Arte brasileira de origem africana, capoeira influencia na vida de crianças em Niterói

Uma arte com centenas de anos, originária do Brasil, mas com fortes laços com a cultura africana subsaariana. A capoeira conquistou os corações de todo o país com suas peculiaridades, misturando música, dança e artes marciais. Chegando ao século XXI, os impactos positivos da capoeira na sociedade são incontáveis e, na cidade de Niterói, não é diferente.

A Associação de Capoeira Liberdade na Ginga apoia dezenas de crianças em situação de vulnerabilidade social em comunidades da Região Central de Niterói. Marcus Vinícius Gregório, o Mestre Pirulito, iniciou o projeto há 17 anos e conta um pouco da história à décima primeira reportagem da série de instituições de apoio a crianças, produzida pelo jornal A TRIBUNA.

“Eu comecei com a capoeira, e meu mestre não me cobrava. Quando me graduei, conversando com outros amigos, decidimos dar aulas numa espécie de troca de favores. Como nosso mestre não nos cobrou, não nos sentimos no direito de cobrar. Infelizmente há o tráfico, crianças na rua, sem estudar e essa troca foi uma maneira de ajudar, voltar o favor que meu mestre em vida me deu. Que era me ensinar, ajudara  educar, sem cobrar nada”, explicou.

Como a maioria dos projetos sociais, o Liberdade na Ginga sofreu os efeitos devastadores da pandemia da Covid-19 e chegou a ficar com as atividades suspensas. A quantidade de alunos, na retomadas, caiu de 50 para aproximadamente 15. Pirulito pretende, gradativamente, reconquistar esse público ao passo que as atividades se normalizarem no contexto da retomada. Ele também explica que o projeto sobrevive financeiramente graças ao esforço de amigos.

Projeto possui quase duas décadas de história – Foto: Divulgação

“A gente está lutando. Os pais às vezes não têm nem com o que se alimentar. Tentamos fazer eventos, mas em comunidades é mais difícil e o governo não nos ajuda. Os alunos que trabalham se juntam e fazemos acontecer, a gente não tem fundos. As associações ajudam com o espaço. Se quebra um instrumento, temos que lutar para repor. Estamos tentando viabilizar apoio e parcerias. Na pandemia paramos um tempo e fomos retomando aos poucos, primeiramente só os adultos e, com a vacinação, estamos voltando, com horário reduzido”, prosseguiu o mestre.

Um dos alunos mais dedicados e assíduos do projeto é o historiador Clóvis Neto, que, além de participar, apoia na organização. Ele explica que, além das aulas de capoeira, questões sociais são abordadas para auxiliar no aprendizado das crianças. Ele cita, por exemplo, aulas que são realizadas na praia a fim de provocar a conscientização para assuntos relacionados ao meio ambiente.

“A gente costuma fazer aulas específicas pelo menos uma vez por mês para instrumentalização, porque capoeira envolve musicalidade, a gente faz as aulas na orla dando ênfase à questão do meio ambiente, a importância de cuidar do espaço onde se vive. Toda essa pegada inerente a gente. Enquanto educadores temos a necessidade de falar de assuntos sobre a questão racial, inclusão de gênero, sempre de forma sutil em temas delicados, incluindo no nosso rol de disciplinas”, mencionou.

Pirulito comenta que a retomada das aulas tem sido retomadas de forma gradativa, para crianças no Morro da 94, em São Domingos; Morro do Estado, no Centro; e Buraco do Boi, em Santana. Ele conclui afirmando que a principal cobrança aos pequenos é o empenho do estudo. Quem quiser ajudar o projeto ou participar, basta comparecer à sede da associação de moradores da região de São Domingos, nos dias e horários das aulas.

“Costumo falar muito aos meus alunos que eles têm que estar estudando e, se for maior, estudando e trabalhando. Sem isso não somos nada. Temos sempre que ajudar um ao outro, procurar melhorar um ao outro. Não adianta eu melhorar se o amigo não está bem. Procuro sempre demonstrar isso aos meus alunos, a melhoria não só do grupo mas do país. A sede é na Rua Lara Vilela, São Domingos, Associação de Moradores da 94, segundas e quartas de 19h às 21h”, completou.

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