Após receber o uniforme 57 anos depois, Aida dos Santos recorda situações das Olimpíadas de 1964

Finalista do salto em altura, niteroiense relembrou dramas e contou que entrada no atletismo se deu por acaso

Os Jogos Olímpicos de Tóquio de 2021 ajudaram o Brasil a entrar na história das olimpíadas. Com 21 medalhas ao todo, sendo 7 de ouro, o país conseguiu a melhor colocação ao ficar no 12º lugar no quatro de medalhas. Mas na edição dos jogos de 1964, uma outra brasileira fez história, mesmo não tendo chegado ao pódio.

Nascida no Morro do Arroz, Aida dos Santos foi a dona da melhor marca de uma atleta mulher brasileira no atletismo por 44 anos. Na ocasião foi a quarta colocada do salto em distância com 1 metro e 75 centímetros, a melhor marca da vida. Só em 2008, com o ouro de Maurren Maggi no salto em distância, é que a melhor colocação de uma esportista do país mudou de dona.

Já em 2021, Aida recebeu um uniforme através de uma loja de material esportivo. O gesto simbólico visava reparar o fato dela ter ido para o Japão sem nenhum tipo de roupa pessoal, nem mesmo uma sapatilha. A vestimenta atual tinha o número 22, mesma numeração com a qual competição em 1964. A cerimônia foi no Estádio Nilton Santos, administrado pelo Botafogo, que é o clube de coração dela e pelo qual disputou competições como atleta.

Morando no Fonseca, na Zona Norte de Niterói, Aida recebeu a reportagem do jornal A Tribuna para uma conversa. Vestindo o casaco do uniforme recentemente ganho, ela relembrou algumas situações que precisou enfrentar. Nada que tirasse o sorriso fácil de alguém que entrou no atletismo por acaso.

Racismo sofrido em competição escolar

Inicialmente, Aida começou treinando vôlei no Caio Martins quando ainda estava na escola. Durante uma disputa entre times, ela escutou um insulto racista. Não se desestabilizou e, após o fim do jogo, pegou o microfone de quem apresentava o jogo e respondeu em alto e bom som, literalmente, ao agressor.

“Quando eu ia começar o jogo ouvi alguém da arquibancada gritar: ‘Sai daí, crioula. Teu lugar é na cozinha’. Esperei o jogo terminar, peguei o microfone e respondi: ‘Meu lugar é na cozinha, na sala, no quarto e na copa. Mas é também numa quadra de esportes’. Foi assim que eu respondi”, recorda Aida.

Ela frequentava as aulas com uma colega que morava no Morro do Estado e que já fazia atletismo. E ela sempre convidava Aida para treinar salto em altura, mas a resposta sempre era negativa. Até que um dia a colega fez uma aposta, e Aida perdeu.

“‘Se hoje não tiver quórum para o jogo de vôlei, e você não fizer atletismo, volta pra casa a pé’, foi o que a minha amiga me contou. Cheguei no vôlei e não tinha quórum. Daí pensei: ‘Ou eu faço esse salto em altura aí ou vou ter que voltar para casa a pé’”, relembra Aida, que recebia as caronas em uma bicicleta.

Após perder a aposta, Aida resolveu saltar e impressionou imediatamente. O primeiro salto dela foi 1,40 metro, sendo que o recordo estadual era de 1,45 metro, que era de uma atleta de Itaperuna, do Norte do Estado. Três meses depois disputaria a primeira competição profissional, na sede do Fluminense em Laranjeiras. Mas precisou enganar o pai para competir.

“A primeira vez que fui competir meu pai não deixou. Daí me perguntaram por que não fui e eu respondi que meu pai não tinha deixado. Só que, por sorte, a competição não aconteceu no dia marcado por causa de uma chuva forte. Daí a minha amiga mentiu para ele dizendo que eu só iria assisti-la competir. Aí eu tive a permissão. No dia da prova saltei 1,50 e fui campeã. Teve até um jornal que me colocou como revelação para as Olimpíadas de Roma, de 1960. Cheguei feliz em casa, mostrei a medalha para o meu pai, mas ele respondeu: ‘Medalha enche barriga? Dá dinheiro?’, daí ele me bateu e falou que não me deixaria ir para esse ‘tal de atletismo’”, conta Aida, que seguiu treinando, mas de forma escondida. A forma como ela convencia o pai era dizer que iria “apenas assistir os treinos das amigas”.

Aida dos Santos com a placa de participação das Olimpíadas de Tóquio de 1964 – Foto – Cristiane Cunha

“Parabéns pra você” para preencher a ficha de inscrição

O caminho até Tóquio não foi fácil. Ela precisou passar por seis eliminatórias em diferentes estados, sendo a última delas no Estádio de Atletismo Célio de Barros, no Maracanã, na Zona Norte do Rio. Em todas conseguiu atingir o índice de 1,65 metro, mas só na última eliminatória é que ela teve a vaga garantida.

A chegada ao Japão só foi possível por ter viajado junto com uma delegação do basquete masculino. Mas antes precisou acompanhar a delegação em uma viagem à França, para seguir em direção a Tóquio.

Após desembarcar no país, ela não conseguia localizar ninguém que falasse português e chorava pela ausência de ajuda. Um integrante do comitê organizador percebeu que a brasileira precisava de ajuda e começou a cantarolar “Parabéns a você” apontando para onde deveria ser preenchida a data de nascimento. Foi assim que a niteroiense conseguiu fazer a inscrição.

Antes mesmo do embarque, ela ouviu de um dirigente, que prefere não dizer o nome, que “jamais iria longe”. Se a tática era desestabilizá-la, Aida afirma que o efeito foi o contrário.

“Eu gostei quando esse dirigente falou isso para mim. Pois quando falam que não vou conseguir aí que me sinto motivada a seguir em frente”, explica.

Ela descobriu a pista de atletismo ao circular pela vila olímpica até achar o estádio. Faltando uma semana para a competição apontava para a sapatilha e o atendente japonês cedia o calçado para o treino. Mas na hora de buscar o uniforme e a sapatilha para a disputa descobriu que a delegação brasileira não colocou o nome dela entre os atletas que iriam disputar os jogos.

A ajuda veio de um atleta cubano, Lazaro Betancourt, que a orientou e ajudou a conseguir materiais. Ela foi às semifinais com sapatos para corrida de cem metros, que são diferentes dos usados em saltos. Nas semifinais, ficou ao lado das atletas dos outros países,

“Onde as atletas iam, eu seguia junto”, conta e ri ao se lembrar do macete.

Para avançar às semifinais, tinha que saltar 1,7 metro. Conseguiu logo na primeira tentativa, mas torceu o pé e voltou mancando. Mais uma vez ela teve um apoio de alguém de Cuba. Dessa vez da atleta Miguelina Cobián, que conseguiu o médico da delegação que deu o suporte necessário para que seguisse à final. Na decisão, saltou 1,75. E não conseguiu mais continuar.

“Eu fiz 1,75 logo de cara. Depois que cheguei a essa marca, a melhor da minha vida, desabei. Eu cheguei no meu limite físico e emocional. Quando vi a marca comecei a chorar, não aguentava mais de dor e queria muito voltar para o Brasil. Tanto que voltei junto com a delegação do futebol, que tinha sido eliminada. Eu só soube depois que tinha ficado em quarto lugar. O detalhe é que cheguei a ficar entre as três primeiras, porque a russa que ficou em terceiro estava com as mesmas marcas que eu, só que ela passava na segunda ou na terceira tentativa. Até chegar a 1,75 eu passei todas de primeira. Mas depois ela superou minha marca e foi ao pódio”, recorda Aida.

Recusa em desfilar em carro aberto

Na volta ao Brasil, Aida foi recepcionada no aeroporto do Galeão e ganhou uma coroa de flores. Várias autoridades do esporte e profissionais de imprensa fizeram festa pelo resultado e queriam que ela desfilasse em um carro aberto para saudar o feito. Mas ela recusou de pronto. E ainda rejeitou uma reportagem especial de um jornalista de Niterói.

“Assim que eu cheguei fizeram uma festa e queriam que eu desfilasse. Recusei na hora. Eu precisava desse apoio antes de ir, e não depois. Quando cheguei no Brasil de volta, não precisava mais. Teve até um repórter de Niterói que disse que me daria uma carona para a cidade pra fazer uma reportagem especial. Eu respondi: ‘Se você me der carona eu jogo você no fundo do mar durante a travessia, isso sim’”, conta às gargalhadas.

Com 84 anos na atualidade, Aida segue com a saúde em dia, mostrando disposição ao realizar atividades físicas diárias. A filha dela, Valeskinha, também disputou as Olimpíadas, sendo medalha de ouro em Pequim-2008, no vôlei feminino.

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