Baleados em hospitais estaduais chegam a 5,6 mil desde 2017

Nos últimos anos a onda de violência nos grandes centros urbanos vem se tornando um dos maiores desafios para as autoridades da área, e no estado não está sendo diferente, com números só comparados a uma guerra civil. A rotina de violência vem produzindo essas “feridas”, e por mais que as autoridades procurem um “remédio”, elas parecem não cicatrizar. São milhares de vítimas que nos últimos anos deram entrada baleadas, nas mais variadas circunstâncias, em unidades de urgência e emergência da rede hospitalar, muitos desses ferimentos produzidos por armas de guerra.
A Secretaria de Estado de Saúde informou que nos quatro primeiros meses desse ano, por exemplo, as cinco unidades de urgência/emergência da rede estadual atenderam 842 vítimas de perfuração por arma de fogo (PAF), uma média de quase 7 pacientes por dia. Vale lembrar que a rede estadual de saúde possui 34 unidades no estado. Ainda segundo a SES, em todo no ano passado, foram atendidas 2.293 vítimas de PAF, e em 2017, 2.497 pessoas. As cinco unidades do levantamento no primeiro quadrimestre de 2019 foram: Hospital Estadual Getúlio Vargas (214 vítimas), na Zona Norte do Rio, Hospital Estadual Alberto Torres (218 vítimas), em São Gonçalo, Hospital Estadual Carlos Chagas (63 vítimas), na Zona Norte do Rio, Hospital Estadual Azevedo Lima (98 vítimas), na Zona Norte de Niterói, e Hospital Estadual Adão Pereira Nunes (249 vítimas), na Baixada Fluminense.

O presidente do Sindicato dos Médicos de Niterói, São Gonçalo e Região (Sinmed), o médico Clóvis Abrahim Cavalcanti, disse que há muito tempo existe a discussão sobre a chamada “medicina de guerra” no estado. “Já era assim quando ainda existia a emergência do Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap). O Sinmed desde então participa de simpósios e reuniões com autoridades governamentais e do Judiciário, principalmente focando a segurança do médico em serviço. Esses sofrem todo o tipo de pressão e até ameaças de acompanhantes dos baleados. Este tema deve ter uma discussão que leve a uma solução que não só diminua esse quadro inaceitável de pacientes baleados, como também que o médico tenha paz e segurança na sua missão de salvar vidas. A Medicina está fazendo a sua parte, com a especialização de ferimentos de guerra nas universidades. É urgente que o governo ponha fim a esta guerra civil”, afirmou.

O drama já se arrasta há vários anos. Em outro levantamento, divulgado no início do ano passado, apontou que 4.440 pacientes deram entrada em hospitais da rede pública – incluindo números de dez meses da rede municipal – em 2017, ou seja, média de uma vítima baleada a cada duas horas.
O mesmo levantamento de 2017 apontou que a média de atendimento de baleados na rede estadual foi de 6,7/dia, o que traduz uma elevação crescente do número de pacientes do tipo, com a “guerra urbana” produzindo ainda mais vítimas. Vale lembrar que de 2014 a 2016 a média ficou em torno de 5,3 baleados/dia, com 1.834 baleados, uma elevação de quase 33% até 2017.

Em 2017, A Tribuna já havia ouvido o médico Clóvis Ibrahim sobre o poder das armas com grande poder de destruição, em face da pouca especialização no atendimento médico devido ao número cada vez maior de demandas de ferimentos com armas de calibres restrito.
“Não estamos preparados para atendimento de guerra. Quando chega um paciente baleado, a equipe de cirurgia e a equipe clínica também é acionada, parando de certa forma o serviço do hospital, seja ele marginal ou cidadão de bem. Prejudica o atendimento normal. Não estamos preparados para trabalharmos em áreas de conflitos de guerra (porque o Rio está vivendo uma guerra). Esse aumento de demanda aumenta o estresse dos médicos, que não podem fazer milagres. Normalmente quem atende é um cirurgião, um neurocirurgião ou um clínico geral. O que acontece é que o gestor tem que começar a fazer cursos para tratar esses pacientes de guerra civil (porque nós estamos numa guerra civil). A tendência é piorar, porque a criminalidade está aumentando”, previu Clóvis na ocasião.

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