do presidente Juscelino Kubitschek. Jô testemunhou o Brasil Bossa Nova e não amarelou quando a primeira onda da treva baixou por aqui com o golpe de 1964. Piorou com a segunda onda em 1968, com o AI-5, popular verdugo, até que veio o refresco da abertura política em 1984.

Destemido, peitou os meganhas em rede nacional com piadas tão refinadas que os gorilas não entendiam. Chegou a ser ameaçado de prisão pelo velho motivo de sempre: excesso de pregação libertária.

Intelectual de primeira linha, Jô falava, com diferentes níveis de fluência, vários idiomas: português, inglês, francês, italiano e espanhol, além de ter bons conhecimentos de alemão e mandarim. Traduziu um álbum de histórias em quadrinhos de Barbarella, criação do francês Jean-Claude Forest. Era católico, sendo devoto de Santa Rita de Cássia.

O apresentador admitiu sofrer de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Em sua casa, os quadros precisam estar tombados levemente para a direita. Jô foi sobrinho de Togo Renan Soares, conhecido como “Kanela”, ex-treinador da seleção brasileira de basquetebol. No dia 1 de outubro de 2012, levou ao ar um programa especial que reprisou uma entrevista com Lolita Rodrigues e Nair Bello em homenagem à apresentadora Hebe Camargo, com quem declarou ter vivido intensas alegrias.

Jô Soares foi um grande conhecedor de jazz e chegou a apresentar um programa de rádio na extinta Jornal do Brasil AM, no Rio de Janeiro, além de uma experiência na também extinta Antena 1, Rio de Janeiro. Infelizmente a falta de tempo impediu que ele desse sequência aos programas.

Ele deixa um rombo, uma sensação de orfandade em todos nós, democratas que, mesmo roucos, exaustos, ainda tentam defender o país que, difícil admitir, parece que não era dele. E muito menos nosso.

Siga em paz, José Eugênio Soares.