Black Power: Questões raciais no BBB21 levanta discussão sobre aceitação do cabelo crespo

Essa semana o Big Brother Brasil virou assunto nacional ao tratar sobre questões raciais. Um episódio em que o participante Rodolffo comparou uma peruca com o cabelo Black Power do participante João. O item em questão fazia parte de uma fantasia do ‘homem da caverna’ e a comparação foi discutida, até mesmo ao vivo, com o apresentador Thiago Leifert. A TRIBUNA reuniu histórias de negras que assumiram o cabelo Black Power e especialistas que tratam essas questões e como pode impactar a vida pessoal e profissional das pessoas.,

A jornalista Thayná Alves, 28 anos, contou com detalhes sobre a primeira vez que alisou o cabelo, aos 7 anos. “A primeira vez que relaxei o meu cabelo eu tinha sete anos. Eu consigo lembrar do cheiro forte do creme, da minha cabeça ardendo, e do quanto eu não sabia o porque eu deveria passar por aquilo. Minha mãe também relaxava o cabelo desde pequena e comigo não foi diferente. Utilizei inúmeros processos químicos no cabelo durante 15 anos. Cheguei a ter queda de cabelo e queimadura no couro cabeludo. Durante 15 anos eu não sabia como o meu cabelo era de forma natural. Quando falamos em cabelo crespo não podemos esquecer que falamos também sobre a construção de uma autoestima pautada na negação de tudo aquilo que nos enuncia quanto pessoas negras, o que inclui o nosso cabelo”, lembrou.

Thayná ainda frisou que depois de adulta, quando começou o processo de transição, chegou a ter dificuldade de se olhar no espelho. “Fiquei seis meses sem usar nenhuma química, mas a finalidade era trocar de produto. Sair do relaxamento e ir pra o permanente afro, que deixa o cabelo mais enrolado, mas o processo de alisamento é o mesmo. Quando eu cortei o cabelo para passar o permanente, fiquei com ele bem curtinho e natural. Eu literalmente não conseguia me olhar no espelho. Eu não via aquela pessoa há anos. A transição tem muito mais a ver com autoconhecimento e a compreensão de que nosso cabelo carrega uma história que nos foi negada”, completou a moradora de São Gonçalo.


Os traumas vão desde transtornos psicológicos até baixa auto estima. “O racismo é uma violência. Afeta de muitas maneiras como a depressão, transtorno do pânico e ansiedade, pois toca em lugares profundos. Desde crianças aprendemos a nos ‘auto odiar’ e até nossa história. Afeta em várias áreas, desde familiar, profissional e física, por exemplo. As pessoas podem não acreditar no próprio potencial. Perde a vontade de se colocar, de se mostrar e se impor”, aprofundou a psicóloga Roberta Massot.

A militante e antirracista, como se define, recomenda a terapia em alguns casos. “Nada como o auto conhecimento. Tratar as questões, quando mais a pessoa se conhece e se aceita mais forte fica. Aprende a colocar limite e no lugar do ‘auto ódio’ a pessoa aprende a se amar”, destacou.

A empresária do segmento de cabelos, Mara Almeida, trabalha com uma rede de lojas que vendem cabelos. Ela percebe que ultimamente as vendas de cabelos crespos, enrolados e cacheados estão em alta. “Cabelo cacheado está sendo muito procurado. É um caminho que as mulheres têm seguido para fazer a transição e assumir o cabelo. Percebo mais procura desses cabelos e antigamente eram somente cabelos lisos que eram mais comprados. Isso também reflete na mudança de comportamento da sociedade, que está valorizando todos os tipos de cabelos”, comemorou Mara.

O Black Power é muito além de um corte ou estilo de cabelo, se popularizou nos Estados Unidos nas décadas de 60 e 70. É considerado um ato político, uma forma de resistência e valorização racial.

Raquel Morais

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