Sistema carcerário brasileiro é tema de peça no Teatro Popular

Neste mês de agosto, o Teatro Popular Oscar Niemeyer abre suas cortinas para o espetáculo “Barrela” (1958), do dramaturgo Plínio Marcos, nos dias 12, 18, 19 e 25 de agosto, sábados e domingos às 19h. Produzido pelo Coletivo Bichos de Teatro, com direção de Andréa Terra, a peça, que denuncia o ambiente hostil do sistema carcerário brasileiro, foi censurada por 21 anos, por expor uma realidade que já se mostrava urgente – e incomoda -há 60 anos.

No sistema carcerário brasileiro, presidiários criam estratégias de sobrevivência enquanto a violência ameaça a própria existência das “barras de ferro”. A montagem em um ato, ambientada em uma cela de cadeia, pretende impactar o olhar do espectador sobre indivíduos marginais em situações aviltantes, não como uma cópia caricata da realidade brasileira, mas antes como uma reflexão deste cenário periférico, incitando representações sobre o real.

O texto foi inspirado num caso verídico, como explica o próprio autor. “Houve um caso, em Santos, que me chocou profundamente: um garoto foi preso por uma besteira e, na cadeia, foi currado. Quando saiu, dois dias depois, matou quatro dos caras que estavam com ele na cela. Fiquei tão chocado com esse negócio todo, que escrevi a Barrela. O caso do garoto me comoveu tanto, que eu, depois de andar uns tempos atormentado com a história, a despejei no papel”, contou Plínio Marcos.

Encenada pela primeira vez em 1º de novembro de 1959, no palco do Centro Português de Santos, “Barrela” foi escrita em forma de diálogo, sem nenhuma preocupação com os erros de português, nem com as palavras. O autor imaginou o que se passara no xadrez antes, durante e depois de o garoto entrar, coisas que ele conhecia bem de tanto escutar histórias na boca da malandragem. “Barrela” é a borra que sobra do sabão de cinzas, que, na época, era a gíria que se usava para curra.

É urgente trazermos esses textos aos palcos quando ainda nos vemos, enquanto sociedade, demandando estruturas vocacionadas para o controle, vigilância e coerção. É urgente lançarmos luz ao íntimo sentimento de uma parte da sociedade, segundo a qual, “lugar de bandido é na cadeia”. E o teatro, em sua função social, dispõe dos instrumentos para apontar os mecanismos através dos quais o sistema opera.

Nascido em Santos, em 1935, em família modesta, Plínio Marcos não gostava de estudar e terminou apenas o curso primário. Foi funileiro, quis ser jogador de futebol, mas foram as incursões ao mundo do circo, desde os 17 anos, que definiram seus caminhos. Em 1958, por influência da escritora e jornalista Pagu, começou a se envolver com teatro amador em Santos. Nesse mesmo ano, escreveu sua primeira peça teatral, Barrela. Em 1960, com 25 anos, foi para São Paulo, onde inicialmente trabalhou como camelô. Depois, trabalhou em teatro, como ator, administrador e faz-tudo, em grupos como o Arena e a companhia de Cacilda Becker. Durante o movimento do cinema marginal, o diretor Braz Chediak adaptou duas de suas peças, “A Navalha na Carne” (1969) e “Dois Perdidos numa Noite Suja” (1970).

Além de escrever mais de 30 peças, entre adulto e infantil, e 20 livros, Plínio Marcos foi colunista do Última Hora, Diário da Noite, Folha de S.Paulo, Folha da Tarde, Diário do Povo (Campinas), e também na revista Veja, além de colaborar com diversas publicações, como Opinião, O Pasquim, Versus, Placar e outras. Plínio Marcos faleceu em São Paulo, em 1999.

O Coletivo Bichos de Teatro é um centro de pesquisa em artes cênicas, uma sociedade artística – formada por atores, produtores e pesquisadores – que prima por fomentar a cultura e desenvolver ações sustentáveis em arte, atuando há 03 anos, com sede no município de Niterói. O coletivo é composto por artistas envolvidos em causas sociais e debatedores de questões urgentes à nossa sociedade: direitos civis, questões relativas a gênero, discriminações a todos os tipos de minorias, a militância negra, a violência contra a mulher e outros.

A peça será apresentada nos dias 12, 18, 19 e 25 de agosto, sábados e domingos às 19h. A classificação etária é 16 anos e a duração é de 70 minutos. Os ingressos custam R$ 40 e o Teatro Popular Oscar Niemeyer fica na Rua Jornalista Coelho Neto, s/n no Centro. Mais informações pelo telefone (21) 2613-2613.

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