Com Deus no coração?

Batizaram de onipotente quem acha que é Deus. Mesmo eles, os onipotentes, como os gênios, os loucos e mesmo os poetas, são incapazes de definir Deus.

Um dicionário diz: “O ser que está acima de todas as coisas; o criador do universo; ser absoluto, incontestável e perfeito, ente infinito, eterno, sobrenatural e existente por si só; causa necessária e fim último de tudo que existe”.

Deus é a essência de tudo, de todos. É o mais profundo sentimento que um ser pode nutrir, acima de todas as tormentas, do caos, da incompreensão. Quem já foi abençoado por milagres entende o quanto é fundamental crer, agradecer, e desistir de tentar entender este Ser supremo e, imerso na fé, assumir sua pequenez e simplesmente reverenciar, sem querer vasculhar Deus, saber como age Deus, como é Deus. Deus é Deus. Ponto. Isso basta.

Aí vem a grande questão. Quem utiliza este Ser Supremo ou, pior ainda, usa o Seu nome para praticar atrocidades, traficar milagres, roubar, difamar, enfim, pratica e exibe a blasfêmia é maluco, doente ou simplesmente um déspota desprezível?

O presidente da República se autodeclara evangélico, diz que tem Deus no coração, mas defende as armas, manipula a massa, despreza a natureza, banha-se em ódio diariamente, joga uns contra os outros, desdenha uma doença que já matou 170 mil brasileiros (“E daí?”, ele disse certa vez) enfim, esse homem pode ter tudo no coração menos o Deus que nós conhecemos, ou deveríamos conhecer.

Recentemente ele falou a uma multidão em Pernambuco:

“Vamos caprichar para escolher prefeito e vereador. Vamos escolher gente que tenha Deus no coração, que tenha na alma patriotismo e queira de verdade o bem do próximo. Deus, pátria e família”.

É o caso também do prefeito do Rio e candidato a reeleição, sobrinho de um poderoso e milionário comerciante de fé e vendedor de milagres, dono de uma rede mundial de igrejas que tem Deus em seu nome. Esse prefeito é acusado de corrupção, uso indevido da máquina pública, nepotismo e corre o risco de se tornar inelegível. E mente, como mente.

Criminosamente manipula informações sobre doenças e é considerado o pior prefeito do Rio desde a fundação da cidade em 1565. Mesmo assim, rejeitado por 60% dos cariocas, ele vai disputar o segundo turno da eleição. Esse homem também diz que tem Deus no coração e, pior, é pastor, aliás, bispo da igreja do tio.

Até semana passada o presidente e o prefeito apareciam no horário eleitoral da TV reafirmando serem filhos de Deus, de ter Deus no coração, dizer graças a Deus, tudo para fazer o povo e reeleger o prefeito pastor. Ambos rasgam o Terceiro Mandamento, sabendo o que fazem porque, em busca de votos e incautos, ao longo da vida, aprenderam a decorar a Bíblia. O Terceiro Mandamento está em Êxodo 20:7 – “Não tomarás o Nome do Senhor teu Deus em vão, porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o Seu Nome em vão”.

O que será pior? Os poderosos de Roma que, por medo, caçaram e mataram crucificado o filho de Deus e muitos de seus seguidores ou esses déspotas dos dias de hoje que desprezam a força de Deus? O que diria Jesus Cristo de uma deformação chamada “bancada evangélica”, horda de engravatados que, com a Bíblia na mão, e em nome de Deus, fazem qualquer negócio para se manterem no poder, de preferência ricos, não importando a origem do dinheiro?

É isso que eles chamam de Deus no coração?

Escreve o catecismo: “A blasfêmia é o desrespeito a Deus e ao seu nome, que é um pecado grave. A blasfêmia opõe-se diretamente ao segundo mandamento. Consiste em proferir contra Deus – interior ou exteriormente – palavras de ódio, de censura, de desafio; dizer mal de Deus; faltar-Lhe ao respeito nas conversas; abusar do nome d’Ele.

É também recorrer ao nome de Deus para justificar práticas criminosas, reduzir povos à escravidão, torturar ou condenar à morte. O apóstolo Tiago, pergunta em referência ao uso do nome de Jesus ‘Não são eles que difamam o bom nome que sobre vocês foi invocado?’”.

A definição de “Deus no coração” parece nos remeter ao episódio da expulsão dos vendilhões do templo. Foi quando Jesus visitou o Templo de Jerusalém, o Templo de Herodes, cujo pátio é descrito como repleto de animais e mesas dos cambistas, que trocavam o dinheiro padrão grego e romano por dinheiro hebraico e de Tiro. A cidade estaria lotada, algo em torno de 350 mil peregrinos.

No relato de Mateus “fazendo um chicote com algumas cordas, Jesus expulsou todos os que ali vendiam e compravam, derrubou as mesas dos cambistas, e as cadeiras dos que vendiam as pombas; e disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a fazeis covil de salteadores.» (Mateus 21:12-13)”.

Fim.

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