Ano Novo em Itaipu

A tradição se manteve na madrugada de 31 de dezembro para 1º de janeiro. Ao longo de sete horas foram dezenas de micro arroubos de sono, com 20 ou 30 minutos de duração cada um, seguidos de despertar regido pela quase dispneia. Está assim há anos.

Um desses arroubos foi comovente, sentido, saudoso. Sonhei com Titã, meu fiel cão basset (dachshund) que tive nos 1990, parceiro de momentos muito, muito, muito felizes. Titã e eu vivemos intensamente o que a vida nos presenteou, a começar pela sensação de plena liberdade existencial, quase absoluta, que eu decretara há alguns anos em prol da sobrevivência própria. E Titã era a cara, mais que isso, era a alma de Itaipu, praia que entrou em minha vida a partir do final dos anos 1980 e se manteve até 2000.

Pela leitura de sonhos/pesadelos que acho que aprendi a fazer em anos de análise junguiana (vale a pena dar um google em Carl G. Jung) não foi difícil perceber que os sonhos com o Titã me conectavam a brutal saudade da Praia de Itaipu que me acomete há tempos, principalmente quando a sua beleza está mais ameaçada. Eu havia lido sobre festa da virada lá, com expectativa de 50 mil pessoas, e imaginei o massacre do meu ludismo e do ludismo de Itaipu. Mais uma vez.

A rede de conexões do inconsciente é quase perfeita: jornal fala da virada em Itaipu – a informação entra, causa revolta, indignação, não se processa – durmo – o inconsciente resgata um símbolo pessoal de Itaipu, o Titã, que no sonho aparece aflito. Mais: quarta-feira encontrei meu irmão caçula por afinidade, Alexandre, que perguntou: “tem ido a Itaipu?”. Bateu até nó na garganta.

A Praia de Itaipu foi um milagre existencial em minha vida. Quando um pequeno e maravilhoso sítio que meu pai desenhou e construiu nas imediações da entrada de Itacoatiara nos anos 80 desapareceu, foi um baque. Eu ia lá quase todos os dias, criava meus cães, recebia amigos, havia planos de no futuro morar na charmosa casinha de madeira que meu velho, genial, montou.

Mas, como cantou um dia Edu Lobo, “veio o cerco bravo, era um palmeiral (…)/Vento virador no clarão do mar/Vindo a viração vai se anunciar/Na sua voragem, quem vai ficar/Quando a palma verde se avermelhar/É o vento bravo.”

O sítio foi embora.

A Praia de Itaipu o substituiu. Em toda a década de 90 ia para Itaipu até a noite. Havia uma intensa e densa afinidade espiritual e existencial com aquele lugar. Mais: na época conheci amigos que sentiam a mesma coisa, entre eles Luis Antonio Sabino, conhecido como Neno – dono do Sabino’s, bar que fez do nosso caos, cais.

Além de descobrir o prazer de boiar a beira mar por horas amarrado a colete salva vidas de lancha, contemplando o pôr do sol, os mergulhos nas pedras, o ir e vir de Titã correndo na areia com os seus amigos, vira-latas locais, o maior presente: papos na areia com os novos amigos que, não poucas vezes, duravam até 3 da madrugada.

Poucas vezes a percepção de felicidade se revelou tão forte, desde os feriadões em um lugar de astral parecido, Mury/Macaé de Cima. Como era bom saber que havia Itaipu. Para tudo. Êxtase, terror, preguiça, desabafo. Uma vivência tão intensa, tão abissal, que virou o livro “Torpedos de Itaipu” que escrevi em homenagem aquilo tudo.

O que aconteceu. Nos anos 2000 sumiu todo mundo. Neno fechou o bar e os amigos pararam de ir porque sem ele lá o astral da praia baixou. Concordei e parei de ir também. Tentei voltar há meses e me senti um estranho. Na areia, só os ecos do que John Lennon cantou sobre os Betles: o sonho acabou. Vou mais a frente, um pouco: eles venceram e o sinal está fechado para nós, que somos de Niterói.

Fim.

P.S. – parabenizo publicamente a secretária de fazenda de Niterói, Giovanna Victer, pelo esplêndido trabalho que vem realizando. Ela promove o encontro da macroeconomia bem gerida e sem tecnocracia com a economia criativa moderna e bem aplicada, com uma atenção muito especial a questão social. Que bom!

Leitor respondeu a pergunta da coluna passada. Escrevi:

Caro leitor, por favor responda se esta cena fictícia é educativa ou não.

Supondo que Alarido seja um megatraficante, o garoto de 6 anos pergunta a mãe: “mamãe, cadê o Alarido?”. A mãe responde “o Alarido foi preso, meu filho”. “E o Juca Rojão?”, “filho, morreu num tiroteio durante um assalto”. E o Perereca?”, “está sumido há duas semanas, estava em um carro roubado”. “Tá”.

O leitor Roberto Cyrus, de Icaraí, respondeu:

O cenário não é fictício. É real, principalmente nas favelas. Ih, agora devemos chamar de comunidade. Detesto essa coisa de politicamente correto. Essas sãos as perguntas q as crianças fazem nas favelas.

Os mais medrosos procuram ficar afastados. Mas, os mais atiradinhos vão observado e fazendo escola para entrar no crime também.

Abraços e um Feliz Ano Novo!

Fale conosco – luizantoniomello@protonmail.com

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