As mulheres pioneiras da PM de Niterói

Anderson Carvalho

Quem passa pelas ruas de Niterói e se depara com mulheres vestindo farda da Polícia Militar pode até não imaginar, mas por trás dos traços delicados, do batom e das unhas pintadas, há agentes que têm pulso para perseguir criminosos e garantir a segurança dos cidadãos. Com 55 anos de existência comemorados no último dia 27, o 12º BPM, responsável pelo policiamento dos municípios de Niterói e Maricá, tem 44 mulheres dentro do seu efetivo de 956 policiais. A primeira turma feminina foi formada em 2010, com 30, além de 19 homens. Além disso, o batalhão tem a única creche para filhos de policiais do Estado.

A cabo Danielli Vieira, de 38 anos, integrou a primeira turma, formada há sete anos. Ela atua no policiamento da Região Oceânica, lotada no Centro Integrado de Segurança Pública (Cisp), no Trevo de Piratininga. De lá, faz rondas pelos bairros oceânicos. “Eu sou filha de um policial militar e três primos meus também. Eles me inspiraram a seguir a carreira. O meu pai sempre me incentivou. Para mim, é uma honra. Apesar de todos os problemas, é uma profissão muito boa e digna. No início, eu encontrei certa resistência por parte de alguns colegas. Achavam que eu era frágil e na hora do perigo, fugiria. Depois, viram que eu enfrentava tudo para valer. Não há diferença no treinamento de homens e mulheres. Hoje, estão mais acostumados e me procuram até para desabafar problemas com as esposas”, conta a oficial.

Há cerca de um ano e meio, Danielli atendeu a uma emergência de uma mulher vítima de agressão por parte do marido na frente da filha de dez anos do casamento anterior. “O homem batera nela na frente da menina, que conseguiu ligar para a polícia e chamar a ambulância. Quando cheguei ao local, ela estava em choque. O episódio mexeu comigo”, relata a cabo, que está solteira e tem um filho de 17 anos.

A cabo Wendy Santos, de 30 anos, é da mesma turma de Danielli e trabalha como Relações Públicas no batalhão. “Comecei servindo em Cabo Frio, onde fiquei três meses, e depois vim para Niterói, atuando nas ruas da Região Oceânica, onde fiquei até recentemente. Quando resolvi ser PM, minha família apoiou. O meu marido, o capitão Eleutério, daqui do batalhão, é que me pede às vezes para sair. Ele acha perigoso. Eu disse a ele que quando não der mais, eu saio. Temos uma filha de quatro anos”, conta a oficial.

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Cynara Monteiro, de 35, é sargento e formada desde 2012. Há dois anos está no setor de Análises Criminais do 12º BPM. “Comecei na UPP do Complexo da Maré, no Rio, atuando no policiamento, onde fiquei nove meses. Depois, fui para o 23º BPM, em Ipanema. Dois meses depois, fui para Cabo Frio. Enfrentei desconfiança de alguns colegas que não queriam sair comigo. Achavam que eu não teria coragem e iria me esquivar. Provei que não. Temos que nos desdobrar em jornada dupla, pois, quando chegamos em casa, temos os trabalhos domésticos. Tive que sair das ruas por conta de uma hérnia de disco adquirida por causa dos equipamentos pesados que carregamos e o colete, também pesado. Hoje, estão fazendo coletes mais leves. Certa vez, quando estava na trabalhando na rua em uma operação, um preso me disse uma gracinha. Eu o prendi por desacato. As minhas amigas acham perigoso, mas ficam muito admiradas do meu trabalho”, disse Cynara.

A cabo Cláudia Vieira Pepeu, de 36 anos, e a soldado Élida Miller da Costa, de 35, atuam na creche do batalhão, cuidando de 20 crianças, filhos de policiais de vários batalhões do Leste Fluminense. “Me formei em 2011 no 7º BPM, de São Gonçalo, onde fiquei seis meses. Quando fui para uma operação em uma comunidade, o sargento que estava chefiando me mandou voltar e outro colega para me acompanhar. Fiquei chateada na hora. Depois, ele desculpou-se comigo. Resolvi ser PM quando ainda estava na Guarda Municipal e lá era muito ruim. Nem plano de cargos tinha. Na PM eu ganharia mais e teria ainda uma bolsa olímpica. Era o que prometiam na época. Atuei ainda na UPP do Alemão por oito meses. Há três anos vim para Niterói, atuar no policiamento do Centro. Há dois anos estou na creche. Eu tinha um marido que se separou de mim, pois não aguentou de ciúmes, devido às horas extras”, lamentou Pepeu.

Élida se formou em 2013, indo direto para a creche. O marido, motorista de ônibus, também não gosta muito das horas extras da mulher nos fins de semana. “É importante haver mulheres na PM. Já fui chamada para uma operação só para revistar mulheres”, afirmou a oficial.

O comandante do batalhão, coronel Márcio Rocha, defende a presença de mulheres. “Elas harmonizam o ambiente de trabalho. Veem as coisas de maneira diferentes dos homens. Aqui elas atuam em todos os setores”, comentou, orgulhoso.

Em 55 anos de história, o 12º BPM nunca teve uma mulher no comando. Na Polícia Militar do Rio de Janeiro a primeira turma de mulheres foi recebida em 1982. Desde então, a policial feminina tem desenvolvido eficientemente as funções que lhe são confiadas, mas ainda sofre restrições implícitas a determinadas atividades, devido às expectativas e características pautadas em determinações sociais quanto ao gênero feminino. Hoje, há mais de 4.308 mulheres, em um universo de 47.236 policiais militares.

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