Artur Vidaurre de Almeida: A retomada econômica brasileira

Além da grave crise sanitária que o Brasil vem sofrendo desde o início de 2020, a COVID-19 também trouxe uma dura crise econômica. Essa recessão, entretanto, possui diferenças fundamentais às crises de 2008 e 2015-16, uma vez que os efeitos da pandemia causaram distorções pelo lado da oferta e da demanda econômica.

Com o aumento das infecções, tornou-se necessário decretar quarentena ao longo de todo território brasileiro. Isso possui alguns efeitos para a Economia, sendo os principais a quebra de importantes cadeias de produção e a redução de fatores como a oferta de trabalho, o consumo e o nível de investimento. Para entender isso é simples, com poucas pessoas saindo às ruas e modificando seus hábitos de consumo as empresas acabam tendo desincentivos para expandir negócios e produções. E essa é a grande diferença a crises passadas, pois os mecanismos de correção e retomadas econômicas estavam sempre disponíveis. Com a pandemia, entretanto, medidas de retomada precisavam, necessarimente, esperar para que consumidores e firmas voltassem aos hábitos e expectativas normais.

Conforme o Brasil e o mundo começam a caminhar para um período “pós-pandêmico”, no qual os habitantes voltam a trabalhar e consumir o que desejam, sem restrições, começa-se a tornar possível pensar medidas de retomada econômica. O Governo Federal também parece começar a pensar nisso, mas com certa ingenuidade, visto que Paulo Guedes parece confiar demais em uma retomada natural, clássica de economistas ditos liberais da geração do nosso Ministro. Nesse sentido, Guedes acredita que, com o afrouxamento da quarentena, todos os brasileiros retomarão suas rotinas da exata mesma forma que eram antes da pandemia, fazendo com que tudo volte ao normal como se nada tivesse acontecido. Entretanto, isso não parece ser o caso, já que muitas pessoas mudaram seus padrões de consumo, repensando certas tarefas e decisões. Por exemplo, quantas pessoas não passaram a ir menos vezes ao supermercado? Ou então passaram a consumir mais produtos online, fazendo compras virtuais em vez de se deslocar até os locais? Por mais simples que pareçam, essas alterações no agregado causam impactos ainda incalculáveis, podendo ser benéficas para a sociedade ou maléficas.

Confiar apenas na figura do “Mercado” sendo capaz de estabilizar e guiar o crescimento da Economia brasileira parece muito arriscado e não é o mais factível quando analisamos outros países. Estados Unidos, União Europeia, China e Japão são apenas alguns exemplos de países que realizaram planos bastante caros para a retomada econômica. Mantendo todas as suas similariedades, todos possuem uma característica fundamental em comum: a retomada econômica passa pela participação do Estado como regulador e propulsor inicial. É bastante simples de entender que com as pessoas voltando aos padrões de vida pré COVID a Economia tende a ganhar com isso, mas ficar na eterna espera para que isso ocorra de forma automática, sem que o Estado dê o pontapé inicial é muito perigoso.

O Brasil está em um momento crítico da retomada, com um nível muito alto de desempregados, uma inflação crescente, um crescimento do PIB muito inexpressivo, níveis altos de insegurança alimentar e mais de meio milhão de pessoas mortas. Além disso, o Governo Federal enviou para o Congresso uma Reforma Tributária que está sendo criticada por todos os lados. A efeito de comparação, Sérgio Gobetti (pesquisador do IPEA e ex-secretário-adjunto de Política Fiscal e Tributária do Ministério da Fazenda) calculou uma perda de arrecadação na casa dos R$41 bilhões seguindo a Reforma. Já a economista niteroiense Vilma da Conceição, Diretora da Instituição Fiscal Independente, prevê uma perda de R$28,9 bilhões. De forma resumida, não parece ser uma Reforma que cumpre seu real objetivo: tornar o sistema tributário mais progressivo, fazendo com que quem possui mais dinheiro pague mais imposto e quem possui menos dinheiro pague menos imposto.

As propostas são muitas. Os EUA escolheram fazer um plano de investimento em infraestrutura caríssimo que vai impulsionar diversos setores da Economia. A União Europeia parece seguir na mesma linha. Países asiáticos também confiam muito no seu mercado interno na retomada, mas sempre tendo a figura do Estado como catapulta. Parece que Paulo Guedes está indo contracorrente, jogada extremamente arriscada e muito pouco confiável baseando-se no resto do mundo.

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