Caixa libera moradores a voltarem para apartamentos em SG

Aline Balbino

Embora os apartamentos estejam à beira de um precipício de, pelo menos, dez metros de altura, a Caixa Econômica Federal autorizou as famílias do Condomínio Bella Vida 1, no Arsenal, a retornarem para suas casas. Já a Defesa Civil de São Gonçalo optou por manter a área interditada. Uma equipe da Caixa esteve na unidade habitacional para uma avaliação. Um laudo definitivo ainda está para ser emitido. Especialistas em geologia e engenharia civil afirmam que não é seguro o retorno dos moradores. No condomínio, que faz parte do programa Minha Casa Minha Vida, ocorreu um grave acidente na manhã da última terça-feira, cuja queda do muro de contenção matou o servente de obras Ricardo Paiva da Silva.

O corpo do jovem foi sepultado ontem no cemitério São Nicolau, em Magé, onde a vítima morava. Ontem, um dia após a tragédia, havia cerca de 70 moradores dormindo na área de convivência do condomínio, que é aberta. Ao todo são 350 desabrigados, devido a interdição de quatro blocos com 80 apartamentos. A obra de construção do muro custou R$ 3.264,915,04.

A dona de casa Elaine da Silva, de 38 anos, relatou o desespero que está vivendo. “Estou vivendo novamente a dor de ficar sem casa. Vi meus vizinhos serem soterrados por pedras em 2010 e ontem vi isso novamente”. Elaine é uma das moradoras dos blocos interditados pela Defesa Civil.

“As pessoas estão inseguras porque ontem tiveram um susto novamente. A Caixa não apareceu ainda, só dizem que estão em reunião. Queremos ser encaminhados para a unidade que estão construindo no 3ºBI. Não queremos mais ficar aqui. As pessoas estão dormindo na área de convivência, um local aberto. Do bloco um ao oito temos rachaduras. Estamos aqui há quatro anos com as mesmas preocupações”, disse o síndico Carlos Sérgio Borges.

A Defesa Civil informou que deu total apoio aos moradores após o acidente e garantiu que emitirá laudo ao síndico e à Caixa Econômica Federal, responsável pelo empreendimento. Em 2013, a Defesa Civil notificou a CEF sobre o risco de desabamento do muro. A Secretaria de Desenvolvimento Social está enviando ao local assistentes sociais e psicólogos para atender aos moradores. A assistência aos moradores, como abrigo e alimentação, é de responsabilidade da CEF.

Problemas antigos
Moradores informaram que quatro casas destinadas exclusivamente a portadores de deficientes e idosos chegaram a ser derrubadas logo que o condomínio foi inaugurado. As rachaduras possuíam cerca de 50 centímetros de espessura.

“A rachadura era gigante, dava para passar uma pessoa. O Estado parou de me dar a ajuda de custo que me dava por causa disso. Eles destruíram a casa e passaram a nos dar R$ 600 por mês, mas há oito meses não recebo esse valor”, disse a dona de casa Rafaela Morais.
O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) foi procurado, mas ainda não tem grandes detalhes com relação ao incidente e a estrutura do local. Engenheiros deverão ser encaminhados ao local para analisar a obra.

O geólogo Claudio Martins é especialista em escolhas de terreno para condomínios populares. Ele explicou que muitas dessas áreas são mal selecionadas pelos profissionais. “Esses apartamentos foram colocados em áreas muito próximas a encostas. Normalmente essas rachaduras que atingem os prédios são por causa de recalque no terreno, áreas recém-aterradas ou em solo sujeito a colapso”, disse.

O engenheiro Antônio Eulálio explicou que ali deveria ter sido construído um muro de peso. Esse tipo de muro é bem mais grosso que o que estava sendo construído. O muro que caiu é feito de tijolos finos e, segundo Eulálio, deveria ser de pedras.

“O que fizeram é um muro de alvenaria, não tem base para conter nada. Cometeram um erro de concepção do projeto. Deveriam ter construído um muro de contenção com concreto armado ou um muro de peso. Houve uma falha grave na concepção do projeto estrutural. Eu acho muito arriscado que essas pessoas retornem para suas casa. Com uma chuva forte, o prédio perde a estabilidade”.

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