Luiz Antonio Mello: As ondas do rádio dos meus antepassados

No começo da semana estava fazendo a minha coluna “Hashtag Cultural” que vai ao ar na Rádio Bandnews FM Rio* e escolhi como um dos assuntos a inauguração do Museu da Rádio Nacional na Lapa, Rio, em homenagem aos 85 anos da emissora dia 12 de setembro. Por enquanto a visitação é virtual, mas em breve poderemos todos conhecer pessoalmente.

Falar da Rádio Nacional trouxe saudade de minha avó paterna, Maria Emília, que todos chamávamos carinhosamente de Mimi (infelizmente não cheguei a conhecer meus avós maternos) que não largava o seu rádio de pilha. Ouvia o dia todo.

Quando ia visitá-la em seu apartamento no final da rua Guilherme Greenhalgh, em Icaraí (ela sempre me recebia com muito amor e carinho), invariavelmente  estava acomodada em sua cadeira de balanço, fazendo tricô com o rádio de pilha ligado em volume baixo.

Eventualmente passava pequenas temporadas em nossa casa, principalmente quando meus pai viajavam. O rádio dela era uma presença constante mas percebi que não tinha uma emissora fixa. Minha avó ficava zapeando, dando preferencia a programas falados e radiojornais.

Uma vez perguntei sobre a Rádio Nacional e o rosto dela se iluminou. Na Nacional dos anos 1940, 50, Vovó Mimi acompanhava as suas novelas (destaque para “O Direto de Nascer”) os programas de auditório e foi na Nacional, numa edição extra do célebre Repórter Esso que o Brasil soube do fim da II Guerra Mundial. Um trecho original do locutor eufórico anunciando o fim da guerra está na coluna da Bandnews FM.

Minha avó não conheceu a Rádio Nacional pessoalmente mas como sempre comprava a Revista do Rádio era como se já estivesse estado lá. A publicação dava amplo destaque (e muitas fotos) a emissora que imperava no país, transmitindo a partir do Edifício apelidado de  A Noite porque lá também funcionava o jornal com este nome.

O nome de batismo do prédio de 22 andares (durante muito tempo foi o mais alto da América Latina) é Joseph Gire, inaugurado em 1927 com 102 metros de altura.

Prédio da Rádio Nacional foi o mais alto da América Latina durante muitos anos

As ondas do rádio de meus antepassados me pegaram. Minha paixão por essa mídia com certeza herdei da minha avó e de meus pais. Lá em casa o rádio vivia ligado em emissoras de música. Minha mãe não abria mão, dizia “alegria! alegria!” e ligava o rádio logo de manhã.

Meu pai tinha o dele no escritório em casa e no carro, era ouvinte fiel da Rádio Jornal do Brasil AM. Meu sonho era trabalhar lá. Meu primeiro trabalho no rádio, com 17 anos, foi como programador musical na Federal AM, que pertencia ao grupo Manchete, emissora de rock que funcionava na Rua da Conceição, centro de Niterói.

Na sequência fui para a Rádio Tupi AM onde mergulhei nas reportagens de programas populares (uma lição de vida) e como a emissora ficava na Praça Mauá um dia fui visitar a vizinha Rádio Nacional. Minha avó já tinha ido embora mas mesmo assim dediquei a ela a vibração do glorioso passado que senti nos corredores, nos estúdios. Não era mais a Nacional dos anos 1950, claro que não, mas havia fotos de Cauby Peixoto, Cesar de Alencar, Eron Domingues, enfim, heróis do rádio brasileiro.

Depois da Tupi finalmente consegui trabalhar na Radio Jornal do Brasil AM, considerada a meca do radiojornalismo e da música de bom gosto. Meu pai fez questão te me levar de carro no primeiro dia e viu a minha emoção quando parou o Fusca em frente aquele prédio maravilhoso na avenida Brasil 500, que hoje abriga o Into.

“Você conseguiu”, meu pai disse, claro, com a JB AM sintonizada no Fusca. “Boa sorte, meu filho”, ele disse e eu entrei naquele edifício monumental, peguei o crachá na portaria e no elevador percebi que nunca mais deixaria aquele mundo, o mundo do rádio, que me abduziu sem cerimônias, com as bençãos de meus antepasados.

Para ouvir as colunas, clique neste link: https://bityli.com/dbw5B

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