A última entrevista com uma ex-escrava

Há 59 anos o Caderno B do “Jornal do Brasil” dedicou a capa e a segunda página para uma histórica entrevista com a, talvez, única escrava ainda viva. Ela passou a significar a “história viva”, como um relato do que viveu na época monárquico, na condição de escrava e as dificuldades dos libertos sofridos na fase republicana, instauradora de uma nova época cruel com mais vítimas e mais algozes da exploração do homem pelo homem.

Negra, alta, de mãos grandes, lúcida e ágil no falar e andar, ela estava com 104, prestes a completar 105 anos de idade quando fez as revelações, andando a pé pela estrada depois batizada como Avenida Kennedy, em Duque de Caxias. Na época a sucursal do “Jornal do Brasil”, sediada em Niterói, fazia a cobertura de todos os municípios do antigo Estado do Rio.

O entrevistador, talvez ainda seja o único repórter vivo que conversou com uma ex-escrava do Estado – onde despontaram muitas lideranças na luta pela Abolição da Escravatura.

Na altura dos seus 104 anos de idade, a lavradora Maria Luiza Nunes foi considerada “Patrimônio do Estado do Rio” ao ser aprovado projeto do deputado-padre João Pedron (PTB), dando-lhe o direito a uma pensão de Cr$ 12.068,00 (menos que um salário mínimo de 1962, quando a entrevista foi realizada, que era de Cr$ 13.440,00) “recompensa pelos seus 96 anos de trabalho na lavoura”.

Ela nunca soube a data correta do seu nascimento. Não havia registro civil, apenas anotações no “Livro dos Escravos” de cada fazendeiro. Explicou que naquele tempo “a gente não podia conversar (…) e se era visto com um lápis na mão, o senhor mandava cortar os dedos, dizendo que só filho de rico podia saber ler e escrever”.

Dona Maria (Maria Pé Grande) disse ter ido para Itaperuna logo após a Abolição, ocorrida a 13 de maio de 1888. Ao se casar com Honório de Oliveira, “talvez em 1890”, informaram que estava com 33 anos de idade. Teve seis filhos.

LIBERDADE SEM HORIZONTE

A eterna lavradora se recorda da Abolição pelos gritos que davam os negros quando chegou a notícia de que estavam livres.

Sem tostão e só com a roupa do corpo foram soltos e ganharam a estrada em busca de emprego ou de um pedaço de terra livre para cultivar. Foi quando começou a trabalhar em outra fazenda de Itaperuna, ganhando cinco tostões por dia.

Contou, também, que “depois da Abolição, fazendeiros aceitavam o trabalho dos negros, oferecendo a metade do lucro da produção de cada um, mas não lhes pagavam nem um centavo e, mesmo assim, os negros tinham de aceitar”.

“A libertção dos escravos não foi aceita por muitos fazendeiros. Alguns se mataram e outros prenderam os escravos por mais três anos”.

TORTURA MEDITADA

Dona Maria Nunes contou que “os jagunços botavam os negros no pau, com os pés e mãos amarrados, e faziam duas picadas na perna, com canivetes longos e em brasa. Depois punham sal e pimenta. Na manhã seguinte, se não tivesse morrido, o escravo era obrigado a trabalhar e, se amolecesse, ia para o tronco dos castigos receber chicotadas”.

Ela viveu 22 anos como escrava e ao se casar, em Itaperuna, para onde foi dois anos após a Abolição, informaram-lhe que estaria com 33 anos de idade, isto é, teria nascido em 1857 e escolheram um dia para constar na certidão: 1º de outubro.

A GRANDE FAMÍLIA

Ela citou os nomes e locais onde, em 1962, residiam seus filhos. A primeira, Enedina com 71 anos (nascida, portanto, em 1891) estava morando em Belford Roxo. Isabel veio dez anos depois passando a morar em Tinguá. Maria foi para Cachoeiro de Itapemirim, teve muitos filhos (“há 30 anos não a vejo”). Honorelino, Jovelino e José já haviam falecido antes da entrevista.

O período de 1900-1954 foi feliz para ela. Viveu tranquilamente em Itaperuna, Coelho da Rocha e há 24 anos na Fazenda Penha-Caixão, cuidando da terra e tratando dos seus animais.

A NOVA EXPLORAÇÃO

Já quase centenária, em 1954 a situação mudou. Teve sua primeira casa incendiada por um grupo de grileiros e a plantação destruída.

“Nos últimos três anos tenho sido vítima da polícia”.

Ela cita que um investigador, conhecido como “Pescoço”, que roubou animais, gêneros e roupas. E mais:

“Recentemente policiais de Caxias apreenderam três burros de minha propriedade e não querem devolvê-los”. Eles tinham sido comprados por Cr$ 4,5 mil, cada, em 1952.

Além disso, disse lutar com “a inveja dos vizinhos que não lhe permitem sequer plantar ou colher para comer”.

Admitindo estar vivendo praticamente na miséria, disse receber apenas Cr$ 200,00 que a Igreja Evangélica lhe dá todo segundo dia do mês.

Sobre a proposta do deputado Paulo Pedron, disse que se receber vai comprar um vestido, remédios, mantimentos e uma passagem para visitar a filha de 71 anos que há mais de 30 anos deixou em Cachoeiro de Itapemirim.

ESCRAVIDÃO E LIBERDADE

Mãe seis vezes e contando com 24 netos, 38 bisnetos e “alguns tataranetos”, ela ensaiou um julgamento histórico aos 104 anos de vida em eras diferentes.

Embora considere “a escravidão como o último estágio para o inferno”, disse não estar arrependida de ter-se livrado das mãos dos senhores das grandes fazendas, para cair, no fim da vida, nas mãos dos “doutores do asfalto” que “querem tomar o último pedaço de terra que comprei e venho cultivando há mais de 24 anos”. Sua maior queixa “não é contra os grileiros que se dizem donos das terras”

Coincidentemente este repórter é integrante da família de Gil Amóra, o orador do ato de libertação dos últimos 117 escravos da cidade de Acarape (depois, Redenção) o que fez o governador sancionar a lei que tornou o Ceará o primeiro Estado a abolir a escravatura, antes da Lei Áurea

Jourdan Amóra

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