A égua de Paquetá

Luiz Antonio Mello

Quando fui a ilha de Paquetá pela primeira vez, não passava de um bronheiro mirim de 12 anos, leitor voraz dos catecismos de Carlos Zéfiro, nutriente básico da borduna ainda em formação.

Senti um mal estar quando saí da barca, um misto de fastio, fome e vontade de vomitar, meio tudo ao mesmo tempo agora. Excursão de colégio e um dos professores gritou “você está amarelo!”. Tentei disfarçar, tentei dissimular e, felizmente, o nó na garganta impediu que eu balbuciasse a mais remota das frases. Provavelmente iria falar besteira.

Depois de arfar muito, saí andando, fingindo que estava tudo bem, o professor perguntou “melhorou?” eu disse que sim e a excursão prosseguiu, mas fiquei para trás. Disse ao professor que precisava descansar, ficar sentado num caixote de “manzanas argentinas” embaixo de uma jaqueira. Ele concordou. “Fique aí, mas não saia para lugar nenhum. Voltamos logo”.

Mormaço quente. Foi quando vi uma égua pastando bem perto. Pangaré, coitada, escrava das charretes que foram abolidas. Pensei em montar, sair pela ilha como um Zorro bem resolvido, mas é lógico que não poderia. Ou poderia?

Josélia disse que sim. Josélia, uma garota mais velha de uns 20 anos, muito morena, magra, cabelos enrolados na altura dos ombros, descalça, vestido de chita desbotado, abaixo dos joelhos, dizia que era filha da dona da égua. Insinuante, perguntou “você quer?”.

Eu ainda estava mal, mas queria. Queria qualquer coisa que Josélia me desse. Qualquer coisa. Até chute na cara. Mas ela não queria me dar, queria alugar. Alugar a égua da mãe. Disse que a sela estava atrás do muro da casa de José Bonifácio, o freio também. Freio da égua, não o meu.

Assim que o pessoal se afastou, Josélia pulou o muro de volta. Muro da casa de José Bonifácio. Vi a sua calcinha, branca, provavelmente de algodão, mas foi só um flash. Montei na égua, mas, desorientado pelos workshops de Zéfiro me fiz de vítima, cara de coitado e pedi para ela ir comigo. E ela foi. Montou na minha garupa e chamou a pangaré pelo nome. Não lembro o nome.

A égua não marchava, só trotava. Delícia. Delícia sentir os peitinhos de Josélia roçando minhas costas, rumo a alvorada de sei lá onde. Eu já não sabia quem era quem; quem era égua, quem era Josélia, quem era eu. Mas sabia que a turma (e os professores) voltariam logo. Foi tudo muito rápido.

Deixei a égua parar embaixo de uma amendoeira, virei e agarrei Josélia. Ela não refugou. Um longo beijo acompanhado de mãozadas mal distribuídas, mas quase na altura do obscuro objeto do meu desejo, Josélia mandou tirar. A mão. Tirei, insisti, tirei, insisti, insisti, insisti, arfando Josélia pulou da égua, levantou o vestido perto da calçada, saltou uma cerca e, do outro lado,  JÁ nua e determinada comandou: “vem”.

Louco, voei da égua, pulei a cerca e ouvi os berros chamando meu nome. Era o professor. Josélia já tinha posto a mão, eu já tinha posto a mão, o mundo girava, mas eu teria que…refugar.

O professor me inquiria como um sargento alemão. Dizia que eu estava com a aparência pior. Dizia que eu precisava ir ao médico. Dizia, dizia, dizia e a turma se fez em grupos. Como um eunuco compulsório, avistei a égua longe. Pastando junto a calçada. Josélia devia estar por ali, como sempre estevetocando siriricas sem parar.

Semanas depois, num sábado, disse em casa que iria a Modern Sound, em Copacabana, comprar discos. Na estação mudei para a barca de Paquetá, onde o tempo não passava e eu latejava alucinado. Latejo que só Josélia dissipou. Uma. Duas. Seis. Setenta vezes. Semanas, meses.

Noite alta, barca de volta, pernas tremendo, paixão vulcânica, até quando eu estaria escravizado por aquela mulher? Em casa, desculpas vãs, levemente imbecis, “isso não se faz, sumir sem avisar”, disseram. Concordei. E me auto exilei no quarto, auge da noite de sábado, lembrando de Josélia que me fez o mais Zéfiro dos Carlos por longos e longos sábados na ilha de Paquetá.

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