Propina para garantir obras de saneamento

Wellington Serrano –

O delator Renato Medeiros, que foi diretor regional da Odebrecht, declarou que a empresa deu dinheiro para campanhas eleitorais em Itaboraí e Rio das Ostras. Em troca, a Odebrecht recebeu apoio para a privatização do sistema de saneamento de alguns municípios. Muitas dessas obras, no entanto, nunca saíram do papel.

Em Itaboraí, segundo o delator, a tentativa de concessão do serviço não deu certo, mas a empresa chegou a dar dinheiro ao deputado federal Eduardo Cunha em busca de uma negociação. Conforme matérias anteriores de A TRIBUNA na cidade, menos da metade das casas está conectada à rede de esgoto.

Nos 92 municípios do estado do Rio de Janeiro, a rede de saneamento básico alcança uma média de 78,6% dos domicílios urbanos, segundo o IBGE. Mas, entre as cidades que ficam abaixo da média, estão Rio das Ostras, com 29,4%, e Itaboraí, com 40,9% dos domicílios com esgoto.
Os ex-prefeitos dessas cidades foram citados na delação de dois ex-executivos da Odebrecht. Eles contaram, em depoimento, que Alcebíades Sabino dos Santos, que era prefeito de Rio das Ostras, e Helil Cardozo, de Itaboraí, receberam vantagens indevidas diretamente ou através de seus partidos, pagas pela empreiteira, em troca de obras de saneamento básico que seriam feitas nos municípios.

Apesar de promessas, os projetos não saíram do papel. Em Itaboraí, um valão corta uma boa parte da cidade. Há cerca de cinco anos, o então prefeito Helil Cardozo reuniu os moradores do bairro de Ampliação para apresentar um projeto que ia acabar com o valão, com o esgoto que cai e com o lixo acumulado. Mas a equipe de reportagem constatou que absolutamente nada foi feito.

APADRINHADO
Helil era um afilhado político de Eduardo Cunha. “Nesse período em que estive como diretor regional, Eduardo Cunha procurou Fernando Cunha Reis, que era meu superior hierárquico, porque tinha relações políticas com ele e reportou ao Fernando que o prefeito de Itaboraí tinha interesse de privatizar o saneamento no município (…) No final de junho, recebi uma orientação do meu superior hierárquico, Fernando Reis, que ele havia recebido uma solicitação de doação de campanha, para campanha de deputado do Eduardo Cunha, de R$ 300 mil. Esse pagamento seria feito via caixa 2 (…) Encontrei esse pagamento, ele aparece com o codinome Calota e teria sido feito no final de julho”, diz o delator, em depoimento.

Rio das Ostras
Em Rio das Ostras, o delator Renato Medeiros disse que a empreiteira conseguiu fechar um contrato depois de dar dinheiro ao partido do prefeito, o PSC.

“A PPP [parceria público-privada] de Rio das Ostras é um contrato antigo da Odebrecht, se iniciou em 2007, 2006 foi licitação, 2007 começou o contrato. Essa licitação primeiro tinha uma fase de construção de 2 anos, depois 15 anos de operação. Em abril de 2013, o prefeito era o Alcebíades Sabino dos Santos, do PSC. Ele tinha um discurso contrário à PPP e tinha antes da minha chegada feito algumas ações despropositadas com a intenção de ser contra a PPP. Levei esse tema a Fernando Cunha Reis, meu superior hierárquico, que identificou na presidência do PSC uma liderança que pudesse influenciar positivamente. Fernando definiu e determinou que faríamos contribuições de campanha ao PSC do Rio de Janeiro e com propósito de evitar essas ações despropositadas do prefeito Sabino pra que ele pudesse influenciar essa questão. Fernando determinou que fizesse pagamento ao PSC e que seriam feitos via caixa dois. Foram realizados pagamentos que totalizaram R$ 2.750.000 ao PSC que se iniciaram em agosto setembro de 2013 ate junho de 2014”.

Em nota, a assessoria de Alcebíades Sabino dos Santos negou as acusações e informou que, “caso se instaure eventual investigação, será confirmada a lisura de sua conduta”. Ainda de acordo com a nota: “o ex-prefeito Sabino sempre teve as suas contas aprovadas pela Justiça Eleitoral, não tendo sido atribuído a ele diretamente a percepção de qualquer vantagem. Por fim, é público e notório o rigor e a ética que caracterizaram sua relação com a empreiteira e suas subsidiárias em obras e empreendimentos instalados em Rio das Ostras”.

Já o ex-prefeito de Itaboraí, Helil Cardozo (PMDB), procurado por A TRIBUNA, disse que nunca esteve com essas pessoas. Segundo ele, não existe nenhuma prova sobre esse envolvimento e contato. Sobre a perspectiva de licitação, Helil disse que a Odebrecht nunca participou. “E olha que a licitação é pública, pois foi publicada no Diário Oficial do Estado. Verdadeiros bandidos são eles que ficam inventando qualquer coisa para levarem vantagem do prêmio da delação. No entanto, não há provas”, lamentou Helil, que ainda é o presidente do Conleste.

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