Caso Flordelis: audiência é marcada por acusações de rachadinha

Vítor d’Avila

Na sexta-feira (11) foi realizada a quarta audiência de instrução do processo sobre a morte do pastor Anderson do Carmo. Foram arroladas as testemunhas de acusação restantes e as de defesa dos acusados pelo crime para depor na 3ª Vara Criminal, perante a juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce.

Uma delas foi Jorge de Souza, pai de Anderson do Carmo. Ele chegou ao Fórum de Niterói por volta de 9h, acompanhado do advogado assistente de acusação, Ângelo Máximo. Este último afirmou não ter entendido o arrolamento de Jorge como testemunha de defesa. “Não entendi a defesa o arrolar. Ele não tinha convívio direto com o Anderson, pois morava em São Paulo”, disse o advogado.

Ainda segundo Máximo, ele orientou que Jorge falasse a verdade dos fatos e contasse tudo o que sabe. “Ele não frequentava a casa e tinha a antipatia da família de Flordelis. Isso é público e notório”, complementou o advogado, que ainda afirmou que a expectativa é de que tenham sido encerrados os depoimentos de testemunhas para que, na próxima audiência, seja dado início ao interrogatório.

Rachadinhas – Daiane Freire, uma das filhas adotivas da deputada federal Flordelis (PSD-RJ) acusou sua mãe e seu irmão, o vereador de São Gonçalo Wagner Andrade Pimenta, o Misael, de praticarem rachadinha em seus gabinetes. Ela foi uma das testemunhas de acusação a prestar depoimento, na manhã de ontem.

Ela afirmou que soube da prática, que é a devolução de parte de salários, no gabinete de Flordelis, após ouvir de sua cunhada, Luana, que trabalhava no gabinete da deputada, que precisava depositar o dinheiro para a conta de Anderson do Carmo. Ainda segundo Daiana, o líder religioso era responsável por fazer o recolhimento do dinheiro.

“Acontecia rachadinha. Soube pelos meus irmãos e pela minha cunhada Luana. Precisava repassar metade do salário para o Anderson”, afirmou, em depoimento.

A filha adotiva também afirmou que outros filhos de Flordelis, Raiane e Carlos, também devolviam parte de seus salários. Daiana ainda reiterou que a rachadinha era unanimidade entre todos que fazem ou faziam parte do gabinete.

Ela, que foi funcionária do gabinete de Misael por três meses, também revelou que a prática se repetia com o vereador de São Gonçalo. Daiana afirmou ter sido convidada para o gabinete pelo próprio vereador, numa época em que estava desempregada.

Daiana ainda relatou ter pedido exoneração opor não concordar com a prática. Segundo ela, houve uma discussão sobre o assunto com outro irmão, Daniel que também trabalhava no gabinete.

Acareação

A audiência de instrução sobre a morte de Anderson do Carmo começou com uma acareação entre Cristiana Rangel, esposa de Carlos Ubiraci, filho aditivo de Flordelis e réu, e a testemunha Vivian da Silva.

 Vivian afirmou que Cristiana havia dito a ela que André, filho da Flordelis, teria segurado Anderson do Carmo durante o crime para que Flávio, filho biológico, atirasse. Em seguida, Simone, também filha biológica, teria também feito disparos na região genital de Anderson.

Cristiana negou as afirmações de Vivian. Entretanto, ela admitiu existir na família uma “lei do silêncio”, que impede os membros de comentarem o que acontece dentro da casa.

Em seguida, Roberta dos Santos, filha adotiva de Flordelis e testemunha de acusação, prestou depoimento. Ela confirmou ter ouvido falar sobre a existência de um plano para executar Anderson.

Agressões e humilhações

Pelo menos três testemunhas que prestaram depoimentos falaram sobre agressões e humilhações que seriam praticadas sobre Flordelis contra seus filhos. Foram elas Roberta dos Santos, Erica dos Santos e Daiana Freire. Todas filhas adotivas.

De acordo com Erica, quando ela tinha 19 anos foi ferida com ferro de passar roupa quente por André e Carlos, com anuência de Flordelis. A agressão teria sido uma punição por conta de um desentendimento com outra irmã. O fato fez com que Erica deixasse de morar lá.

“André e Carlos me queimaram com ferro de passar após briga com uma irmã. Anderson e Flordelis perguntaram o motivo ao André. O Anderson disse a ele que não deveria ter feito isso. Mas para Flordelis tanto faz. Tenho a cicatriz até hoje”, disse.

Já Roberta, que foi colocada por Flordelis aos cuidados de Carlos e Cristina, relatou ter visto ele sendo diversas vezes humilhado e agredido pela deputada. Segundo Roberta, Carlos, mesmo estando entre os mais velhos, precisava pedir autorização até mesmo para sair de casa.

Já Daiana relatou que era “tratada como lixo” por Flordelis, e nunca teve o amor da mãe. “Flordelis xingava a gente [filhas adotivas]. Dizia que a gente ia ser piranha (sic). A gente era considerada como lixo. Eu queria me casar logo para me ver livre daquela casa”, relatou.

Planos para matar Anderson do Carmo

Roberta afirmou ter desconfiado que Marzy, filha de Flordelis e ré, estava envenenando Anderson, chamado de Niel no seio familiar, após uma breve conversa entre as duas. “Teve um dia que cheguei na casa, Marzy estava na cozinha e perguntei do Niel, ela me disse que ele estava dormindo porque já havia dado o remedinho”, contou.

A testemunha também mencionou um relato feito por Carlos a ela, no qual ele afirmou que Anderson havia dito que tinha descoberto um plano para executá-lo, que estaria descrito em seu tablet pessoal. Ela afirmou não ter acreditado que estavam planejando assassinar a pessoa responsável por fazer a família chegar a um patamar tão elevado.

Já Daiana disse que Flordelis uma vez pediu que Kelly, outra filha adotiva, arranjasse alguém para “dar um susto” em Anderson. Ela também relatou que, assim que soube do crime, desconfiou imediatamente da participação da parlamentar.

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