446 anos de sangue, suor e flechas

Luiz Antonio Mello

Niterói poderia ser simbolizada por uma índia, olhos levemente puxados como os de Arariboia, linda, charmosa, malemolente como Bentinho disse que Capitu era. Até aí, tudo bem. Mas com o passar do tempo a História teve que se render a característica mais forte dessa índia cidade: os fios desencapados, o pavio curto, a fúria, o escreveu não leu o pau comeu.

O saudoso professor Luiz Carlos Lessa, autor de “Arariboia, o Cobra da Tempestade” conta que o nosso herói temiminó, invocado, vaidoso, altivo Arariboia, estava tranquilo, com o boi na sombra, vivendo ali na Ilha do Governador, onde nasceu. Até quem em 1555 os tamoios, aliados dos franceses, invadiram a ilha e expulsaram todo mundo.

Indignado, cuspindo fogo, humilhado, ele e sua tribo tiveram que se exilar no Espírito Santo. Calado, quieto, ouvindo as matas, o mar, tentando digerir a derrota para os tamoios, ele recebeu a visita de Estácio de Sá, sobrinho do governador do Brasil, Mém de Sá, o esquisitão. Ele foi tentar convencer que Arariboia e sua tribo voltassem para o Rio para ajudar os portugueses a expulsar os franceses que dançavam cancã de euforia. Mais tarde Estácio morreu depois que foi atingido por uma flecha envenenada nas imediações do, hoje, Outeiro da Glória.

Foi uma longa conversa que durou a noite toda. O cacique não queria mais saber de luta. “Índio não se mete em guerra de branco. Português peleje com francês”, teria dito, firme, o cacique, de acordo com o livro de Luiz Carlos Lessa. Estácio de Sá argumentou que não era assim que os tamoios pensavam, já que estavam apoiando os franceses. O narra que aos poucos Estácio foi inflando o orgulho de Arariboia que, enfim, aceitou a missão.

É neste ponto que gira uma intensa polêmica em torno do posicionamento do temiminó. Hoje, seus críticos o acusam de traidor da causa indígena, que se vendeu aos portugueses, assunto que gera intensa discussão.

Ágil, guerreiro exímio, como um carcará Arariboia pegou, matou, comeu, expulsou franceses e tamoios e devolveu o Rio para os portugueses. Para manter a segurança na Baía de Guanabara, Estácio de Sá insistiu a Arariboia para não voltar para o Espírito Santo e o concedeu-lhe o poder de escolher qualquer uma das regiões da Guanabara para viver.

Sem titubear, o cacique tupi apontou para o outro lado da baía e disse que queria aquela região de “águas escondidas”, que, em tupi, é “Niterói”. O local era conhecido como “Band’Além” e foi para lá que Arariboia levou sua tribo, para a vila de “São Lourenço do Índios”. O Dicionário Aurélio relata que a região onde foi fundada a cidade era habitada, na época, pelos índios cariis e como monumento de fundação, foi construída a Igreja, até hoje considerada como marco histórico da cidade.

Na mesma época, um francês chamado Martin Paris, que havia traído seus compatriotas e ajudado os portugueses, recebeu como recompensa uma área que é hoje a região do bairro de São Francisco.

Mem de Sá enrolou para cumprir a promessa por isso há várias versões sobre a reação do cacique. Uma delas que teria sido um quase pé na porta no gabinete do governador com uma borduna na mão exigindo que Portugal honrasse o acordo. Outra versão fala que ele suportou a longa espera.

Na cerimônia oficial de posse (finalmente) Arariboia sentou-se de tanga cruzando as pernas, o que irritou o governador (não existia cueca) que o repreendeu. Arariboia rebateu: “Minhas pernas estão cansadas de tanto lutar pelo seu Rei, por isto eu as cruzo ao sentar-me, se assim o incomodo, não mais virei aqui!”

O já idoso cacique voltou, então, para a sesmaria de Niterói, e nunca mais pisou no Rio de Janeiro. Arariboia morreu em 1589, vitimado por uma epidemia (possivelmente, varíola) que devastou a aldeia de São Lourenço, mas a causa de sua morte é confusa.

Fala-se, muito, que ele estava profundamente deprimido, arrependido de ter matado muitos irmãos índios, os tamoios, ao lutar ao lado de Portugal, mas a versão de morte “natural” é a mais difundida. A propósito, só uma pergunta: as escolas públicas de Niterói ensinam Arariboia as crianças?

Niterói celebra 446 anos inquieta como sempre. O niteroiense típico herdou dos temiminós alguns rituais como, por exemplo, virar noites bater papo, viajar, exigir e “degolar” mentirosos e empulhadores, principalmente nas urnas eleitorais.

Você anda pelo mundo e se alguém te pergunta a hora na Costa dos Esqueletos, na Namíbia, com certeza é de Niterói. Ou, de Minas Gerais, mas isso é outra conversa.

lamtribunarj@outlook.com

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