Comércio no entorno da UFF agoniza sem aulas presenciais

Os empreendedores de atividades comerciais relacionadas a prestação de serviços à comunidade acadêmica, que movimenta os campus da UFF, em Niterói, relatam que o retorno das aulas na modalidade híbrida não reduziu os prejuízos acumulados após mais de um ano e meio de recessão, devido ausência das atividades presencias na instituição, durante a pandemia.

A previsão é que a situação permaneça até o início do próximo semestre letivo – o que só deverá ocorrer em março de 2022 – quando as aulas deverão voltar a ser 100% presencias, em todos os campus da instituição. O modelo híbrido consiste em um revezamento entre aulas presenciais e remotas. Enquanto isto não acontece, os comerciantes lutam para manter seus estabelecimentos funcionando.

O retorno das atividades presenciais na UFF, ainda que no regime de aulas na modalidade híbrida, foi amplamente discutida em diversas instâncias da instituição, tais como o Conselho Universitário, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPEx), o Fórum de Chefes de Departamento e Coordenadores de Curso, os GT Covid e o GT Infraestrutura, o que garante a legitimidade do processo até o término do atual semestre, previsto para fevereiro de 2022.

Uma das medidas adotadas pelo fórum que mais tem causado polêmica é a autonomia que os departamentos adquiriram para decidirem, individualmente, se devem ou não aderirem ao retorno gradual das atividades presenciais, na modalidade híbrida. Passado o primeiro mês de início das aulas do segundo semestre letivo de 2021, o que se observa é um grande contraste entre os campus universitários da UFF, em Niterói, especialmente entre os Campus Gragoatá, que continua praticamente sem qualquer atividade presencial, e o Campus Valonguinho, onde a maioria dos cursos já funcionam na modalidade híbrida, com aulas presenciais acontecendo diariamente.

Um grupo de três estudantes da faculdade de odontologia (que fica no Campus Valonguinho), relata que ingressaram no curso em 2020, justamente no início da pandemia. As alunas afirmam que, durante três períodos, o contato com as disciplinas foi exclusivamente online e que não viam o momento de iniciarem as atividades práticas que o curso exige.

“Estamos tendo aula presencial de 15 em 15 dias. Dividiram a turma em duas, daí metade vem assistir aula numa semana, enquanto a outra metade acompanhamos de casa remotamente. Na semana seguinte é a vez de quem ficou em casa vir para a aula presencial, enquanto a outra assiste em casa”, explica a estudante Cláudia Lima, destacando que “aprendeu mais sobre a disciplina com duas aulas práticas, do que durante um ano inteiro em aulas remotas”.

No Campus Valonguinho, além da faculdade de odontologia, os alunos de biomedicina e anatomia da faculdade de medicina e os estudantes da faculdade de química também já retornaram às aulas presenciais, também na modalidade híbrida.

CANTAREIRA SOFRE REFLEXOS PELA AUSÊNCIA DE ATIVIDADES

Diferentemente da situação no Valonguinho, grande parte dos cursos de graduação do Campus Gragoatá da UFF continua sem atividades presenciais, ainda funcionando na modalidade remota. Os impactos dessa realidade tornam-se evidentes pela grande quantidade de estabelecimentos fechados e ruas desertas na área próxima ao Campus. A praça Leoni Ramos (popularmente conhecida como praça da Cantareira), situada em frente ao Campus, é o maior exemplo da situação de abandono que tomou conta da região. Principal centro do comércio que atende as demandas da comunidade acadêmica do Campus, sem a presença dos alunos que frequentam a região durante o período de aulas, lojas, bares e restaurantes amargam incontáveis prejuízos e muito não resistiram ao longo período de recessão e precisaram fechar as portas. Os que conseguiram resistir, afirmam que depositam as últimas esperanças no retorno total das atividades presenciais, que deve acontecer no próximo semestre letivo, a partir de março do próximo ano.

Entre os comerciantes da Cantareira que aguardam o retorno dos alunos da UFF, muitos afirmam que só conseguirão se manter até o início do próximo ano, como no caso de Hildon Alves da Silva (69 anos), proprietário de uma livraria situada no local.

“Sem os alunos da UFF, a Cantareira fica totalmente vazia, deserta. Para o comerciante, fica difícil sustentar a vida. Nós abrimos esse espaço pensando na expectativa do retorno das atividades da universidade. Estamos ‘aos trancos e barrancos’, tentando sobreviver, aguardando a faculdade reiniciar as aulas”, esclarece o comerciante que relata ter inaugurado a livraria há cerca 4 meses, na esperança de que as aulas retornariam em outubro, o que acabou não acontecendo.

Hildon também destaca que diversos comércios vizinhos precisaram encerrar suas atividades, nos últimos meses. O comerciante explica que não consegue entender porque a UFF ainda não retomou as atividades presenciais, uma vez que a vacinação se encontra tão avançada, mesmo entre os jovens. “As escolas já voltaram com as aulas e a UFF, por razões desconhecidas, talvez por questões políticas ou ideológicas, talvez por falta de coordenação, por estar muito tempo parada, não conseguem se organizar para voltar. Mas, acredito que eles não poderão segurar isso por muito tempo, pois a faculdade precisa voltar a funcionar. Queiram ou não queiram, não tem jeito: uma hora, a faculdade vai ter que voltar!”, finaliza o comerciante.

CDL RECONHECE IMPACTOS NEGATIVOS

A Câmara de Dirigentes Logistas de Niterói (CDL Niterói) explica que ainda não há um estudo detalhado sobre a quantidade de estabelecimentos que deixaram de funcionar na região, mas confirmam que esse número é elevado. A CDL reconhece que a ausência de aula no Campus Gragoatá da UFF impactou profundamente o comércio local, uma vez que ele depende quase que exclusivamente da circulação dos estudantes e membros da sociedade acadêmica da universidade. Moradores da região também demonstram preocupação com a situação de abandono do local, o que vem originando diversos problemas, tais como o considerado aumento da população em situação de rua ocupando a praça da Cantareira, ou a falta de policiamento na área, o que aumenta a sensação de insegurança.

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