Centenário do PCB é comemorado em Niterói

Na sexta-feira (25), foram celebrados os 100 anos do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Um ciclo de palestras, que fazem parte de um seminário, aconteceu na Faculdade de Direito da UFF, no Ingá. A homenagem ao centenário foi realizada pela Fundação Astrojildo Pereira (FAP) para lembrar a história e desenvolvimento do partido, que nasceu em Niterói.

O PCB foi fundado 1922, na Rua Visconde de Rio Branco,por um grupo de nove pessoas, que sonhavam com a chegada do proletariado no poder. Cientistas políticos explicam os caminhos da história, ruptura dentro do partido nos anos 1960 e a não implantação do comunismo no Brasil.

Foram ministradas quatro palestras relacionadas com o PCB e o aspecto histórico, no mundo da cultura, nas lutas sindicais e na juventude. O debate aconteceu no auditório onde também foram descerradas duas placas em homenagem aos militantes e dirigentes do PCB mortos na ditadura militar (1964-1985). Uma placa ficará na sede de Brasília e outra na sede do Rio de Janeiro.

O presidente nacional do Cidadania, Roberto Freire, lembrou a história do partido através de um texto de Ferreira Gullar. “Podem contar a história do povo brasileiro, mas não podem esquecer de falar do PCB. Um partido pequeno e que teve um papel muito importante na história. Hoje evidentemente a história nos retirou da cena, mas os ideais, os mesmos valores continuam e damos prosseguimento nessa luta. O mundo é outro, temos que pensar com a sabedoria do mundo de hoje, não pode ser mais a do passado. mas o nosso passado, muito honrado, nos ajuda a ver esse futuro e trabalhar por ele”, salientou.

Questionado sobre o atual governo Bolsonaro, Freire foi categórico em sua opinião. “Já vivemos tempos piores e não significa dizer que tenha algo bom nesse governo, mas já tivemos piores. Até porque hoje estamos em plena liberdade, podendo fazer oposição e podendo derrotá-lo nas urnas, democraticamente, e vamos fazer isso em outubro”, opinou.

O Diretor-geral da FAP, o sociólogo Caetano Araújo, explicou sobre a reformulação do partido com o passar dos anos. Ele pontuou que o partido foi fundado em 1922 e foi alinhado sempre ao movimento comunista internacional, que na época, tinha como líder a União Soviética. A União Soviética era governada pelo seu dirigente máximo Josef Stalin e governou de 1927 até morrer em 1953. “No período stalinista, naquela época, os comunistas achavam que as revoluções tinham que ser feitas sem democracia, partido único e prisão para opositores. Prendeu muita gente, fuzilou muita gente e quando Stalin faleceu o próprio partido da União Soviética fez uma autocrítica e até então ele era idolatrado”, explicou.

Caetano ainda frisou que o partido brasileiro, em sua maioria, resolveu fechar com o partido da União Soviética, que é o PCB. “Os dirigentes da época anterior, menos Luiz Carlos Prestes, ficaram incomodados com isso pois não queriam deixar de ser stalinistas e foram se afastando do partido, em 1958. E quatro anos depois, em 1962 fundaram o PCdoB e ficaram aliados, em vez da União Soviética, com a China”, completou.

Questionado sobre o centenário do partido e essa diferença entre PCB e PCdoB, o sociólogo analisou de forma macro a questão. “Eles seguem os seus caminhos, e na luta contra a ditadura, durante muito tempo, tiveram estratégias semelhantes. A nossa posição é que a data do centenário não é monopólio de nenhuma força política e pertence a toda esquerda, todos os democratas do país e todos os brasileiros”, finalizou.

A fundação do PCB ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, no Sindicato dos Alfaiates e dos Metalúrgicos, nos dias 25 e 26 de março, e em Niterói, no dia 27 de março de 1922.

ESPECIALISTAS COMENTAM O CENTENÁRIO

Márcio Malta, professor do curso de relações internacionais do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), explicou que em 25 de março de 1922 foi fundado o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e anos depois, em 1962 foi reorganizado por uma nova concepção, onde foi criado o Partido Comunista do Brasil (PCdoB). “Existe essa discordância de quem estaria comemorando o centenário e a mudança aconteceu na concepção dos valores, como se eram a favor ou contra luta armada, se eram a favor ou contra o alinhamento de apoio internacional entre outras questões. O PCdoB aderiu ao maoismo chinês e rompeu com o PCB”, contou Márcio Malta.

Márcio Malta

O também cientista político acha importante o resgate da data por ser um marco para a cidade e para o país. “Na época da fundação a sociedade era mais dividida e demonstrava as contradições e luta de classes. Niterói abrigou essa fundação por ser uma cidade mais reservada para fugir da repressão, diferente de hoje em dia que essa conexão é mais fácil. Isso demonstra que a cidade é culturalmente e politicamente muito importante. Vejo com bons olhos apesar da divergência de quem estaria comemorando o centenário, o PCB e o PCdoB”, completou.

O coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCP) da UFF, Marcus Ianoni, falou sobre a não implantação do comunismo no Brasil. Ele argumentou que, no mundo todo, nunca o socialismo, que é uma etapa para o comunismo, foi realmente implantado. Ainda segundo sua explicação, no Brasil, o PCB foi fundado em 1922 e logo se associou ao stalinismo, o que prejudicou muito seu desenvolvimento. “Em 1935, o PCB tentou dar um golpe de Estado, em nome da Aliança Nacional Libertadora, mas isso foi um fracasso. O PCB não conseguiu ser representativo entre os trabalhadores, além de ter tido curtíssima existência legal. O PCdoB resultou de uma cisão no PCB e, com sua aproximação em relação ao PT no período pós-1988, tem sido mais bem sucedido que o PCB. A ideologia do socialismo defende a liberdade, a democracia, a justiça social. E depende da construção de um sistema econômico internacional alternativo ao capitalismo”, esclareceu o professor, que também foi pesquisador visitante da Universidade de Oxford.

FINAL DE SEMANA

No sábado (26) a cidade de Niterói comemorou o “Festival Vermelho – Floresce a Esperança”, realizado pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) em parceria com a Fundação Maurício Grabois (FMG); no Caminho Niemeyer. O Festival teve entrada gratuita e contará com programações culturais, shows, debates, seminário, lançamento de livros, exposição, feira, gastronomia, mostra de cinema entre outras atrações.

De acordo com organização do evento a festa é inspirada em outras grandes festas da esquerda internacional, como a Festa do Avante (Portugal), a Fête de L’Humanité (França) e a Fiesta de Los Abrazos (Chile), o Festival Vermelho é uma grande celebração das ideias progressistas, celebrando a resistência e a alegria daquelas e daqueles que lutam por um mundo mais justo, igualitário, com diversidade e sustentabilidade.

Raquel Morais

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