Chico Buarque, Wanda e eu no Snoopy

Luiz Antônio Mello 

Foi nos anos 1980.

A estação das barcas era uma espécie de caixa de sapatos, um retângulo onde ficavam algumas lojas. Bem a esquerda estava o bar Snoopy, botequim popular com uma varanda que avançava no mar, como muitos outros, virava a noite.

Niterói já foi boêmia, muito boêmia e muitos botequins não dormiam, especialmente no Centro da cidade que, ao logo do tempo, se tornou um deserto de cimento.

Em uma noite de sábado eu estava no hall do Teatro Municipal esperando o sinal de entrada. Apesar de ser inverno suava muito porque o teatro (ainda não tinha sido restaurado*) não tinha ar condicionado. E de repente Chico Buarque entrou. Ele acompanhava a sua então mulher Marieta Severo que foi assistir a peça em cartaz.

Eu o conhecia como jornalista, já o havia entrevistado algumas vezes, mas evidentemente ele sequer sabia o meu nome. Provavelmente (isso é uma mera ilação) deve ter pensado “conheço aquele cara de algum lugar” e me perguntou “sabe onde posso tomar um cafezinho aqui nessa região?”. Eu disse “claro, te levo lá”.

E fomos caminhando até para o Snoopy. Eu até cometei “o bar é popularzão, ok?, sem luxo nenhum” e ele quase comentou “tá me estranhando?”.

São João é padroeiro de Niterói, por isso o céu naquela noite de junho estava cheio de balões. Esfuziante, parecia em festa. Na época o perigo fatal dos balões ainda não estava na agenda ambiental. No meio fio em frente ao Snoopy, Chico parou olhando para o alto e comentou, voz baixa, “impressionante”.

Era mesmo.

Um peão lanternado, certamente com mais de 200 folhas, vinha caindo, caindo. “Raspou” no prédio dos Correios a caminho do mar. Embaixo, uma multidão correndo atrás. Muitos de carro abandonavam os veículos na rua, desciam um barranco a esquerda do Snoopy e mergulhavam junto aos cais na ilusão de conseguir pegar o balão, que acabou agarrado por um pessoal que usava botes e lanchas pequenas.

Perguntei se Chico queria entrar no bar, ele preferiu o balcão, em pé. Tomou três cafezinhos, eu um. Ambos fumávamos como duas usinas de carvão. Reconhecido por muitos, seu jeitão meio “mantenha distância”, ouvi alguns “olá, Chico”, que ele respondeu, mas ninguém pediu autógrafo. Uma das pessoas que deram “oi” foi Wanda, um mulher que semanas depois fez de meu coração Hiroshima, fulminado por uma paixão proibida tão feroz que me tornou um quase Noel Rosa, que, em provável gesto extremo, iria se encachaçar e tombar bêbado na beira do cais. Mas esse é outro assunto.

Chico era um cara reservado, fechadão. Super boa praça, mas extremamente na dele. Tanto que mal conversamos. Ele, quieto por temperamento e eu por temor reverencial, mas lembro de termos falado de balões, cultura popular e fizemos alguns comentários quando uma Kombi pegou fogo bem ali, na rua.

Por falar em Kombi, queria muito ter perguntado como ele e um grupo de outros artistas, conseguiram escapar da polícia em uma Kombi no episódio do show proibido na faculdade de Direito da UFF, início dos anos 1970.

Chico, Milton Nascimento e vários outros tinham um show agendado, mas a polícia política achou que seria uma manifestação subversiva. Mandou vários camburões para a faculdade e, com certeza, teriam prendido os artistas que, por sorte não tinham chegado porque a Kombi que os levava furou um pneu no caminho. Quando apareceu nas imediações os estudantes gritaram “sai, sai, sai!”, o motorista acelerou a Kombi que desapareceu.

Lembro que li a respeito em um artigo num jornal de bairro intitulado “O que foi feito de Vera?”, uma menção a belíssima música de Milton com letra do saudoso Fernando Brant.

Quase uma hora depois de não papo mas de muita satisfação, Chico Buarque e eu retornamos ao Teatro Municipal. “Valeu, obrigado”, ele disse. “Valeu você”, eu disse. Ele sumiu e eu voltei para o Snoopy onde disse a Wanda que a sua bomba nuclear havia atingido o meu epicentro. Mas isso é outro assunto.

*O Teatro Municipal de Niterói foi totalmente restaurado entre 1991 e 1994, um trabalho dirigido pelo artista plástico e restaurador Claudio Valério Teixeira.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

catorze + sete =