A Covid-19 não podia imitar a gripe espanhola, e sumir de repente?

Luiz Antonio Mello

Depois que a segunda onda letal que ocorreu no final de 1918, novos casos de gripe espanhola desabaram. Quase zero depois do pico da segunda onda.Uma tentativa de explicação para o rápido declínio da letalidade da doença é que os médicos se tornaram mais eficazes na prevenção e tratamento da pneumonia que acometia as vítimas que contraíram o vírus.

Mas o historiador John M. Barry afirmou em seu livro “The Great Influenza: The EpicStoryoftheDeadliestPlague In History”, publicado em 2004, que os pesquisadores não encontraram provas para confirmar essa versão.

Outra teoria diz que o vírus sofreu uma mutação extremamente rápida para uma versão menos mortal. Mas essa explicação também não foi provada até hoje e como eu acredito em milagres peço licença para por mais esse mistério na conta de Deus.

Quem conhece esse fato, o desaparecimento repentino da gripe espanhola, sonha que isso se repita com a Covid-19. Afinal, a voracidade da espanhola, a velocidade da contaminação, enfim, há muitos pontos parecidos.

Os números são estarrecedores. Durante a Primeira Guerra Mundial, os países aliados frequentemente chamaram a pandemia de “gripe espanhola.” Isso ocorreu porque a pandemia recebeu maior atenção da imprensa na Espanha do que no resto do mundo, já que o país não estava envolvido na guerra, e não havia censura.

De janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infectou 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. Estima-se que o número de mortos possa ter passado de 50 milhões, tornando-a uma das epidemias mais mortais da história da humanidade. A gripe espanhola foi a primeira de duas pandemias causadas pelo influenzavirus H1N1, sendo a segunda ocorrida em 2009.

No Brasil, a epidemia chegou em setembro de 1918. O navio inglês “Demerara”, vindo de Lisboa, desembarcou doentes em Recife, Salvador e Rio de Janeiro (então capital federal).

Começaram os primeiros casos por aqui, mas as autoridades brasileiras desdenharam (tipo “é só uma gripezinha”) as notícias vindas da Europa sobre a devastação da doença. O governo brasileiro acreditava-se que o oceano impediria a chegada da gripe.

Começou a morrer muita gente (35 mil, incluindo então presidente eleito, Rodrigues Alves, que nem chegou a tomar posse para seu segundo mandato) e ninguém mais ia para rua com medo. Todo mundo trancado em casa.

Estima-se que, nos últimos três meses de 1918, mais de 600 mil cariocas (dois terços da população à época) adoeceram, 15 mil morreram. O escritor Nelson Rodrigues tinha 6 anos e escreveu em suas memórias:

“A gripe foi justamente a morte sem velório. Morria-se em massa. E foi de repente. De um dia para o outro, todo mundo começou a morrer. Os primeiros ainda foram chorados, velados e floridos. Mas quando a cidade sentiu que era mesmo a peste, ninguém chorou mais, nem velou, nem floriu. O velório seria um luxo insuportável para os outros defuntos… Durante toda a Espanhola, a cidade viveu à sombra dos mortos sem caixão.

Morrer na cama era um privilégio abusivo e aristocrático. O sujeito morria nos lugares mais impróprios, insuspeitados: na varanda, na janela, na calçada, na esquina, no botequim. Normalmente, o agonizante põe-se a imaginar a reação dos parentes, amigos e desafetos. Na Espanhola não havia reação nenhuma. Muitos caíam rente ao meio-fio, com a cara enfiada no ralo.

E ficavam lá, estendidos, não como mortos, mas como bêbados. Ninguém os chorava ninguém. Nem um vira-lata vinha lambê-los. Era como se o cadáver não tivesse nem mãe, nem pai, nem amigo, nem vizinho, nem ao menos inimigo.

A forma de lidar com os corpos era igualmente aterradora. “Vinha o caminhão de limpeza pública, e ia recolhendo e empilhando os defuntos. Mas nem só os mortos eram assim apanhados no caminho. Muitos ainda viviam. Mas nem família, nem coveiros, ninguém tinha paciência. Ia alguém para o portão gritar para a carroça de lixo: ‘Aqui tem um! Aqui tem um!’. E, então, a carroça, ou o caminhão, parava. O cadáver era atirado em cima dos outros. Ninguém chorando ninguém.

Se os próprios familiares não mais tinham ânimo para rituais, os carregadores muito menos. Nem para esperar o desfecho da morte. E o homem da carroça não tinha melindres, nem pudores. Levava doentes ainda estrebuchando. No cemitério, tudo era possível. Os coveiros acabavam de matar, a pau, a picareta, os agonizantes. Nada de túmulos exclusivos. Todo mundo era despejado em buracos, crateras hediondas. Por vezes, a vala era tão superficial que, de repente, um pé florescia na terra, ou emergia uma mão cheia de bichos.

De repente, passou a gripe. Com o fim da gripe as coisas não mais foram as mesmas. A peste deixara nos sobreviventes não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte. Lembro-me de um vizinho perguntando: ‘Quem não morreu na Espanhola?’. E ninguém percebeu que uma cidade morria, que o Rio machadiano estava entre os finados.

Uma outra cidade ia nascer. Logo depois explodiu o Carnaval. A pandemia passou e, no Brasil, o Carnaval de 1920 representou um desafogo e a euforia geral tomou conta da população. E foi um desabamento de usos costumes, valores, pudores. Exatamente como antes”.

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