Câmeras de segurança e testemunhas ajudarão a elucidar morte de produtor

Imagens registradas por câmeras de segurança e informações de testemunhas devem ser decisivas para que a Divisão de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG) identifique e prenda os assassinos do produtor cultural Rafael Lage Pereira, de 40 anos, na madrugada de domingo, num bar situado na Rua Visconde Morais, no bairro Ingá, Zona Sul de Niterói. A vítima, que segundo informes era produtor cultural e aluno de doutorado da Universidade Federal Fluminense (UFF), foi atingida por um tiro no peito e morreu ao dar entrada no Hospital Estadual Azevedo Lima (Heal), no Fonseca, Zona Norte da cidade. Com grande comoção entre amigos e familiares, o corpo de Rafael – que também era músico e jornalista – foi sepultado na tarde de ontem no Cemitério Parque da Colina, em Pendotiba. Antes, uma cerimônia reunindo familiares, foi realizada no local.

1 - ARQUIVO PESSOAL FACEBOOK (2)De acordo com a polícia, quatro criminosos teriam rendido e mantido como refém, desde o Largo da Batalha (Pendotiba), um motorista do aplicativo Uber e pretendiam obrigá-lo a seguir até sua residência onde provavelmente roubariam seus pertences. Porém, no trajeto os bandidos decidiram parar no bairro do Ingá e roubar vítimas que estavam no bar “Bisc8”, onde Rafael estava com a namorada.

A partir daí a polícia trabalha com duas versões para o crime. A primeira, de que Rafael teria sido baleado quando os bandidos atiraram na direção do motorista do Uber, que teria tentado escapar se aproveitando da distração dos marginais.

A segunda versão aponta que os bandidos teriam parado junto ao bar e rendido algumas vítimas que estavam na frente do estabelecimento. Rafael teria percebido uma movimentação e estranha e levantou-se da mesa onde estava para ver o que estaria ocorrendo. Nesse momento, um dos bandidos armados efetuou um disparo que atingiu a vítima no peito. O motorista do Uber teria se aproveitado da confusão para escapar e acionar a polícia.

Testemunhas foram ouvidas pela delegacia especializada, inclusive o motorista. Rafael Lage Pereira fazia doutorado em Tecnologias e Estéticas da Comunicação na UFF e, segundo informes de pessoas ligadas à família, estava com muitos planos, se preparando para morar e também estudar em Portugal. Rafael era uma pessoa irreverente e com muitos amigos. Interessado na temática sobre a presença feminina no rock, apresentaria um artigo na próxima semana em São Paulo.

“LUTO. A violência levou um dos nossos colaboradores mais queridos. Rafael Lage escreveu o livro Rotas da música Independente, fruto de nossas imersões pelo estado do Rio de Janeiro. Radialista por formação e vocação, foi ele quem fez todas as nossas playlists. Era doutorando em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense e Mestre pela mesma instituição. Deixa alegrias e sonhos a serem seguidos. Muita força para os familiares e amigos”, lamentou amigo da página Ponte Plural no Facebook, onde o produtor trabalharia. “Um cara incrível, que me ensinou muito sobre música, sobre filmes, um papo divertido, sempre uma boa companhia”, “Rafael Lage, músico talentoso e companheiro de vários shows em Nikiti. Mais uma vítima da violência em uma Niterói que há tempos não é mais a mesma”, postaram outros amigos nas redes sociais.

No fim da manhã de ontem, o delegado Alan Duarte, responsável pelas investigações, afirmou: “Já identificamos dois dos quatro acusados. Os criminosos acionaram o motorista através do aplicativo e esse condutor foi mais uma vítima. Já obtivemos imagens de câmeras de segurança e estamos reconstituindo o trajeto feito por eles. Estamos representando pela prisão temporária dos acusados”, afirmou, sem mencionar a identificação dos acusados. Sobre a versão da vítima ter sido atingida pelo tiro que teria sido disparado na direção do motorista do Uber, o delegado frisou: “Nenhuma hipótese está descartada, mas a principal hipótese é de latrocínio (roubo seguido de morte)”.
Luciana Lage, irmã de Rafael, lamentou a morte do produtor. “É uma vida interrompida. Um homem cheio de planos. Estamos em estado de choque”. Já sua namorada, Luciana, disse que infelizmente a morte de Rafael é mais uma na triste estatística da violência na cidade de Niterói e do Rio.

Bairro do Ingá está longe de ser “pacato”
Situado nas proximidades de um ponto de ônibus, de uma escola e ao lado da Faculdade de Direito da UFF, o bar onde Rafael foi baleado até bem pouco tempo não era localizado em um lugar considerado perigoso, por conta da movimentação de pessoas no perímetro. Nos últimos anos, o bairro do Ingá, segundo muitos moradores, deixou de ser um lugar “seguro” por conta da incidência de roubos a pedestres. Há pouco menos de um mês A TRIBUNA publicou reportagem com moradores do bairro da Zona Sul, na qual relataram sua preocupação com as sucessivas ocorrências na outrora pacata região. O quarteirão ao lado onde ocorreu o crime que vitimou Rafael foi apelidado pelos próprios moradores de “Rua do Perdeu”, em referência à abordagem dos criminosos. O 12º BPM informou que o patrulhamento é realizado com frequência, mas as ocorrências, sobretudo de roubos a transeuntes, na maior parte das vezes praticada por homens armados, prossegue.

Emoção no sepultamento de Rafael
O sepultamento de Rafael Lage, na tarde de ontem, no Cemitério Parque da Colina, em Pendotiba, foi marcado por muita comoção e críticas à escalada da violência em Niterói e no município do Rio. Pelos menos 300 pessoas, entre amigos e familiares, se solidarizaram e antes do sepultamento participaram de uma cerimônia na capela 3 do cemitério, onde foram entoados cânticos em meio a muita emoção, tendo à frente o pai de Rafael, o presbítero Ivar Pereira, da Igreja Presbiteriana Betania, em São Francisco. Tanto durante o velório quanto no sepultamento familiares estavam muito emocionados e preferiram não dar declarações.

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Amigos do produtor mostraram o estarrecimento sobre os níveis de violência que, segundo eles, cresceram assustadoramente na cidade nos últimos meses, a ponto de obrigar as pessoas a mudarem seus hábitos. Um ato de repúdio e manifestação contra a escalada da violência na cidade está programado para hoje, por volta das 17h30min, na Praia de Icaraí (em frente a prédio da Reitoria da UFF), com apoio da ONG Rio de Paz. Os organizadores pedem que os participantes se vistam de preto e levem velas para serem acesas no local.

“Rafael era um de meus melhores amigos. Era muito pacífico, um cara do bem. Estamos com medo de sair de casa por causa dessa violência. Vamos realizar um protesto contra isso, contra essa violência que já vitimou tanta gente. Será em parceria com a ONG Rio de Paz, na Praia de Icaraí, próximo ao prédio da Reitoria da UFF, e quem for participar por gentileza leve uma vela num copinho e vista-se de preto”, convocou Viviane Rocha, de 40 anos, amiga do produtor.

O publicitário Marcos Fleuri, também amigo da vítima, não poupou críticas à violência no Rio e Niterói. “Atualmente trabalho como motorista do Uber e alguns dias atrás, quando imagens de câmeras de segurança foram divulgadas de um outro assalto no local, o subcomandante do 12º BPM (Niterói) afirmou na ocasião que a ocorrência teria sido um fato isolado. Essa política do Beltrame (ex-secretário de Segurança), das UPPs lá no Rio, está jogando a bandidagem para a cidade de Niterói. A cidade não tem mais segurança. Rafael era uma pessoa com muita energia e muito inteligente”, afirmou Fleuri emocionado. Várias coroas de flores, com mensagens de universitários da UFF, foram enviadas para o Cemitério Parque da Colina, onde o corpo de Rafael foi sepultado.

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