A dura batalha contra a dependência química na quarentena

O período da pandemia do coronavírus tem alterado diretamente a rotina de milhões de pessoas em todo o mundo. E quem luta contra a dependência química precisa de ainda mais força para enfrentar esse momento tão difícil. Para vencer a doença, a (re)união, mesmo que virtualmente, tem sido uma aliada fundamental na busca pelo equilíbrio emocional e físico durante a pandemia. Além dos encontros por vídeo, também muitas pessoas estão inovando, e um bom exemplo é o Coletivo Alcoolismo Feminino, que já conta com mais de mil seguidoras.

Os Narcóticos Anônimos (NA), núcleo Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá está oferecendo reuniões virtuais que devem ser previamente agendadas através do telefone (21) 3003-5222. O mesmo acontece com a Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil (JunAAb), que também tem núcleo em Niterói, e que está realizando os encontros online.

“Nas reuniões à distância tenho visto o quanto tem sido importante nos aproximarmos em meio a essas distâncias estabelecidas. Este é o momento de oportunidade única para voltarmos às nossas tradições, através de leitura dos nossos livros e até dos boletins. Cada dia que passa confiamos ainda mais nessa força espiritual que rege o AA e mostra nossa capacidade de superar esses desafios através do amor, dedicação e nossos princípios que regem a irmandade. Tenho certeza que muito em breve estaremos nos encontrando, nos abraçando, alegres, felizes, celebrando o que há de melhor no AA, que é a nossa unidade, força e esperanças”, contou a presidente da JunAAb, Camila Batista Ribeiro de Sene.

Em Niterói um grupo de mulheres alcoolistas criou o Coletivo Alcoolismo Feminino, que tem a intenção de ajudar na criação de uma sensação de pertencimento, assim como o álcool e o embalismo alcoólico prometem, e contribuir como fonte de motivação para a busca de mudança e o possível encontro de alternativas e soluções mais saudáveis para o enfrentamento e manejo dos problemas.

A niteroiense Luciana Lage, de 33 anos, está há cinco anos e quatro meses sem beber e faz parte do Coletivo. Ela percebeu que precisava de ajuda para controlar a vontade de beber após um acidente, quando caiu nas pedras na orla da Boa Viagem em 2014 e ficou gravemente ferida. Mesmo assim, somente em 2015 conseguiu ter forças para entrar na luta diária contra o vício.

“A quarentena tem me proporcionado momentos de altos e baixos. Às vezes fico muito ansiosa, o que resulta em irritabilidade. Tenho buscado ser produtiva, pois aquele ditado ‘cabeça vazia, oficina do diabo’ se adéqua muito a mim. Felizmente não sinto vontade de beber, a manutenção de minha sobriedade continua mesmo à distância, através de sessões de terapia com meu psicólogo por vídeo e reuniões online dos grupos de 12 passos e as do Coletivo, que é exclusivo para mulheres alcoolistas, do qual faço parte”, explicou.

A terapeuta E.S. de 62 anos disse que está sem usar drogas há 18 anos. Ela era usuária de tabaco, álcool, maconha e cocaína.

“Comecei a usar drogas depois de ter curiosidade. Gostei e quando percebi, já estava dependente. Percebo uma progressão nas substâncias e na frequência. Numa dada época, tive problemas emocionais fortes, não busquei ajuda e o uso foi aumentando demais, principalmente do tabaco e álcool. Percebi que estava enlouquecendo, estava trabalhando muito mal, estava me abandonando fisicamente, muitas brigas com marido e filhos. Percebi que eu não conseguia mais controlar o uso e as substâncias haviam me escravizado. A abstinência era terrível e resolvi dar um basta. Fui em busca de ajuda das irmandades de mútua-ajuda, mas antes fiquei internada por um mês, onde aceitei minha doença e me rendi a ela. Voltei a viver com dignidade, saúde e, principalmente, a me respeitar. Estou muito bem. Continuo com apoio dos grupos de irmandades, na terapia e há dois meses no grupo Alcoolismo Feminino. Foi a melhor decisão da minha vida”, comemora.

A psicóloga Claudia Leiria, que é especializada em Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que as pessoas que já frequentavam uma sala de AA ou NA, ficaram muito desassistidos quando começou a pandemia.

“Os grupos começaram a fazer as reuniões online e isso ajudou muito, principalmente para quem reconhece que tem a doença. O nosso coletivo tinha ideia para propor um local de acolhimento para as mulheres, pois muitas vezes, em uma reunião mista, elas não se sentem a vontade para trazer algumas questões. Está sendo muito positivo e uma prova disso é que temos mais de 130 mulheres no grupo”, afirma Claudia

Números

De acordo com dados mais recentes da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), divulgados no ano passado, em 13 anos o uso abusivo de bebida alcoólica aumentou no país, chegando a atingir 17,9% da população adulta. No período, o maior crescimento se deu entre as mulheres. O percentual (11%), porém, continua sendo mais baixo do que o dos homens (26%). Segundo a Vigitel, há preponderância entre homens de 25 a 34 anos (34,2%) e mulheres de 18 a 24 anos (18%). Já entre mulheres com mais de 65 anos, o percentual é de somente 2%, o que representa 5,2% a menos do que em homens da mesma idade (7,2%).

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