A caixinha do realejo

Por Luiz Antonio Mello

Durante a semana atravessei a ponte de ônibus, calado, quieto, sentado na janela. Ônibus silencioso, ar condicionado (em algum lugar do passado eles eram chamados de frescões), começo da tarde, e na ponte, mais uma vez contemplei a Serra dos Órgãos onde impera a beleza colossal do Dedo de Deus, símbolo de Teresópolis.

A cidade foi palco de muitos verões felizes da adolescência com a família, amigos que subiam a serra, outros que conheci por lá. Durante muito tempo Teresópolis foi sinônimo de felicidade plena, e hoje representa uma profunda saudade dessa felicidade plena.

Do ônibus, à frente e a esquerda, avisto o prédio do Into que foi a casa do melhor jornal deste país, o saudoso Jornal do Brasil. No começo da profissão, durante vários meses, trabalhei no horário de 5 e meia da manhã na Rádio Jornal do Brasil, Departamento de Radiojornalismo. Acordava a noite e, da ponte, via Niterói e o Rio de Janeiro despertarem com suas primeiras luzes naturais avançando sobre as artificiais que iam se apagando em ritmo descompassado. A Rádio Jornal do Brasil também funcionava no antigo prédio do Jornal do Brasil e eu sentia muito orgulho daquele crachá que carregava no peito.

Algumas vezes saia do trabalho (uma da tarde), almoçava no bandejão do JB e trôpego de sono ia até a Quinta da Boa Vista e me esticava embaixo de uma boa árvore. Lá conheci um sujeito, um homem do realejo e decidi verificar a minha sorte. Ele abriu a gaiola, a musiquinha característica começou a tocar, o periquito saiu, tirou o papelzinho, paguei e saí. Li a minha sorte embaixo de um jambeiro (acho) e estava tudo bem.

Ao longo do tempo, retirei a sorte outras vezes. Afinal, todos os papeizinhos são escritos para nos fazer bem (senão o homem, o realejo e até o periquito iriam a falência) e as mensagens eram sempre positivas e algumas até me banhavam de reconhecimento. Pelo que sei, ninguém vive sem reconhecimento. Nem cachorro suporta ser esculachado 24 horas por dia. De vez em quando um “valeu, Rex!” e um biscoito fazem bem até aos chamados irracionais.

Meu pai trabalhava perto do JB porque sempre trabalhou perto do mar, e um dia me convidou para almoçar, o que era comum. Como ele não me deixava pagar a conta, fomos no Adegão Português onde ele traçou um bacalhau e eu um filé de peixe. Sempre conversávamos compulsivamente e acabei falando do homem do realejo. Meu pai quis conhecer.

Saímos do Adegão e fomos para a Quinta da Boa Vista no super Fuscão do meu pai. O periquito tirou a minha sorte e depois a dele. Meu pai nunca me mostrou a sorte dele e a minha acabei esquecendo no carro. Como era um cara fechadão, muito na dele, não me surpreendi e o assunto “homem do realejo” foi encerrado.

Anos depois, fui a casa dele. Organizado, ele mantinha tudo bem guardado e identificado e sua escrivaninha era um primor. O telefone tocou, ele atendeu e vi, num cantinho, uma pequena caixa de plástico cinza com a etiqueta “realejo”. Ele não viu que eu vi e muito curioso voltei na casa dele no dia seguinte, horário em que ele não estava, para só abrir a caixa.

Cheguei lá, abri a escrivaninha, pus a mão na caixa, mas não tive coragem e indecência de abrir. Imediatamente saí envergonhado e injuriado comigo mesmo já que tinha intimidade suficiente com meu pai para perguntar “que caixa é essa, deixa eu ver?” e no máximo que ele ia responder seria “deixa pra lá, assunto meu”.

Como estou lendo um livro que fala de um homem do realejo, escrevi esse flash da memória. Homenagem a meu pai, a quem dedico e me dedico.

A caixinha cinza dele? Nunca mais vi.

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