Bolsonaro volta a atacar a imprensa

O presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar a imprensa ontem, durante um evento no Palácio do Planalto para defender o uso precoce da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19. Um dia após ameaçar um jornalista, dizendo que tinha “vontade de encher sua boca de porrada” ao ser questionado sobre repasses de R$ 89 mil feitos por Fabrício Queiroz, ex-assessor de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), à primeira-dama Michelle Bolsonaro, o presidente afirmou que “jornalista bundão tem mais chances de morrer de Covid”.

As declaração de Bolsonaro de domingo repercutiu na imprensa mundial e também em entidades de defesa da liberdade, que, em nota, destacaram o “histórico de forte hostilidade de Bolsonaro contra jornalistas”.

“Desde o início de seu mandato, Bolsonaro vem demonstrando carecer de preparo emocional para prestar contas à sociedade por meio da imprensa, uma responsabilidade de todo mandatário nas democracias saudáveis. Jornalistas têm sido vítimas de agressões verbais constantes”, diz a nota conjunta da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Artigo 19, Conectas, Observatório da Liberdade de Imprensa da OAB e Repórteres Sem Fronteiras divulgada no domingo.

Essas não foram declarações isoladas do presidente contra a imprensa. Simpatizante da ditadura militar, Bolsonaro tem um histórico de ataques à imprensa em 1 ano e 8 meses de mandato. Em março do ano passado, ele usou informações falsas para publicar no Twitter uma tese que falsamente atribuiu a uma jornalista do jornal O Estado de São Paulo. Bolsonaro afirmou que a jornalista teria “intenção de arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”.

Em dezembro de 2019, depois de afirmar que era o responsável por um empréstimo de R$ 40 mil destinado a Queiroz, foi questionado por um jornalista se teria o comprovante e respondeu de uma forma que não condiz com o cargo que ocupa.

“Ô, rapaz, pergunte para a tua mãe o comprovante que ela deu ao teu pai, está certo?”, respondeu.

Ao ser indagado, na mesma entrevista, por outro repórter se Flávio teria cometido um deslize, em referência à operação de busca e apreensão em endereços ligados ao senador ocorrida dois dias antes, Bolsonaro destilou todo o seu preconceito contra os homossexuais.

“Você tem uma cara de homossexual terrível, mas nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual”.

Em fevereiro deste ano, o presidente fez insinuações de cunho sexual sobre o trabalho da jornalista Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, que fazia uma reportagem sobre o uso de disparos de mensagens na campanha eleitoral.

“Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim”, disse Bolsonaro sorrindo na saída do Palácio da Alvorada.

A declaração de Bolsonaro estava baseada no depoimento de Hans River, ex-funcionário da Yacows, uma agência de disparos de mensagens em massa por WhatsApp, na CPI das Fake News no Congresso. River insinuou que a jornalista havia se insinuado para ele em troca de informações. À época, a Folha divulgou mensagens de texto e em áudios divulgados desmentindo o ex-funcionário. Ainda assim, Bolsonaro divulgou a versão dele como se fosse verdadeira.

Em março, Bolsonaro atacou a colunista do Estadão e editora do site BR Político, Vera Magalhães, de ter mentido em suas reportagens, declarando que ela afirmou algo que nunca escreveu.

“A jornalista Vera Magalhães, que foi uma mentirosa sem qualquer compromisso com a verdade, está divulgando que eu faria um movimento dia 31 de março na frente dos quartéis”, declarou. Um mês antes, Bolsonaro já havia atacado a jornalista durante uma transmissão ao vivo.

Cala a boca”
No dia seguinte à nomeação do novo diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Souza, em maio deste ano, Bolsonaro declarou que não interfere no órgão. Entretanto, ao ser perguntado se havia dado ordens para que o superintendente do Rio de Janeiro fosse trocado, mostrou mais uma vez que não gosta de ser confrontado.

“Cala a boca”, gritou três vezes em frente ao Palácio da Alvorada, para em seguida abandonar o local sem responder a perguntas.

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