A conexão Niterói – Cabo Frio, via Arpoador e Saquarema

Foto: o cão Maverick

Luiz Antonio Mello

A prefeitura de Cabo Frio reabriu o Museu Internacional do Surf que é considerado o maior da América Latina e um dos maiores do mundo. Abriga mais de 2.500 peças entre itens decorativos, pranchas de surf, bodyboard, longboard, skate, pôsteres, quadros e outros itens históricos.

O museu foi fundado pelo saudoso Telmo Moraes, morto em 2018, aos 66 anos, em decorrência de um AVC. Ele vivia em Cabo Frio desde 1978 e o seu museu, sem pandemias, recebe anualmente em torno de 200 mil visitantes.

O surfe é hoje um dos esportes de ponta na Região dos Lagos do estado do Rio, uma história que começou lá atrás, no começo dos anos 1960. O então ator Arduino Colasanti (1936-2014), italiano radicado em Jurujuba, Niterói, foi um dos primeiros surfistas domando as ondas do Arpoador, de pé em cima de uma pesada prancha de compensado, com três metros de comprimento, chamada de DC3.

Em Niterói, um grupo de garotos descobriu o chamado mar da Itapuca, aquele belo conjunto de pedras entre Icaraí e o Ingá. As ondas ali são perfeitas e quando o mar está “grosso” começam a quebrar na “Segunda”, ultima pedra de uma sequência que começa na própria Itapuca.

Na ressaca de 1968, a maior da história, a espuma do mar chegou à rua Moreira Cesar, segunda quadra de Icaraí, ondas gigantes quebravam na Ilha dos Cardos para o fascínio dos garotos fissurados que não podiam sequer pisar na areia por causa dos pais e dos Bombeiros, que não deixavam.

Dias depois, com o mar mais quieto, os garotos entraram com suas pranchinhas de madeira feitas em casa para surfe de peito (bodyboard) e os mais ousados com pranchões DC3 de compensados que os primeiros shapers já faziam no Rio.

Logo descobriram o melhor atalho. Entravam pelo “Tapete”, junto a Pedra do Índio, remavam em paralelo até a “Primeira”, depois “Segunda” e de lá surfavam até Icaraí, na altura do Clube de Regatas.

A Itapuca formou vários campeões que no começo da década de 1970 descobriram o mar de Itaúna Saquarema, hoje chamada de “Maracanã do Surfe”. Foi um achado parecido com o de Mavericks, na Califórnia, um dos mais fascinantes, perigosos e afrodisíacos do mundo. O site Surftotal conta que “a letal onda californiana é situada na cidade de Half Moon Bay e é um dos mais icónicos breaks de ondas grandes do mundo. A água fria, o fundo cheio de cavernas rochosas e os tubarões brancos tornam o local um dos mais temidos pela comunidade de surfistas de ondas grandes, mas também um dos mais fascinantes.”

Em 1967, três surfistas locais, Alex Matienzo, Jim Thompson e Dick Knottmeyer batizaram a onda de “Mavericks” em homenagem ao cão de Matienzo, que após ter sido deixado pelos surfistas na costa nadou até ao seu dono juntando-se a eles naquela sessão de surfe. A onda acabou dando nome ao lugar.

Mavericks cria ondas gigantes devido à elevação abrupta do fundo de pedra. O mar sobe e gera monstros que chegam a 21 metros, altura surfada pelo brasileiro Carlos Burle em novembro de 2001.

No começo dos anos 1970, garantem os veteranos, quatro surfistas da Itapuca souberam da existência da “Laje de Itaúna”, em Saquarema. A cidade era uma pequena, bucólica, uma belíssima aldeia de pescadores.

Bem recebidos pelos locais, os surfistas niteroienses chegaram as seis da manhã em Itaúna e não acreditaram no que viram. Manhã de ondas gigantes e perfeitas quebrando atrás da laje. Praticamente não ouviram os avisos dos pescadores de que a região era uma das preferidas pelos temidos tubarões tigre que só perde para o cabeça chata e o branco em quantidade de mortes humanas. Um mês antes, um tigre de sete metros furou uma rede de pesca na Praia da Vila, ali ao lado. Passaram três dias no mar.

Itaúna virou point nacional, mas os quatro surfistas não esperaram para ver a multidão invadir o santuário, voltaram para Itacoatiara e enfrentaram o “mar assassino” que estava entre os mais mortais do país em número de afogados. Até então, a mais cultuada praia da Região Oceânica de Niterói era considerada não surfável, apesar da vocação para ondas grandes.

Foi uma questão de tempo. Dos quatro surfistas, dois ficaram para estudar. Os outros dois não esperaram Itacoatiara superlotar e partiram para a costa do Pacífico da América do Sul. Subiram o Chile, Peru, Equador, trabalhando como garçons, faxineiros, lavadores de carro, dormiam em qualquer lugar abraçados com as pranchas. Um voltou, casado, cheio de filhos e netos, vive e trabalha na Região dos Lagos. Nunca deixou de surfar. O outro virou construtor de pranchas e hoje vive com mulher e filhos em Mauí, a segunda maior ilha do Havaí.

As quilhas de Niterói deixaram suas digitais no mapa do surfe mundial.

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