Bolsonaro desdenha da doença desde o início da pandemia

“Vamos tocar a vida! Tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”. Esta foi a última frase do presidente Jair Bolsonaro sobre a pandemia mundial provocada pelo novo coronavírus, dita na última quinta-feira, quando informado que o país estava se aproximando das 100 mil mortes por Covid-19. Esta não foi, porém, a única vez que chefe de estado brasileiro proferiu uma frase minimizando as mortes de milhares de brasileiros.

Bolsonaro falou pela primeira vez sobre o novo coronavírus em 9 de março, durante sua viagem aos EUA. Em Miami, o presidente afirmou que a pandemia era um dois fatores que contribuíram para a queda da Bolsa de Valores e dos indicadores econômicos do Brasil. Em sua opinião, a letalidade do vírus era questionável.

“Os números vêm demonstrando que o Brasil começou a arrumar sua economia. Obviamente, os números de hoje têm a ver com a queda drástica das Bolsas de Valores no mundo, tem a ver com a queda do preço do petróleo, que despencou 30%, se não me engano. Tem essa questão do coronavírus também, que no meu entender está superdimensionado o poder destruidor desse vírus aí”, disse à época.

No dia seguinte, ainda em solo americano, Jair culpou a imprensa mundial pela pandemia.

“Muito do que tem ali é mais fantasia. A questão do coronavírus não é isso tudo que a grande mídia propaga”, declarou.

Pelo terceiro dia seguido – um recorde para o presidente brasileiro -, Bolsonaro tratou do tema dando foco à saúde pela primeira vez.

“Vou ligar para o (Henrique) Mandetta (então ministro da Saúde). Eu não sou médico nem infectologista. O que eu ouvi até o momento é que outras gripes mataram mais que essa”.

Nesse mesmo dia, Bolsonaro falou sobre a convocação de atos em Brasília para o dia 15 de março, em apoio a seu governo e contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF). Ele se eximiu de responsabilidade pelas aglomerações que ocorreriam, mesmo compartilhando vídeos que convocavam seus apoiadores para o ato.

“Eu não convoquei ninguém. Pergunta para quem convocou”, limitou-se a dizer.

Porém, no ato do dia 15 de março, o presidente descumpriu recomendação do Ministério da Saúde para evitar aglomerações e foi até os participantes sem máscara e cumprimentou vários deles com apertos de mão. Para justificar, ele declarou que “a questão pode se agravar, mas tem muito extremismo e histeria”. Bolsonaro ainda compareceria outras vezes a atos de apoio a seu governo, onde faixas pediam o fechamento do Congreso e do STF, além de intervenção militar “com Bolsonaro no poder”, o que configura crime contra a Constituição.

Já em 20 de março, o chefe de estado entrou em confronto com governadores que defendiam as medidas de distanciamento social para combater a pandemia.

“Tem certos governadores que estão tomando medidas extremas, que não competem a eles, como fechar feiras, rodovias, aeroportos e shoppings. Tem governador de Estado que só faltou declarar independência do mesmo”, disse.

Mais tarde, no mesmo dia, ele deu a seguinte declaração sobre a não divulgação dos resultados de dois exames que fizera para saber fora infectado pelo novo coronavírus.

“Depois da facada, não vai ser uma gripezinha que vai me derrubar”.

Histórico de atleta
No dia 24 de março, Bolsonaro fez um pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão, quando deu mais uma declaração polêmica e sem qualquer embasamento científico.

“Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho”.

Dois dias depois, Bolsonaro afirmou que brasileiro “não pega nada”, ao comentar o avanço da pandemia.

“O brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele. Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil, há poucas semanas ou meses, e já tem anticorpos que ajuda a não proliferar isso daí”.

Após um passeio em Brasília, em 29 de março, causando aglomeração, o presidenta da República deu mais uma declaração minimizando a pandemia.

“O vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Todos nós iremos morrer um dia”, declarou.

“Eu não sou coveiro”
O Brasil chegava a 2.575 mortes por Covid-19 em 20 de abril, Ao ser perguntado sobre o número de óbitos, o presidente interrompeu o jornalista que o indagava e disparou.

“Ô, cara, quem fala de… Eu não sou coveiro, tá certo?”. Oito dias depois, o país ultrapassou a China em mortes pela doença, chegando a 5.007. Na porta do Palácio da Alvorada, o presidente disse: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias (seu nome do meio), mas não faço milagre”.

Em mais um caso de desrespeito com as vítimas da Covid-19, Bolsonaro afirmou, em 7 de maio, quando o país estava perto de alcançar a triste marca de 10 mil mortes pelo novo coronavírus, Bolsonaro declarou que faria um churrasco no sábado seguinte, no Palácio da Alvorada. Depois, falou que o churrasco era fake news. Entretanto, naquele sábado o Brasil chegou a 10 mil óbitos e Bolsonaro saiu para passear num lago de moto aquática.

Teste positivo
Em 7 de julho, Bolsonaro anunciou que testou positivo para o novo coronavírus. Ele se isolou então no Palácio da Alvorada e anunciou que estava tomando hidroxicloroquina, sob prescrição médica, apesar de o remédio não ter eficácia comprovada para o tratamento da doença. Ele voltou a realizar o exame na semana seguinte, e voltou a ter resultado positivo. O presidente ainda teve mais um resultado positivo, divulgado no dia 21. No dia 25 de julho, Bolsonaro anunciou que havia feito mais um teste e o resultado deu negativo.

Neste final de semana, o Brasil alcançou a marca de 100 mil mortes pela Covid-19. Na última quinta-feira, dia 6, Jair Bolsonaro limitou-se a dizer que é preciso “tocar a vida”.

“A gente lamenta todas as mortes, já está chegando ao número 100 mil, talvez hoje. Vamos tocar a vida. Tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”, declarou, ao lado do ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello.

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