Clubes resistem à especulação imobiliária

A cidade de Niterói sempre foi um reduto de grandes clubes, de referência em esportes até somente para convívio social. Mas o inchaço na cidade, a especulação imobiliária e o crescimento de condomínios com lazer completo, impactam na realidade econômica dos clubes. Em alguns casos o glamour desses espaços hoje dá lugar a grandes prédios. Mas há ainda clubes que resistem nesse processo de desvalorização e continuam unindo os sócios e com venda de títulos sem previsão de abertura.

Niterói possui dezenas de clubes da Zona Sul a Zona Norte e Henrique Miranda, diretor da Associação de Clubes de Niterói (ACN), explicou que a crise financeira que assola todo o país atrapalha muito o funcionamento dos clubes. “O clube é tido como supérfluo e na hora de fazer uma redução de custos, essa mensalidade é retirada do gasto de orçamento familiar. Niterói tem uma referência boa de clube, une as famílias e é um entretenimento. A pandemia e a crise financeira estão atrapalhando a sobrevivência desses espaços. Nesse contexto a especulação imobiliária cresce”, contou.

Foi justamente o que aconteceu recentemente com o Clube de Regatas Icaraí que sempre teve sede na “Praia de Icaraí” e hoje funciona na Estrada Fróes número 38. Após disputa na justiça desde 2014 entre sócios o tradicional clube, referência nos anos 70 e 80 para os esportes aquáticos do Rio de Janeiro, teve a concretização da venda do terreno. No local será construído por uma empresa um empreendimento de luxo com duas torres e 44 apartamentos em 8 mil metros quadrados. O problema judicial se arrastou desde 2014 quando a possibilidade da venda do terreno começou a ser uma alternativa real para tirar o clube das dívidas. Um grupo de sócios teria ajuizado uma ação para impedir a venda no valor de R$ 40 milhões para a construtora, o que foi parar na Procuradoria Geral do Estado (PGE).

A justificativa seria que na década de 30 o então Governador Ernani do Amaral Peixoto cedeu o uso do espaço para uso com a contrapartida da oferta de vagas de esportes para alunos da rede pública. “Nessa regra os terrenos não poderiam ser vendidos e também não podiam ser executados em caso de dívidas. Isso gerava cada vez mais dívida. Então o governo tirou essa cláusula e autorizou a venda”, explicou Leandro Leite, que disse que o clube tem 188 títulos. Após anos brigando na justiça o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF) em 2017 e em 2021 o relator do STF, Ministro Edson Facchin, deu parecer positivo para a negociação entre o clube e a construtora.

A mesma percepção teve o presidente Paulo Henrique Cerchiari,  mas conhecido como Piu, do Praia Clube São Francisco. Ele explicou que não percebeu diminuição no número de sócios, e ao contrário, os 1.500 títulos estão todos ativos. “Temos fila de espera para quem tem interesse em se associar. Vimos após a pandemia a valorização no título. Estimamos que cerca de seis mil pessoas fazem parte de nosso quadro social. O Praia Clube não sofre com especulação imobiliária pela própria característica do terreno, que desde a sua instalação e aterramento, na década de 60, segue uma série de normas”, contou. Se antes o título custava R$ 12 mil agora chega aos R$ 23 mil reais. “Isso além da além da mensalidade. Esses valores são negociados pelos proprietários, de acordo com oferta e procura”, completou Piu.

No mesmo bairro, o Comodoro Herval Latini Moreira, Iate Clube Brasileiro (ICB), garantiu que também não percebe qualquer diminuição do número de associados. “Em detrimento ao aumento dos empreendimentos imobiliários não percebemos, mas sim pela pandemia, que foram poucos. Temos atualmente 480 títulos de associados proprietários. Não sofremos qualquer pressão com a especulação imobiliária. Quanto aos condomínios com lazer, não há como comparar, pois somos o único clube da orla que tem piscina com água salgada e mais, temos o mar a nossa frente para a pratica  de  todo  e  qualquer esporte aquático”, exemplificou.

Já o responsável do Rio Cricket Associação Atlética, que fica em Icaraí, o presidente Marcos Flávio Côrtes, disse que não identificou nenhuma mudança significativa de sócios em relação ao aumento dos empreendimentos imobiliários. “O quadro de sócios continua o mesmo, pois sempre que sai um, entra outro”, resumiu. O número de títulos não foi divulgado pelo clube.

FECHADOS

Muitos clubes não conseguiram resistir a vários problemas e acabaram fechando em Niterói. Esse é o caso do Clube Marajoara Society, no Fonseca, Icaraí Praia Clube (IPC) e o Clube Italiano, em Piratininga. Recentemente, o problema afetou também a cidade de São Gonçalo, com o fechamento das atividades do Tamoio Futebol Clube, por exemplo.

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