‘A gente tem que deixar o luto de lado para lutar’ diz mãe de João Pedro

A trágica morte do adolescente João Pedro Matos Pinto, então com 14 anos, completa um ano hoje (18). O jovem foi baleado, com um tiro de fuzil, na casa de parentes, durante operação conjunta das polícias Civil e Federal, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, em 18 de maio de 2020. Os pais do menino até hoje cobram respostas. Enquanto isso, três policiais investigados, por suspeita de terem atirado contra o rapaz, seguem atuando normalmente na corporação.

Em entrevista à reportagem de A TRIBUNA, a mãe do jovem, Rafaela Coutinho Matos, de 37 anos, narra como têm sido difíceis os últimos 365 dias, sem a companhia do filho. Ela afirma que, a cada dia que passa, a dor pela perda de João Pedro aumenta cada vez mais. Entretanto, ela ainda consegue reunir forças para lutar por justiça.

“Eu, como mãe, nunca imaginei ficar um dia sem meu filho por perto. Já são 365 dias e essa ausência tem sido difícil. A gente pensa que no início é pior, mas no passar dos dias só aumenta, e essa busca pela justiça só deixa a gente angustiado. A gente tem que deixar o luto de lado para lutar por justiça. Estamos tentando seguir, recomeçar, mas a gente está aí nessa luta”, disse.

Recentemente, Rafaela passou o primeiro Dia das Mães sem João Pedro. Embora ela tenha outra filha, a pequena Rebeca, de 5 anos, a mãe afirma que a data foi um dos piores dias de sua vida. Ela se recorda do último Dia das Mães que passou ao lado de João Pedro. Na data especial, quem acabou presenteado foi o filho, com uma máscara do Fluminense, seu time do coração. Lamentavelmente, ele nunca chegou a usá-la.

“Foi um dos piores dias da minha vida. Ano passado, no Dia das Mães, eu estava com o João e uma semana depois aconteceu esse episódio. Estávamos na casa da minha irmã, e comprei para ele uma máscara do Fluminense, que ele não chegou nem a usar. Lembro que ele só tirou a foto com a máscara, mostrou a alguns amigos. Esse ano foi muito difícil,. eu tenho a Rebeca, mas não substitui, o desejo era que o João ficasse aqui, ficou um vazio muito grande”, emocionou-se.

Pai de João Pedro cobra por justiça – Foto: Arquivo

O pai de João Pedro, Neilton da Costa Pinto, de 41 anos, tem fresco em sua memória o dia da morte do filho. Ele se lembra de cada detalhe do desespero em busca de notícias do jovem, que foi socorrido de helicóptero, sem que os familiares pudessem acompanhar, e encontrado apenas um dia depois, no Instituto Médico Legal (IML). Ele se recorda de ter perguntado aos policiais: “por que balearam meu filho?”

“Foi o pior dia da minha vida. Imagina você, ali na correria, seu filho morto no IML. Quando cheguei lá foi horrível, os policiais lá, outros jovens que estavam sentados com meu filho. Perguntei aos policiais por que balearam meu filho. Depois não me deram mais notícias, vim para casa desesperado, começamos a rodar pelos hospitais. Só fui achá-lo no outro dia, 8h30min, no IML, com um tiro de fuzil. Naquela noite não dormi, passei a noite em claro com minha família, minha esposa. Meu irmão foi ao IML e lá estava o corpo do meu filho. A DH, a CORE, ninguém me informou. Um descaso total. Não sei qual era a intenção deles”, revoltou-se.

Reconstituição

Em 29 de outubro de 2020, foi realizada a reconstituição da morte de João Pedro, procedimento considerado crucial para a investigação. Entretanto, o laudo final não ficou pronto até hoje. Questionada, a Polícia Civil afirmou que “a reprodução simulada do caso foi realizada de forma conjunta entre peritos da instituição e do Ministério Público (MP). Cada equipe ficou encarregada de elaborar um laudo específico. A Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG) aguarda o resultado do exame realizado pelo MP para anexar ao inquérito. Além disso, a Defensoria Pública e o Ministério Público Estadual solicitaram à Polícia Civil de São Paulo uma contra perícia de balística nas armas apreendidas durante a ação. A Polícia Civil do Rio de Janeiro também aguarda este último laudo para a conclusão do procedimento policial.”

Entretanto, a Defensoria Pública contesta a informação de que a contra perícia balística seja fundamental para a elaboração do laudo. Segundo o defensor Daniel Lozoya, responsável por acompanhar a família de João Pedro, om pedido da contra perícia foi feito porque a balística feita no Rio de Janeiro foi inconclusiva, sem especificar de qual fuzil partiu o tiro, mas demonstrando que a bala partiu de fuzil do mesmo tipo usado pelos agentes.

“A gente não tem novidade por conta dessa demora na confecção do laudo da reconstituição, que foi realizada ano passado. A nosso ver é injustificável a demora em concluir o laudo. A Polícia Civil está condicionando a um laudo que na verdade é um pedido de contraprova para realizar um novo exame de balística, já que o resultado aqui no Rio de Janeiro foi inconclusivo. A gente pediu para fazer um novo exame e a polícia está esperando a vinda desse laudo para concluir, e a gente não vê o menor sentido nisso”, afirmou Lozoya. Segundo informações preliminares, a perícia feita em São Paulo também foi inconclusiva.

Enquanto isso, a angústia da família aumenta a cada dia. “Está bem demorado. Teve a reconstituição em outubro e até hoje estamos no aguardo., Não sabemos porque está demorando tanto, se eles estão querendo ganhar tempo. Quando é o Estado que mata demora tanto para dar uma resposta para a família. Vemos outros casos, como o Henry, que já resolveram, e até hoje não temos essa resposta”, disse Rafaela.

Investigação

Tanto a família quando a Defensoria Pública cobram o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) pelo fim do Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp), que era responsável pelo caso. Com isso, o inquérito passou para a promotoria de Niterói e São Gonçalo. Cabe ressaltar que, por a operação ter acontecido em conjunto com a Polícia Federal, o Ministério Público Federal (MPF) também abriu investigação paralela.

“A família está insatisfeita com a demora no andamento, por parte do MP. O caso estava com o Gaesp, que infelizmente foi extinto e agora vai ficar sob a responsabilidade da promotoria de São Gonçalo. É importante cobrar a celeridade da conclusão das investigações. O caso completou um ano e a gente precisa tratá-lo como prioridade, por envolver adolescente, isso é uma determinação legal. Para uma investigação isenta é importante uma participação mais proativa do Ministério Público e mudar a postura da polícia para que tais fatos não se repitam”, cobra o defensor Daniel Lozoya.

O professor Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência (LAV) da UERJ, avalia como preocupante a extinção do Gaesp e aponta para possível falta de continuidade na apuração de casos que estavam no grupo. Ele também criticou a demora na elaboração do laudo da reconstituição.

“No caso de homicídios cometidos por policiais, a reconstituição é a prova mais importante, em que a autoria supostamente é conhecida. O fim do Gaesp foi preocupante, porque o órgão estava dinamizando as mortes provocadas por policiais. O Gaesp tinha a vantagem de que o promotor da área não precisava se expor tanto, o Gaesp fazia esse papel”, explicou.

Por meio de nota, o MPRJ confirma que o “procedimento foi recebido pela 1ª Promotoria de Justiça de Investigação Penal Especializada dos Núcleos Niterói e São Gonçalo e está sendo analisado. Todavia, como são sigilosas as investigações, não será possível fornecer quaisquer outras informações, nem entrevistas, em proveito da própria elucidação dos fatos.”

Policiais seguem atuando

A Polícia Civil confirmou que os agentes Mauro José Gonçalves, Maxwell Gomes Pereira e Fernando de Brito Meister, investigados por supostamente terem feito disparos que vitimaram o jovem, seguem atuando na corporação. A instituição pontua que não há impedimento legal para que eles participem de operações. Daniel Lozoya contesta o fato.

“É um absurdo, falta de bom senso, razoabilidade. É importante lembrar que no caso João Pedro houve irregularidades na cena do crime. Policiais suspeitos, investigados, foram nomeados como fieis depositários, não preservação do local. É absurda a manutenção desses policiais na ativa. Não existe uma ordem judicial ou uma lei que determine que eles sejam automaticamente suspensos das suas atividades, mas não é só uma questão de bom senso o afastamento. Existem recomendações por parte de resolução do conselho de direitos humanos que policiais investigados sejam afastados. Poderiam continuar em atividades administrativas”, ressaltou.

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