2020 provou que nem todo herói usa capa

Alan Bittencourt

Herói e heroína. No dicionário da Língua Portuguesa, significam “pessoa de grande coragem ou autora de grandes feitos. Aquele ou aquela que se distingue por seu valor ou por suas ações extraordinárias, pelo seu caráter magnânimo, por comportamentos altruístas”. Em 2020, uma nova definição para essas duas palavras surgiu: profissionais de saúde. Em todo o planeta, mulheres e homens enfrentaram o medo para cuidar dos seres humanos. O mundo foi varrido pelo coronavírus e esses guerreiros viram a fúria da pandemia de Covid-19 na linha de frente. E eles guerrearam com medo mesmo. Salvaram muitas vidas, perderam outras. Choraram, estão exaustos física e mentalmente, mas viram o tão sonhado reconhecimento profissional surgir. E continuam lá, dia após dia, honrando suas profissões e dando um sentido mais profundo às relações humanas.

Em Niterói, a luta contra a Covid-19 foi e continua sendo árdua. Desde que a pandemia foi decretada no Brasil, em março, casos e mais casos se acumulam. E a segunda onda veio mais forte que a primeira.

“No começo da pandemia, foi um grande número de casos ao mesmo tempo. Em agosto, tivemos queda de casos na sala laranja do CTI. Mas no final de setembro explodiram casos piores, mais graves que os da primeira onda”, afirmou Giselle Terra, técnica de enfermagem do Hospital Municipal Carlos Tortelly.

Para a enfermeira emergencista Camila Rocha, que trabalha na mesma unidade de saúde, o início da pandemia foi um grande desafio, pois se sabia muito pouco da doença.

“Era tudo muito novo. A gente não sabia como lidar, apesar de todo o nosso preparo. Achávamos que não chegaria ao Brasil. A rotina mudou muito. Sou mãe e minha filha fica com a minha mãe, que é do grupo de risco. Eu contraí Covid e o medo não passou. O vírus está vindo muito mais agressivo nessa segunda onda e muita gente não está acreditando. Em 10 anos de formada nunca evoluí tantos óbitos”, afirmou.

A dificuldade em lidar com uma nova doença também citada pela técnica de enfermagem Tatiane Grana. Para ela, a sensação era de impotência diante do desconhecido.

“No início foi muito difícil e triste lidar. A sensação eras de não estar preparada. Quando estamos diante de uma doença conhecida, qualquer dúvida vamos aos livros. Mas a Covid é uma doença sem histórico. Infelizmente, apreendemos perdendo vidas”, disse.

O dia a dia dos profissionais de saúde que atuam no combate à pandemia é extenuante. Porém, as guerreiras e guerreiros não fogem da batalha pela vida dos pacientes.

“Estamos com exaustão física e mental, mas estamos fazendo a diferença. Nos sentimos heróis de verdade. Além do atendimento profissional, procuramos levar conforto e esperança aos doentes, damos um cuidado emocional. Ofertamos carinho, demonstramos emoção, eles precisam saber que não estão sozinhos. Essa situação nos leva ao limite, porém é gratificante ver quem estava entre a vida e a morte vencer a doença”, declarou Giselle.

A segunda onda da pandemia assustou o mundo todo. Muitos trabalhadores da saúde contraíram a doença, aumentando o desgaste físico e mental. Porém, a recuperação dos pacientes é motivo de grande orgulho.

“Estamos cansados. Isso reflete no desempenho de alguns profissionais, o que é normal. De setembro para cá foi assustador com a reinfecção. Mas tivemos momentos felizes com a alta de quem estava quase perdido. E cada alta é comemorada. As imagens de aplausos foram usadas politicamente, porém nossa comemoração é genuína”, disse o médico Daniel Falcone, que enfrenta o coronavírus diretamente no Carlos Tortelly.

De acordo com Falcone, nenhum profissional da área entre na pandemia e permanece o mesmo.

“Quando se está na linha de frente é diferente. Muitas vezes estamos protegidos dentro dos conhecimentos científicos. Entretanto, a pandemia nos trouxe a incerteza. Observamos a importância de uma medicina mais próxima do paciente”, disse.

O médico destaca também o atendimento humanizado nos hospitais.

“O princípio que nos leva à profissão é o altruísmo. Na pandemia, esse sentimento gerou uma proporção maior. A gente ajuda na recuperação dos pacientes. Geramos afetos pelas famílias e elas por nós, tanto as que tiveram parentes com alta como as que perderam seus entes queridos”, afirmou.

O cuidado mais próximo com o paciente tocou estes profissionais de forma definitiva.

“Temos que procurar a paz para acalmá-los, diferenciar se o que estão sentindo é ansiedade ou se realmente há algum problema. Eu me tornei uma profissional melhor, um ser humano melhor”, afirmou Giselle Terra.

O que os heróis da Saúde desejam é um reconhecimento verdadeiro, que continue após a pandemia passar.

“Espero que em 2021 a gente seja visto com mais valor. Enfrentamos plantões de 24h, nos paramentamos por completo para dar o nosso melhor. Quando há altas, a gente chora, é de arrepiar. É gratificante ver a vitória da vida”, disse Camila Rocha.

Para Tatiana Grana, esse reconhecimento ao trabalho incansável é passageiro.

“Somos a ponta do combate. Mas esse reconhecimento nem sempre acontece. Mas eu busco, na verdade, é o reconhecimento de Deus de que estou fazendo o meu melhor por aquela pessoa. Minha consciência está leve”, disse.

Daniel Falcone sente-se privilegiado por poder participar dessa guerra contra o coronavírus.

“Fico emocionado quando eu falo. Trabalhar no combate à pandemia é o cumprimento de um propósito, um chamado que recebi. Através do profissional estou participando de algo pessoal que dá sentido à vida. É uma plenitude de sentimento, fica até difícil de me expressar”, afirmou.

Neste cenário de guerra contra um inimigo invisível, o combate só poderia ser feito por estes verdadeiros anjos sem asas. Sem asas, mas com muita dedicação, muito amor à profissão que exercem e, sobretudo, com muito respeito por cada vida que estão em suas mãos

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