Combate às drogas na sala de aula

Anderson Carvalho –

Para preocupação de professores e pais de alunos, o consumo de drogas lícitas como álcool e o cigarro e as ilícitas, como a maconha, a cocaína, o loló e outras, estão aumentando entre os adolescentes, principalmente entre os alunos de escolas públicas dentro de comunidades pobres. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (Pense) de 2016, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de estudantes do Ensino Fundamental, entre 13 e 15 anos, que já usaram algum tipo de droga lícita, como álcool e cigarro, aumentou de 50,3% em 2012 para 55,5% em 2015. Já entre os que usam drogas ilícitas, como maconha, crack, cocaína, cola, loló, lança-perfume, ecstasy e outras, passou de 7,3% para 9% no período.

Diante desses números, um grupo de dez estudantes do 4º curso de Medicina da UFF resolveu fazer um trabalho de prevenção ao uso de drogas em alunos do 6º, 7º e 9º anos do segundo segmento do Ensino Fundamental da Escola Estadual Maria Pereira das Neves, no Morro do Preventório, em Charitas, no segundo semestre deste ano. O trabalho consistiu em encontros entre os meses de setembro e outubro com os adolescentes visando conscientizá-los.

Os universitários fizeram o trabalho dentro da disciplina Trabalho de Campo Supervisionado II e foram monitorados pelo professor Carlos Dimas Ribeiro. Os alunos se dividiram em vários grupos de dez em diversas comunidades de Niterói, onde atuaram em módulos do programa Médico de Família. No caso do grupo do Preventório, os alunos começaram a atuar na unidade local, em consultas, pré-consultas e acompanhamento de visitas domiciliares.

“Tivemos a ideia de fazer um trabalho com os alunos da escola e a diretora nos sugeriu que abordássemos o uso de drogas, pois era um problema preocupante na instituição. Começamos os encontros em setembro. Nós pesquisamos sobre o tema e elaboramos como iríamos abordar os alunos”, contou Aramis Amaral, de 20 anos. “Ela também indicou as turmas do sexto, sétimo e nono anos, onde havia mais casos de abusos de drogas. Fizemos dois com cada turma. Trabalhamos com quase cem alunos, divididos em quatro turmas”, acrescentou Camila Diuana Martins, de 21 anos. “Em cada turma fizemos divisão de grupos. Um discutia as drogas lícitas e outro, as ilícitas”, lembrou Paulo Postigo, também de 21.

O primeiro encontro com os alunos da escola, realizado em setembro, foi para os universitários se apresentarem e começarem a criar vínculos e assim começar a discutir o tema. “Antes mesmo do primeiro encontro, deixamos uma caixinha na secretaria, como se fosse um cofre, onde eles podiam depositar perguntas sobre o assunto sem se identificar. Além disso, distribuímos cartazes pela escola para chamar a atenção dos adolescentes, com memes e alguns fatos relacionados ao uso de drogas. Isso serviu como convite para que eles participassem das atividades”, relata Camila. “Fizemos perguntas do tipo ‘mito ou verdade’ para testar os conhecimentos deles. Entre as questões mais frequentes apresentadas estavam o por que droga mata? Por que o pó se cheira? Por que a maconha faz mal?”, citou Aramis. “Vimos que alguns já tinham consumido maconha e outros tinham parentes que usavam drogas. Um relatou que vira o pai cheirar cocaína”, relatou Paulo. “Teve um aluno que contou que estava com dor de cabeça e falou que estava há uma semana sem fumar maconha. Apresentava sintomas de crise de abstinência”, contou Aramis.

De acordo com o grupo, por estar inserida numa comunidade, a questão das drogas é uma realidade enfrentada pela escola. “O nosso objetivo foi prevenir o uso. Mostrar os malefícios das drogas e fazer com que os alunos não usem ou demorem mais a usar”, afirmou Paulo. “Eles contaram que costumam obter informações sobre o assunto na família e na igreja”, disse Unailaiã Nunes Latessa, de 32 anos, acrescentando que agentes comunitários da Saúde da prefeitura também participaram dos encontros.

No segundo encontro, os universitários pediram aos alunos que fizessem esquetes teatrais sobre situações que vivenciavam envolvendo as drogas, além de orientar como os adolescentes deveriam proceder caso alguém oferecesse entorpecentes. “Teve um que interpretou o pai embriagado”, relatou Paulo.

“Mostramos que a maconha, por exemplo, era uma droga depressiva e poderia causar alucinações”, disse Camila.

A diretora da escola, Vírginia de Paes Barreto, elogiou o trabalho feito pelos estudantes da UFF. “Foram excelentes. Era um assunto que precisava ser discutido no colégio. Ano passado, tivemos um aluno que se envolveu com o tráfico local e acabou morrendo em um confronto com a polícia. Queremos evitar perder mais alunos. Teve uma vez que um aluno chegou embriagado à sala de aula e acabou se sentando no chão em vez da carteira”, relatou a diretora.

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