Academia Niteroiense de Letras se rejuvenesce para se aproximar da população

A primeira Academia Niteroiense de Letras (ANL)  data de 1931, como descrito no livro de Brígido Tinoco, “O Boi e o Padre”. Porém, a instituição acabou não vingando e renasceria novamente, desta vez de forma definitiva, em 11 de junho de 1943. A solenidade foi realizada na sala onde funcionava o gabinete do diretor do Departamento de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Rubens Falcão, no edifício da Biblioteca do Estado, na Praça da República, no Centro de Niterói.

Na reunião de fundação, 22 participantes estiveram presentes, onde também foi eleita uma diretoria provisória constituída por Myrtharístides de Toledo Piza – presidente; Francisco Pimentel – secretário; e Lealdino Soares de Alcântara – tesoureiro. Mas a solenidade de instalação da ANL aconteceu no dia 27 de abril de 1944, no salão nobre do Instituto de Educação, atual Liceu Nilo Peçanha. De lá pra cá, nomes ilustres da literatura de Niterói tornaram-se imortais.

Hoje a instituição está situada em novo endereço, na Rua Marechal Deodoro, 450, em um comodato com a Prefeitura para utilizar o imóvel, que pertence à Fundação Municipal de Educação e é emprestado para a instituição há anos.  

Na atual gestão, o presidente da ANL, o jornalista Edgard Fonseca, decidiu realizar algumas mudanças. Há um ano e meio no cargo, seu objetivo é trazer gente mais jovem.

“Daqui a pouco seremos o painel da saudade, e não queremos isso. Um critério que eu coloquei quando fui eleito, era que para eu assumir, eu tinha que mudar algumas coisas. Na verdade, acrescentar. A primeira mudança é que hoje se o membro não se fizer presente, poderá deixar a Academia, perdendo o título de imortal. A segunda foi rejuvenescer nossos membros”, diz Edgard.

Edgard Fonseca, presidente da ANL Crédito foto: Rafael Thomas

De acordo com o presidente, a Academia Niteroiense de Letras tinha o padrão das demais do Brasil, como uma instituição fechada, hermética, erudita, e elitista. E a principal mudança foi trazer gente jovem.

“Essa coisa de rejuvenescer a Academia tem dois aspectos: o primeiro podemos dizer que político, porque queremos quebrar um pouco essa coisa da elite, precisamos democratizar mais as Academias, precisamos acabar com essa áurea de supostos deuses da literatura”, disse.

Um dos jovens membros da ANL é o  professor de literatura, produtor cultural e autor de obras como “Doce Maresia”, “Café Quente” e “O Mar do Meu Velho”, Jordão Pablo de Pão, de 34 anos. Para ele, existe um desafio comovente entre as gerações  que só se dá com laços afetivos ou pelo espírito acadêmico.

“Ao fazermos parte de uma Academia de Letras, prestamos certo tributo aos que vieram antes, pavimentando uma entrada de conquistas que começa no reconhecimento da profissão do escritor no fim do século XIX, até a configuração do escritor-espetáculo, esse multiartista que tem que falar com os mais jovens como um popstar, mas também com o público mais experiente com suas opiniões menos flexíveis”, disse Jordão. 

Jordão Pablo de Pão, acadêmico – Crédito foto: Arquivo pessoal

Questionado sobre a fama do brasileiro não ser amante da leitura, Edgard é categórico.

“A falta do prazer pela leitura é muito mais falta de informação, incentivo e estímulo. Nós temos alguns projetos aqui na ANL, principalmente para as escolas de ensino médio. Se eu não informar ao jovem que a literatura é uma coisa boa, pode ser uma família com pouca instrução, será difícil que esses pais transmitam esse prazer para os seus filhos”, disse.

Edgar também esclarece a importância de se agregar as diferentes formas de  linguagens.  De acordo com o presidente, é preciso trazer para a realidade dos jovens nomes literários como Machado de Assis e José de Alencar, mas também não ter o olhar preconceituoso sobre a linguagem da internet, já que ela também é um código de comunicação, embora não seja literatura.

A Academia possui também um papel de contribuição cultural, Jordão nos fala que o local é um centro de referência, com atividades como a abertura da biblioteca à população e palestras.

“A Academia precisa se recolocar no cenário cultural como um espaço de construção coletiva e sincrônica. Não falamos apenas do passado, sendo agentes de um presente real, ajudamos na construção de uma sociedade com mais equidade. Tenho muito respeito pela arte, sobretudo. É possível que o jovem leitor de hoje seja o futuro acadêmico notável. A transformação que a literatura faz é real”, disse Jordão.


No dia 13 de junho, três novos imortais vão tomar posse na ANL: Luiz Antonio Mello, Verônica Martins e a Gabriela Nasser serão empossados como novos membros da Academia Niteroiense de Letras.

Para o jornalista e escritor Luiz Antonio Mello, editor de A TRIBUNA e um dos futuros imortais, o reconhecimento de seu trabalho em sua cidade é uma grande honra.

“Para mim é uma honra enorme ser reconhecido como escritor da minha cidade e espero corresponder ao convite e contribuir de alguma maneira para a evolução da Academia, principalmente na renovação de ideias. As pessoas que conheci possuem pensamentos super-contemporâneos e compromissados com a vanguarda”, disse.

Sobre a fama de brasileiro ler pouco, Luiz Antônio foi cirúrgico.

Luiz Antonio Mello, acadêmico.

“A primeira coisa que poderia ser feita é baixar preço de livro, que deveria ser um bem de consumo de primeira necessidade. O livro tem importância semelhante a do feijão. Não existe problema que os livros não tenha solucionado”, concluiu.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.