A natureza meteu o pé na porta

 Luiz Antonio Mello

O sentimento de desolação, solidão, vazio no peito é natural nesses tempos esquisitos e totalmente anormais de pandemia, quarentena, insegurança em relação a sobrevivência e ao futuro. Aliás, abro parêntesis. O futuro e o tempo são as maiores angústias da espécie humana, mas esse é outro assunto.

Posso até palpitar, dizer que este sentimento é natural, mas normal não é. Normal, dizem os livros, é um estado de ansiedade frequente, mas num nível muito mais baixo; são a vigília, o cuidado, a atenção.

O que muitos de nós (será que podemos falar em maioria?) estamos sentindo é a angústia que despedaça o ser humano quando ele está diante de algo que ameaça a sua vida, principalmente quando esse alguém é um mistério, um enigma, absolutamente invisível.

O que podemos afirmar, com convicção, é que o mundo já passou por inúmeras pandemias e todas elas tiveram início meio e fim. Selecionei três:

Peste Negra – em 1343 a peste bubônica assolou a Europa e Ásia. Matou entre 75 a 200 milhões de pessoas; já em 1918 Gripe Russa matou um milhão de pessoas no Império Russo e chegou até o Rio de Janeiro; Já em 1918, a Gripe Espanhola causou a morte de 20 a 50 milhões de pessoas, entre elas 35 mil brasileiros.

Ao longo do tempo a ciência investiu pesado em tecnologia, carros que andam sozinhos, robôs que fazem praticamente tudo, inteligência artificial que pilota aviões e foguetes, drones que atacam à distância comandados a dezenas de milhares de quilômetros, robôs que fazem tudo, bombas com poder de acabar várias vezes com o planeta Terra. Não podemos esquecer que ir a lua virou passeio e que pisar em Marte está perto. No meio dessa orgia de tecnologia ocoronavírus furou a suposta blindagem e entrou matando.

É como se a natureza com a sua força descomunal tivesse metido o pé na porta e encurralado esse bicho arrogante, desmatador, poluidor, metido a invulnerável, cheio de si, materialista chamado Homem. Em outras palavras, o “quem manda aqui sou eu” foi dado em alto e bom, deixando todos nós sitiados e forçados a rever a vida, os conceitos, as relações. O vírus mata ricos, pobres, remediados, pretos, brancos, indígenas, asiáticos, altos, baixos, de esquerda, direita, centro.

E agora?

Virá um remédio? Sim, com certeza virá, não se sabe quando. Virá uma vacina? Virá, mas também não há data. Depois dessa pandemia estaremos cem por cento curados?

Não.

Não porque a miséria que impera nesse terceiro mundo que habitamos só cresce. Não é normal viver no meio de esgoto, entulhado com outras milhares de pessoas em “comunidades” onde tudo falta. A miséria humana é um conceito muito mais amplo do que se pensa e envolve, também, a crueldade.

Quem anda nessas comunidades prometendo maravilhas em troca de votos, ou de mais fanáticos para as seitas que comandam, é movido pela crueldade. Na fase inicial da Covid-19 lemos sobre religiosos preocupados com o seu faturamento, queriam manter suas igrejas abertas para não perderem a grana do dízimo. Vemos políticos falando bonito, dizendo que estão fazendo isso, fazendo aquilo mas, espera aí? A saúde no Brasil já estava sucateada bem antes do vírus chegar. Quantos escândalos de corrupção, com direito a prisão de larápios que assaltavam também a área de saúde assistimos na operação Lava Jato?

A dinheirama que poderia ter sido investida no que hoje falta (e por isso mata) foi parar em paraísos fiscais da roubalheira obrigando os profissionais de saúde a terem que decidir quem morre e quem vive diante da falta de vagas em UTIs em todo o Brasil. Pior: no meio disso, ainda há quem roube, superfature, assalte se aproveitando do estado de emergência que libera geral. Quantas UTIs a mais o país teria se não fosse a corrupção dos últimos anos? Quantas escolas? Quantos famintos a menos o Brasil teria?

Há semanas, as ruas e avenidas estão desertas. As pessoas, com razão, estão apavoradas porque o inimigo é maior do que até a ficção imaginava. E para agravar, alguns gestores que não tem moral nem para mandar cachorro sentar estão posando de super heróis. Há poucos meses todos nós vimos hospitais do Rio fechados por superlotação em emergências, lambança total.

A pandemia vai passar. Isto é certo. Mas será que vamos aprender as lições?

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