As luzes do Natal

LUIZ ANTONIO MELLO

Ano passado fui ver as luzes de Natal no Campo de São Bento, onde centenas de pessoas contemplavam a bela e farta decoração. Este ano irei de novo pois, disseram, vai estar mais bonita e maior.
As luzes de Natal são mágicas. Me conduzem a interestrelares sensações que lembram a infância e também a uma estranha “saudade do que não vivi”. Nessa incursão pelo Campo, sentei, e fiquei olhando, olhando, olhando para aqueles presépios de luz e acabei tomado por uma inundação de paz interior.
Uma inundação que, felizmente, não é atípica em minha vida. Pequeno, 8 anos, 9 anos, ou 10, fui com o meu pai e irmão ao mesmo Campo de São Bento que acolhia uma árvore de Natal. Não era enorme, não era gigante, não era top, mas era linda.
Tradicional, foi montada em uma réplica de pinheiro, tinha “neve” nos galhos verdes, bolas coloridas, ponteira, Papai Noel, presépio em tamanho natural na base. Lembro que ficava perto ou dentro do lago e acho que sem querer fiz uma pergunta que encurralou o meu paciente pai: “Por que sinto um calor aqui (apontei para o coração) quando vejo uma árvore de Natal?”. Ele respondeu “é emoção”. Ponto.
Mais tarde percebi que essa emoção se junta a paixão e fé em Deus, nos milagres, nos anjos, nessa “brisa” de alívio que as luzes de Natal me provocam. Escrevo na primeira pessoa porque não quero ter a pretensão de generalizar.
Além do Campo de São Bento, este ano quero visitar o Horto do Fonseca que, me dizem também, vai ficar extraordinariamente mágico e lindo. Aquele horto…o que dizer daquele poema verde?
A ciência conta que a raça humana é ligada as luzes desde os tempos das cavernas. Contemplar o céu, parece, era natural, cotidiano, como contemplar o fogo aceso para espantar predadores como o lobo. Alguns teóricos que respeito, muito, estudiosos da Comunicação, sugerem que o sucesso da televisão após o jantar seria um flash back que nos joga lá atrás, na contemplação das fogueiras de nossos ancestrais. Pode ser? O que você acha? Email para cá, por favor: luizantoniomellomail@icloud.com
As luzes de Natal nos trazem outro tipo de magnetismo que vai além do fascínio e da lógica. Insisto na ideia de que, no meu caso, é a presença da fé. Fé em Deus, fé na vida, fé nas pessoas próximas, fé, fé, fé. Uma manifestação metafísica que tem o direito de permanecer inexplicada, imperscrutável, secreta. Pelo menos para mim. Não quero sentir a arrogância de tentar explicar a fé, não quero pretender explicar nem o amor, nem a paz, nem a saúde. Quero ter o privilégio divino de sentir, acolher e compartilhar tudo isso com as pessoas.
Farei este ano o que desejei fazer em 2018 no Campo de São Bento banhado de luz. Sentado perto do lago recitar Luís Antonio Pimentel, uma das figuras mais extraordinárias que conheci, exímio escritor, poeta, fotógrafo que nos deixou em 2015 aos 103 anos bem vividos. Deu nome ao túnel Charitas-Cafubá e meu saudoso amigo, irmão, João Sampaio batizou o Cafubá-Charitas. Que beleza!

Pimentel foi um dos precursores do haicai no Brasil, e em sua vasta obra escreveu:Que é um haicai?
É o cintilar das estrelas
num pingo de orvalho
Eu o conheci pessoalmente através do amigo Luiz Erthal que produziu a peça “12 Dias com Leviana”, texto de Pimentel adaptado para o teatro, com brilhante direção de Guga Gallo, no Municipal de Niterói, que eu dirigia em 2012. Erthal é dono da Editora Nitpress que publicou inúmeras obras no L.A.P. Dê uma olhada no site http://www.nitpress.com.br/
Hoje, exatamente hoje, eu teria ligado para o Erthal, ou para o Carlos Mônaco, para entrar em contato com o Pimentel e convidá-lo para vermos as luzes de Natal do Campo de São Bento. Notívago, mesmo aos 103 anos (será uma saga do nome?), acho que ele adoraria sentar por lá, conversar (vício comum em nós dois), e, certamente, dizer algo. Para ele simples palavras, para nós poesia gigantesca, monumental, de um homem cuja vida daria um filmaço.
No passado, convidaria Casimiro de Abreu para uma contemplação:
Tem tantas belezas, tantas,
A minha terra natal,
Que nem as sonha um poeta
E nem as canta um mortal!
— É uma terra encantada
— Mimoso jardim de fada —
— Do mundo todo invejada,
Que o mundo não tem igual.
Quem sabe, Olavo Bilac, poeta preferido de meu pai, que em “Ora direis ouvir estrelas”, na estrofe em que responde ao amigo que pergunta “o que elas (estrelas) dizem? e eu, aqui reforço, e as luzes de Natal?
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.
A cidade acesa olha para o infinito, calada, e busca acalento, sob nossos olhares, sonhos, reflexões, abismos e abrigos.Pimentel foi um dos precursores do haicai no Brasil, e em sua vasta obra escreveu:

One thought on “As luzes do Natal

  • 3 de dezembro de 2019 em 07:07
    Permalink

    Uma bela matéria!
    Ao autor Luiz Antonio Mello peço a gentileza de nos ajudar informando se há uma matéria mais recente ou até mesmo providenciar ou pedir a quem de direito, sobre como está a Saúde em Niterói, pois a mídia muito tem explanado o caos no RJ, assim como os gastos exorbitantes com ornamentação em Niterói, principalmente no espaço Campo de São Bento, que muitos registros de falta de revitalização existem neste grupo, e para tanto, sugiro uma atualização da matéria divulgada em janeiro/2019.
    Cordialmente.
    https://www.atribunarj.com.br/crise-nos-hospitais-municipais-e-estaduais-de-niteroi/

    Resposta

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