Boa Esperança: área era de médio risco, diz estudo

Anderson Carvalho –

Segundo estudo feito pela empresa Thalweg Engenharia e Projetos Geológicos Ltda, contratado em 2016 pela Prefeitura de Niterói, o Morro da Boa Esperança, em Piratininga, onde ocorreu o deslizamento de uma pedra que soterrou casas e matou 15 pessoas na madrugada de sábado, era considerada área de risco médio de um desastre natural e não exigia providências imediatas. Uma parte do estudo foi apresentada ontem, durante entrevista coletiva do presidente do Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio (DRM-RJ), Wilson Giozza, e do secretário municipal de Defesa Civil, tenente-coronel Walace Medeiros. A coletiva foi realizada na Escola Municipal Portugal Neves, que recebeu as doações de pessoas a serem entregues aos desabrigados.

“No estudo, não foi apontada a necessidade de intervenções urgentes. Existia um risco pontual de localidade, para estudo maior. Poderia haver um risco, por conta do solo instável, de fissuras e rachaduras. Nada que evidenciasse uma fissura de maciço rochoso, que foi o que aconteceu. O estudo está sendo finalizado. Ele precisa ser validado pela Defesa Civil Municipal e a estadual. A avaliação sobre o Morro da Boa Esperança ainda é preliminar. O levantamento ficará pronto na primeira quinzena de dezembro. Não foi verificado por ele a previsibilidade do que aconteceu. Não era uma rachadura aparente”, explicou Walace.

Conforme trecho do estudo liberado, havia risco de deslizamento, pela erosão do solo da comunidade. O sistema de drenagem era inexistente. Pelo estudo, a empresa recebeu R$ 1,8 milhão da Prefeitura. Pelo contrato, era para ele ter sido concluído em fevereiro de 2017.

“Em 2012, fiz um inventário das localidades de alto risco de Niterói. Feito com base nos acontecimentos de 2010. A gente conseguiu todos estes pontos mapeados. Porém, estes mapeamentos têm que ser atualizados. Por isso, contratamos a empresa. Em 2017, a demanda foi aumentando e levantando outros pontos, o que fez com que o estudo atrasasse, para ser melhorado. Uma das casas que foi soterrada estava interditada. Não havia mapeamento de risco relacionado à encosta na comunidade até o presente momento”, acrescentou o secretário.

Medeiros adiantou que a Prefeitura fará parceria com o DRM-RJ para fazer melhor o levantamento e avaliar os riscos.

“Além disso, a Defesa Civil fará durante uma semana e meia visitas constantes em cada casa da localidade. Periodicamente fazemos vistorias visuais. A gente botou setor de monitoramento meteorológico para colocar em operação plano de evacuação. O volume mínimo é de 45 mm de chuva em uma hora. Não houve esse volume de chuva na cidade na semana passada”, contou o secretário.

Segundo ele, de 2013 para cá a Prefeitura investiu mais de R$ 200 milhões em contenção de encostas e mapeamento das áreas de risco.

“Mesmo se o estudo tivesse sido publicado em 2017, não haveria como prever a tragédia”, completou Medeiros.

Para o presidente do DRM-RJ, a nota técnica não levou em consideração estudos anteriores sobre áreas de risco.

“Foram observadas sete fraturas (…) na parte rochosa, e no horizonte de solo residual jovem, nítida presença de estruturas reliquiares, permitindo o desenvolvimento de planos de fraquezas naturais. Verificou-se em campo surgência de água saindo de algumas fraturas. Tecnicamente, devido as características geológico-geotécnicas, trata-se de um processo de difícil previsibilidade, pois a superfície de ruptura desenvolvida no maciço foi originada pela combinação de fraturas e demais descontinuidades mecânicas presentes no maciço, juntamente com a ação da percolação e pressão d’água oriunda das chuvas antecedentes”, disse um trecho da nota do DRM.

O documento disse também que a área ainda se encontra em risco, pois existem “blocos rochosos individualizados em condição instável, e o maciço como um todo ainda não entrou em equilíbrio”.

“A gente avalia o que aconteceu e não leva em conta estudos anteriores”, disse Wilson Giozza.

Sobre o estudo feito pela UFF em 2009, que também apontava risco médio na área, Medeiros garantiu que a prefeitura não o recebeu. Medeiros informou ainda que as famílias desabrigadas receberão aluguel social de um salário-mínimo e em dezembro irão para um conjunto habitacional no Fonseca.

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