A água vai secar em Niterói, São Gonçalo e arredores?

Se você mora em Niterói (e arredores) ainda dá para abrir a torneira e beber água que não fede, não é marrom e não tem gosto de terra (na melhor das hipóteses), como ocorre com muitos outros fluminenses (que não gostam de ser chamados de fluminenses) e que vivem do outro lado da ponte.

Como a água por aqui é distribuída pela empresa Águas de Niterói, que monitora a qualidade 24 horas por dia, podemos ficar mais tranquilos. Entre as áreas monitoradas estão os dois pontos de entrada da água na cidade, de onde ela é redistribuída para residências e estabelecimentos comerciais. Ao todo, Niterói conta com 88.546 ligações de água que atendem a 209.651 imóveis.

Mesmo que a água venha da Cedae, mamute estatal inchado, depósito de marajás que dormem sobre seus ofensivos contracheques de vários dígitos.

Como se sabe, a nossa água não vem do Guandu, mas do chamado sistema Imunana-Laranjal. Nasce nos rios Macacu e Guapiaçu, perto de Nova Friburgo, e é tratada em Laranjal, São Gonçalo, onde diz o humor dos moradores, urubu arranca pena a bicadas de tanto calor.

Mas as torneiras podem fechar num futuro próximo. Com a região metropolitana inchando, inchando, inchando e, logicamente, com o consumo de água aumentando, há previsão, sim, de colapso hídrico, a popular falta d’água em Niterói e arredores. A velha conta: mais gente para beber, menos água para fornecer.

Os planos para o aumento do fornecimento existem porque não Brasil existe plano para tudo, mas a própria Agencia Nacional de Águas, ANA (haja cabide de empregos) confessa em seu site e quase cita Roberto Carlos: “para além do horizonte de planejamento (grifo nosso) do ATLAS (banco de dados), existe previsão para a implantação de obras visando o aumento da oferta hídrica, envolvendo a construção de duas barragens (uma no rio Duas Barras e outra no rio Tanguá) e a transferência de 1,6 m³/s do rio Caceribu para o canal do Imunana em primeira etapa e de 3,0 m³/s após a construção da barragem de Tanguá”.

Quando um órgão do governo confessa que a previsão de fazer alguma coisa é “para além do horizonte…” é sinal de que deu p.t., perda total. Ou seja, vão começar a resolver quando as torneiras secarem e o povo ficar de joelhos na BR-101, exibindo bacias vazias.

O que aconteceu com o Guandu pode, sim, acontecer com Imunana – Laranjal. Guandu nunca foi flor que se cheire. Nos anos 1960 foi palco da “operação mata mendigos”, uma “faxina social” que fazia a população de rua “desaparecer”. Pelo menos 13 corpos foram achados no rio Guandu e aí veio o escândalo. Virou filme, “Topografia de um desnudo”. Neste link, uma reportagem a respeito: https://bit.ly/389EY9u . No Google é só digitar operação mata mendigos e aparece tudo.

O manancial do Guandu recebe o equivalente a 25 piscinas olímpicas de esgoto ‘in natura’ por dia e desde o dia 1 de janeiro, milhares de cariocas bebem água misturada a uma tal de geosmina. Os governos permitiram que o entorno do Guandu fosse ocupado por construções irregulares que despejam de tudo e mais um pouco na vasta área.

Soma-se a isso o desleixo da Cedae, galinheiro daquele pastor Everaldo. Há outros tipos de esgoto, até químicos, porque as graves questões ambientais do Estado do Rio (e do Brasil) sempre foram levadas nas coxas e no descrédito. Nos anos 60, 70 e até 80, ecologia era tratada como “coisa de mariquinhas desocupados”, mas muita gente sabia que a canoa ia virar. E virou. A natureza mandou os seus garçons trazerem a conta. Perdoem a metáfora.

Se vacilarem com a grande área em torno dos rios Macacu e Guapiaçu vem mais lambança por aí.

P.S. – uma matéria sobre a música dos anos 80 que até hoje é sucesso no Brasil. Clique aqui e ouça:

E-mail desta coluna: luizantoniomello@protonmail.com

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