50 ANOS DE JORNALISMO

Começo com duas frases de Millor Fernandes (1923-2021): “Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”; “Nunca existiu, existe ou existirá jornalismo imparcial”.

Neste 2022 completo 50 anos de jornalismo, que comecei aqui no JORNAL DE ICARAÍ, filho de A TRIBUNA, o primeiro jornal de bairro de Niterói.

A sede era na Ponta D´Areia, ao lado do estaleiro MacLaren, onde fui levar um artigo sobre um filme que estávamos fazendo no Abel. O editor do Jornal de Icaraí era o saudoso Mário Dias que leu meu artigo, me convidou para colaborar e nunca mais deixei as redações, e nem as redações me deixaram.

Na sequência, como repórter de uma rádio popular (Tupi AM) que era líder de audiência naquela época, aprendi muito a apurar na difícil área de polícia. Vi cenas impressionantes na redação daquela rádio. Impressionantes e bizarras. A censura funcionava a todo vapor e nas reportagens de rua (eu passava seis horas por dia nelas, nos carros da rádio) não podíamos descreve detalhes da miséria de um local para não ofender o “milagre brasileiro”.

Certa vez fui fazer uma matéria numa favela que virou a Maré e a ideia era atravessar as pinguelas nas palafitas e conversar dentro do barraco quase flutuante de uma família com oito pessoas e uma enorme porca, deitada na sala.

Ia dar uma boa matéria, mas a redação passou um rádio informando que os caras da censura tinham recomendado “narrativa com discrição”, ou seja, sem muita realidade. Comecei a falar, não disse nada sobre palafitas, do esgoto, falei da família por alto, da porca com humor, de como viver dentro de um brejo. Mesmo assim a rádio tomou uma advertência do governo (isso era grave) por causa da menção a porca.

Depois fui para outras mídias, rádios (como jornalista) como a grande e saudosa Rádio Jornal do Brasil, jornais alternativos como Pasquim e Opinião, do Fernando Gasparian (ultra esquerda, pela primeira vez trabalhei com um censor da polícia na redação), Caderno B do Jornal do Brasil já percebendo que em todos esses ambientes todo mundo era de esquerda.

Aqueles mestres ensinaram a várias gerações a praticar reportagens imparciais, mas o jornalismo imparcial não existia. Eles mesmo escreviam artigos sentando o pau, disparando opiniões, pontos de vista, tudo o que nós, repórteres, não podíamos fazer sob pena de demissão. Um deles reuniu uns quatro ou cinco novatos e nos disse “um dia vocês vão aprender a bater, como bater, em quem bater, mas por enquanto vocês estão colhendo notícias.”

Eu não sabia que iria me transformar num batedor até começar a trabalhar no Pasquim, vendo Ivan Lessa, Ziraldo, Jaguar, Paulo Francis, Millor Fernandes incendiando o mundo no salão do segundo andar onde resolviam como seria o jornal da semana.

Eu só tinha ido lá para sugerir uma pauta sobre uma canalhice que o então Chagas Freitas fez e queria dar a minha opinião. Ziraldo respondeu “vai lá, senta o pau, mas tem que ser agora por causa do fechamento”. Sentei na máquina de “dona” Nelma, saudosíssima secretária do jornal, irmã de todo mundo e me vi cuspindo fogo, num artigo intitulado “Chagalhagem”.

Pelo que testemunhei, senti, observei e aprendi, ”Jornalismo é oposição; o resto é armazém de secos e molhados”, como disse o Millor. Uma coisa é você ler uma pancada com a elegância e sapiência de Elio Gaspari, mas na página seguinte é duro ler ataque de pelancas de imbecis desqualificados e exibidos que ostentam por aí. Mas isso é outro assunto.

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