A Bicha do Apocalipse

Luiz Antônio Mello

As últimas 14 horas começaram calmas, nubladas, sem que eu ouvisse o rastilho de pólvora aceso. É que não havia rastilho algum apesar de minhas parcas, anêmicas e eventualmente crepusculares intuições.

Em algum covil do passado (redação de jornal) um desafeto, colega que se tornou amigo, escreveu, em um jornalão, em minha homenagem, uma porradaria chupando o primeiro verso de uma canção dos Beatles que diz “há um nevoeiro sobre L.A.”. Na época, eu era conhecido, também, como L.A. e estar envolto em nevoeiro era uma maneira de me chamar de imbecil. Veja você, Alexandre Nunes, leitor número 1 desta coluna aqui em A Tribuna.

Eu escrevia em um tabloide local combativo, metido, ousado, a palavra certa é folgado, e dei uns cacetes num recém-lançado disco do Caetano Veloso, cometendo algumas baixarias juvenis em meu suposto ponto de vista.

O tabloide semanal se chamava LIG e nasceu depois do Jornal de Icaraí, criado pelo nosso Jourdan Amóra (comandante aqui de A Tribuna), o primeiro jornal de bairro de Niterói. O LIG, do saudoso Fernando Marcondes Ferraz, fazia mais a linha de jornal vitrine, mas ainda assim eu sentava a vara.

O desafeto, que se tornou desafeto quando terminou o tal artigo, disse que eu estava envolto em uma neblina de ignorância e imbecilidade porque o disco do Caetano era genial, banalizando ainda esse conceito que anda tão chulo aqui nos trópicos de baixo. Peraí, achava e acho Caetano um gênio.

Eu estava num ponto de ônibus quando um fofoqueiro (Mottinha, o Lady Koo) passou de bicicleta e gritou “LAM, viu que te meteram a porrada no…….(nome do jornal) hoje?”

Claro, fui até a banca, comprei e li a porradaria de cima a baixo. O cara não assinou, pôs só as iniciais, e, querem saber? Eu já estava meio arrependido de ter escrito o que escrevi sobre o disco porque estava naquelas fases de incoerência aguda que, diz a lenda, acomete muita gente.

Fingi que havia ignorado o esbofeteamento público, fingi estar civilizado, adestrado, fingi para mim mesmo que me comportaria como um lorde britânico fumando um morrão de skunk em Trenchtown, atracado com uma das locais sinuosas e mornas, como 90% das locais de lá. Aaaahhh, Jamaica. Aaaaahhh, Jamaica, quanta saudade. Pena que não te conheço.

A falta de sorte do missivista travestido de jornalista é que eu estava começando a trabalhar no Pasquim, o jornal mais valente, louco, absurdo, engraçado, lúcido e implacável do país.

Dias depois, esperava o ônibus. De novo. Roteiro tradicional: ônibus – barca – ônibus – Rua Saint Roman, Copacabana. O Pasquim ficava lá, uma casa enorme, linda, no morro do Pavãozinho.

Dois andares. No andar de cima estava Jaguar e seu indefectível mau humor, num salão cheio de pranchetas, papéis no chão, coisas penduradas em luminárias montanhas de livros espalhados, copos de café derramados.

Ele desenhava o primeiro cartum do personagem “A bicha do apocalipse” que, temporariamente, iria suceder o “Gastão, o vomitador” que a polícia política havia degolado.

Não tinha a menor intimidade com Jaguar, Ziraldo, Ivan Lessa. Paulo Francis, na época, era um ovni para mim e para eles eu não passava de um cabeludo magro cuja existência não tinha a menor importância.

Havia um outro cara cuja função, achava, era levar esporro. Foi com ele que comentei que “eu adoraria ser o Jaguar e desenhar uma “bicha do apocalipse” para um sujeito que me sacaneou em Niterói”. E contei a história.

Levamos um susto quando ele, Jaguar, sem tirar os olhos da prancheta ordenou “me dá o nome do filho da puta porque eu preciso aquecer.” Eu disse, sem entender nada e fui escrever o que tinha que escrever.

A saudosa Dona Nelma Quadros, secretária, mãe de santo, amiga, ombro amigo, boa pra cacete, me chamou depois do almoço e disse “Jaguar deixou para você. Ele foi para casa dormir e volta a noite”. Era um cartum:

“Eu, Maria da Grória, segurar no seu bilú? Nunca! Eu gosto de jogar peteca, neném. Afinal eu sou … (nome do cara que escreveu que havia um nevoeiro sobre L.A.), a bicha do apocalipse.”

Os traços rudes e primitivos do Jaguar fizeram daquela mensagem um tiro de AK 47. Mortal.

Dona Nelma, “olha, ele não assinou o desenho e disse para você não dizer que é dele para não se complicar. Você não se complicar e não ele, entendeu?”.

Entendi.

Na noite/madrugada de fechamento do tabloide, o editor saiu para beber e não voltou. Discutiu com uma mulher na Leiteria Brasil e acabou se embebedando no Snoopy, onde quase caiu no mar.

O dono do jornal ligou, passava da meia-noite, e Lady Tesão (uma dama que cuidava da área comercial) disse alô e em seguida “ele está sim”.

– Pra você.

“Magrão, você vai fechar o jornal hoje, tá? Fulano passou mal. Capricha e qualquer coisa me liga.”

Caprichei. Pus a bicha do apocalipse na capa e deixei a carta de demissão em cima da mesa do Fernando.

O que eu não previa:

1 – o jornal foi o maior sucesso.

2 – o editor se demitiu porque foi morar em São Tomé das Letras com a mulher do bate boca na Leiteria Brasil.

3 – o dono do jornal me convidou e aceitei ser o editor.

4 – o homenageado, o cara do nevoeiro em L.A., tentou fingir que não viu mas pregaram a capa do tabloide no mural da redação do jornal onde trabalhava.

E assim cavalga a humanidade, ao som de Boomerang Blues.

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