Cidadãos tornam-se mais conscientes do seu papel

Anderson Carvalho –

Desde 2013, quando ocorreram as famosas Jornadas de Junho, com grandes manifestações populares em todo o país e com os escândalos políticos a seguir, as pessoas passaram a se interessar mais pela politica, manifestando a sua indignação de diversas maneiras. Não só em passeatas, como as redes sociais e audiências públicas nas casas legislativas, onde podem se fazer ouvir.

Na Câmara de Vereadores de Niterói, se por um lado algumas audiências públicas sobre o Plano Diretor Municial atraíram público médio de 100 pessoas, de acordo com a assessoria da Casa, outras, sobre a proposta da Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2018, atraíram público menor, em torno de dez pessoas. A juventude também tem se tornado mais presente. Na audiência pública sobre o Meio Passe Universitário, no último dia 8, movimentos sociais ligados à juventude lotaram as galerias do legislativo.

Para o presidente do Conselho Municipal da Juventude de Niterói, Raphael Costa, de 23 anos, a sociedade precisa tomar conta da política. “Democracia não é só ir às urnas e votar. Não é só criticar nas redes sociais. É importante a participação ativa. Quando a sociedade se mobiliza por alguma causa, consegue influenciar e até mudar as decisões dos que estão no poder. Um bom exemplo disso foi em 2013, com as manifestações pela revogação do aumento das passagens de ônibus. As pessoas estão discutindo mais a política nas redes”, avaliou Raphael.

Segundo o ativista, é preciso conscientizar mais os moradores das comunidades. “Não há uma educação democrática. Poucas pessoas sabem o que é o orçamento, por exemplo. As organizações de sociedade civil precisam se enraizar mais nas comunidades”, observou Raphael. Para ele, as audiências públicas precisam ser melhor divulgadas. “Algumas são pouco divulgadas. O que acontece também é que muitas vezes os cidadãos veem que o que ele propõe nas audiências não resulta em nada”, explicou Raphael.

O presidente do Conselho Comunitário da Região Oceânica de Niterói (Ccron), Gonzalo Teles, concorda com Raphael. “As pessoas em geral não têm conhecimento sobre o orçamento e aplicação do dinheiro público. Por outro lado, conseguimos mobilizar várias pessoas para as audiências sobre o Plano Diretor, por causa de questões ambientais e a ocupação do solo urbano. Os atos públicos também são uma forma de participação política”, observou Gonzalo.

O teólogo Moisés Corrêa frequenta as audiências públicas na Câmara de Niterói sempre que pode. Seja sobre Plano Diretor, Lei Orçamentária Anual (LOA) e até sobre o projeto da Escola Sem Partido. Ele considera as audiências um instrumento importante, mas acha que a participação política dos cidadãos ainda pequena.

“As audiências públicas são um importante mecanismo. O grande desafio é fazê-las de uma forma que atraia mais a população. Hoje, infelizmente, são poucas as audiências onde você consegue ter um número de cidadãos grande de verdade. As redes sociais, também. Não podemos deixar de perceber que elas se tornaram um ambiente em que muitas das vezes não tem acontecido o debate e o diálogo, mas, briga e o embate”, afirmou.

Para o subsecretário Robson Guimarães Filho, da Coordenadoria Municipal da Juventude, as audiências são mecanismos fundamentais para a população expressar a sua vontade, contudo, os escândalos políticos desestimularam as pessoas a participar de tais fóruns. “A participação popular deve ser sempre incentivada por quem toma as decisões políticas, em qualquer âmbito de poder, afinal, aquele que possui um cargo ou exerce um mandato, está ali para representar as vozes das ruas. As redes sociais incentivam que você manifeste ali, para milhares de pessoas, a sua opinião sobre qualquer assunto, inclusive sobre a política. No entanto, muitos acreditam que tão somente uma postagem com um número de curtidas seja suficiente para promovermos as mudanças que são necessárias”, lamentou Robson.

O presidente da Câmara, Paulo Bagueira (SD), afirma que as audiências não são o único meio de participação política. “Há outros mecanismos de participação política dos cidadãos, como a Escola da Democracia, onde, uma vez por semana, um vereador recebe crianças para conhecer como funciona o processo legislativo e passar o que aprenderam aos seus pais. Podemos formar novas lideranças na cidade”, contou.

O cientista político Márcio Malta, do Departamento de Ciência Política da UFF, acredita que a mobilização política diminuiu desde 2013. “Se assemelha aquela anedota que depois que o cachorro alcança o carro ele não sabe o que fazer. Por sua vez as audiências são um ótimo mecanismo de participação. Mas, de fato, muitas das vezes somente lotam quando o termômetro sobre a questão está mais quente. Por último, as redes sociais acabam por canalizar a vontade de participar, porém as vejo apenas como mais uma forma de convocar do que o protesto por si só”, analisou.

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