Animação ambientada em São Gonçalo tem cães de rua como protagonistas

Cães de rua, que vivem em uma praça da cidade de São Gonçalo, além do próprio logradouro, se tornaram personagens de uma animação, produzida por um coletivo audiovisual da própria cidade. O desenho “Os Cães da Praça” é publicado em um dos canais coletivo Moinhos de Vento, no YouTube e, além de satirizar “causos” do cotidiano gonçalense, usa e abusa de referências políticas e da cultura pop brasileiras, na atualidade.

Um dos fundadores do coletivo e idealizador da animação, Wemerson Peu conta como surgiu a ideia de criar “Os Cães”. Segundo ele, tem a ver com um descontentamento com a preservação de locais públicos na cidade, algo que ele carrega consigo desde os tempos de faculdade. Somado a isso, ele reparou que muitas praças, em estado de abandono, passaram a ser “dominadas” por cachorros de rua, caso da Praça Chico Mendes, no Coelho, em São Gonçalo, inspiração da animação.

“A ideia surgiu há alguns anos. Eu tinha uns descontentamentos com o desleixo na cidade de São Gonçalo, com as ruas, as praças. Aí surgiu depois daquela revitalização em que a Praça Chico Mendes mudou de nome, de aspecto. Em um trabalho da faculdade, andei desde a Fazenda Colubandê até a Praça dos Ex-combatentes, e ia vendo o aspecto da cidade. Nas praças eu reparava a falta de cuidado. Vi que a cidade estava ‘entregue aos cães’, as praças, como a Chico Mendes, ficaram para os bichos mesmo. Gosto muito de fazer animação, mesmo não sendo profissional da área. Gosto de criar e inventar”, contou.

Para além dos cachorros da praça, a ideia é expandir cada vez mais o alcance dos temas abordados. Peu destaca que ele e os demais membros do coletivo pretendem inserir personagens diversificados, entre eles um cão que sofre com deficiência física. Temas políticos também estão no radar dos produtores, que também querem inserir no roteiro cenários presentes no dia a dia, como a polarização entre esquerda e direita.

“‘Os Cães’ passa muitas questões políticas, a gente coloca um espelho da nossa própria sociedade no desenho. Colocamos essa polaridade política, as questões que estão à tona. A gente quer ampliar isso. Tem uma cachorrinha que é cega e cientista. Rennan estava falando comigo, outro dia, sobre colocar um cachorro deficiente, sem poder utilizar as patas traseiras, que seria um cão ex-corredor. A animação reflete a nossa própria sociedade”, disse.

Todavia, cada episódio é um desafio diferente para o grupo de amigos. Peu faz questão de explicar que o Moinhos de Vento, embora seja um coletivo com vasto portfólio, não possui a estrutura de uma produtora profissional. Além disso, a ajuda de pessoas de fora é essencial, principalmente no trabalho de dublagem dos personagens.

“A gente não é um estúdio de animação. Faço os desenhos, animação, os movimentos, escolho os áudios. É um ‘trabalhinho’ mas para quem gosta é prazeroso. Rennan e eu que fazemos e, como a gente não se encontra, é de forma remota. Convidamos outras pessoas para fazer dublagens, como a gente está nessa pandemia, o áudio é gravado mesmo no celular. Tiro um pouco de ruído, faço uma filtragem, equalização. Eu vou montando as cenas, mostrando para o Rennan e o Narciso e vamos debatendo. É um trabalho muito braçal, de paciência e ainda está muito em fase de testes. Esse último episódio foi mais rebuscado que outros que fizemos”, explicou.

Por fim, Peu explica que “Os Cães da Praça” tem uma pegada mais adulta, mas pode ser assistida por públicos de todas as idades. Ele recorda de uma história na qual uma bebê, de apenas cinco meses, filha de uma conhecida dos membros do coletivo, ficou entretida assistindo á série. Ele também admite ter o desejo de que a animação tenha alcance cada vez maior e seja vista por cada vez mais pessoas.

“Uma criança de alguns meses que viu e ficou entretida. A mãe contou que a criança estava vendo o desenho e chamou atenção da criança, por causa do desenho colorido. Mas nosso público alvo é mais os adultos mesmo, pelas questões, pelo tema. Nossa vontade é sempre mostrar nosso trabalho e que esse trabalho se amplie cada vez mais. Nós gostamos disso. Seria ótimo se fosse nosso trabalho fixo. Então é o sonho que chegasse a uma televisão, streaming, assim que tivesse uma grande amplitude de pessoas vendo nosso trabalho”, concluiu.

Entre as participações especiais em “Os Cães da Praça” está a da atriz e dubladora Jen Mou. Ela deu vida a uma das personagens após receber convite de Rennan, outro integrante do coletivo. Entre seus trabalhos artísticos, Jen está envolvida com teatro há vários anos e é membro da Escola Técnica de Teatro Martins Penna.

“O Rennan havia comentado sobre a série e achei fantástica! Pedi para me enviar uma palinha e perguntei mais sobre os personagens, sobre as características de cada um, personalidade. Então ele me desafiou a dublar a Pérola. A partir dessa pesquisa enviei algumas opções para ele por áudio, que compartilhou com o restante da equipe e aprovaram”, orgulhou-se.

A animação “Os Cães da Praça” está disponível no YouTube, no canal de mesmo nome da série, produzido e administrado pelo coletivo Moinhos de Vento. Até a publicação desta reportagem, a série estava em seu terceiro episódio: “O Cosmonauta de Mármore”. Por conta da complexidade da produção, ainda não há uma periodicidade definida para a publicação de vídeos. Além de Peu, os produtores Narciso Maurício e Rennan Rebello participam da criação.

Vítor d’Avila

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