A delicada relação professor-aluno

Anderson Carvalho –

Este domingo (15) os professores comemoram o Dia do Professor. Infelizmente, no Brasil, principalmente no Estado do Rio de Janeiro, eles não têm muito o que festejar. Não bastassem os baixos salários, as precárias condições das escolas públicas e até atraso no pagamento de vencimentos, como sofrem professores da rede pública estadual que recebem acima de R$ 3.744, a categoria enfrenta a perda de autoridade diante dos alunos. Estes, muitas vezes, apelam para agressões verbais e físicas. A situação ocorre em estabelecimentos de ensino públicos e privados, sem distinção de classe social.

Que o diga a professora Karine Félix, de 40 anos, que leciona Língua Espanhola. “Há alguns anos, eu fui destratada em duas ocasiões por alunas em colégio particular onde lecionei em área nobre de Niterói. A primeira foi há quinze anos, quando eu flagrei uma aluna colando na prova. Eu disse ‘eu estou vendo você colando’. Então, eu peguei a prova. Ela me xingou e a mandei sair da sala. Ao sair, ela me mandou tomar naquele lugar. Levei o caso à coordenação da escola, que chamou a menina e os pais dela dias depois. O pai dela disse que a filha seria incapaz de xingar um professor, pois fora muito bem educada. Sugeriu que eu devia ter entendido errado. No final, a menina fez nova prova e ficou por isso mesmo. Eu tive que engolir esse sapo”, recordou a mestra.

Hoje, leciona em uma escola privada e no Instituto Cervantes, ambos no Rio.

“Apesar de tudo, gosto de dar aulas. Hoje a nossa classe está desvalorizada e somos apenas objetos. É o mercado. Se a gente não se entende com o mercado, vai embora. Isso é assim se sempre vai acontecer. Com o tempo, aprendi a levar na boa. É preciso haver diálogo sem ser permissivo. Já tive alunos que me fizeram confidências e outros que se inspiraram em mim para seguir carreira. Procuro ser amiga de todos eles”, afirmou Karine, que tem 20 anos de profissão.

Adriana Regina Martins é professora de História da rede pública há 32 anos. Dá aulas na Escola Estadual Doutor Memória, na Rua Noronha Torrezão, no Cubango e em Pendotiba. “Na escola pública me sentia necessária, capaz de fazer a diferença para aqueles jovens. Na realidade continuo achando isso. Se não fosse assim, já teria parado. Estamos vivendo em uma sociedade violenta e intolerante e a escola reflete isso. Se os valores foram relativizados na família, como exigir que jovens e adolescentes tenham respeito por seu mestre, parem para escutar ou falem baixo e de maneira cortês? Creio que muitos nem se importam se estamos ensinando ou não. Querem apenas que cuidemos daqueles serzinhos por quatro ou cinco horas para que seus pais trabalhem ou possam fazer outras coisas”, apontou.

Apesar de tudo, para a mestra, o ofício vale a pena. “Apesar de nos ressentimos da falta de apoio, respeito e valorização, esquecemos tudo quando uma mão se levanta com uma pergunta, quando um bilhetinho nos chega dizendo que somos amados, um pedaço de bolo ou bombom nos é ofertado, um elogio nos é dirigido ou um ex-aluno nos encontra e revela que ele cresceu como ser humano”, contou. “Ser professor é tarefa para os fortes e no nosso dia, gostaria de falar para todos que podiam fazer da escola um lugar melhor, os donos do poder, e não o fazem por que são hediondamente corruptos, que, apesar de vocês, nós continuamos teimando em fazer dessas crianças e jovens seres que pensam”, desabafou Adriana.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 × 5 =