O descaso das autoridades diante da inoperância dos inúmeros pedidos feitos pela comunidade ficou evidente na tarde de ontem, durante o sepultamento de Maria Auxiliadora da Silva, de 39 anos, e de seu filho adotivo, Luiz Henrique da Silva, de 9, no Cemitério do Maruí, no Barreto. Eles morreram soterrados na madrugada de domingo, depois de um deslizamento de terra nos fundos da residência das vítimas, na Rua Dois, Quadra A, em Viçoso Jardim. Erivan Lima da Rocha, marido de Maria Auxiliadora, conseguiu escapar. Dezenas de pessoas entre parentes, amigos, e vizinhos acompanharam num clima de indignação o cortejo com os dois caixões.
Moradores foram unânimes em afirmar que a tragédia poderia ter sido evitada, se o poder público ouvisse e atendesse a antigas reivindicações feitas pela comunidade, e que tinham em Maria Auxiliadora uma espécie de “porta-voz’”.
“Ela era líder comunitária e havia sido presidente da associação de moradores do Morro Santo Cristo (Fonseca). Depois veio morar aqui no atual endereço, mas nunca abandonou a comunidade. Evangélica, com muita fé ela cobrava da Prefeitura providências para fossem feitas obras de prevenção contra deslizamentos de encostas na localidade. Ela era incansável no que diz respeito a reivindicar melhorias para a comunidade. Tinha dia que ela saía de casa e nos dizia: hoje eu vou conseguir e seguia para a Prefeitura ou Câmara para conversar com os políticos e pedir providências. Ela se mobilizava. Não foi a primeira vez que aconteceu esse deslizamento na comunidade. É que da outra vez não houve vítimas. A Prefeitura esteve no local, prometeu providências, mas nada foi feito”, explicou a manicure e vizinha Ângela Maria Calazans, de 50 anos. Ainda de acordo com ela, no fim do ano passado, um muro situado nos fundos de sua residência desabou.
“Por iniciativa própria estava providenciando uma obra, mas a Defesa Civil esteve no local e pediu para interromper até o fim de uma avaliação”, acrescentou.
Na madrugada de domingo, por volta das 3 horas da manhã, depois de uma chuva intensa que havia castigado quase todo o Estado no início da noite, depois de várias tentativas frustradas de prevenção, o pior aconteceu. Parte de um barranco se desprendeu de uma encosta, situada nos fundos da casa de Maria Auxiliadora, e atingiu em cheio os fundos da residência da vítima, que dormia num dos quartos, enquanto o menino descansava em outro.
Maria Auxiliadora e Luiz Henrique morreram soterrados, apesar do esforço do marido Erivan - que era presbítero e casado há 26 anos com a vítima - que tentou em vão salvá-los. Vizinhos, em solidariedade também correram para ajudar, mas também nada puderam fazer. Outras três casas nas proximidades foram interditadas pela Defesa Civil com risco de novos deslizamentos e uma escola está em estado de alerta.
A auxiliar de serviços gerais Angélica Albino Ferreira, de 33 anos, prima de Maria Auxiliadora, muito consternada afirmou: “A tragédia poderia ser evitada porque a prefeitura não tomou qualquer providência para prevenir esse tipo de ocorrência. Eles não fizeram as obras de contenção de encostas tão reivindicadas pela comunidade. Eu moro na Travessa Iara, onde no fim do ano passado um desmoronamento causou a morte de duas crianças. Até agora a prefeitura não retornou ao local e nenhuma providência foi tomada”, afirmou.
De acordo com balanço da Defesa Civil em todo estado, pelo menos seis pessoas morreram e outras sete ficaram feridas em função das fortes chuvas e desabamentos ocorridos em vários pontos do Rio.
Desabamentos
em seis bairros
Segundo o major Romano, a Defesa Civil interditou três casas próximas ao local das mortes e fez 12 notificações. Em outros cinco bairros da cidade foram registrados desabamentos: Itaipu, Caramujo, Maria Paula, Santa Rosa e Pendotiba.
A Defesa Civil recomenda que moradores de áreas de risco deixem suas casas, se encaminhem para um local seguro e entrem em contato com a Defesa Civil pelos números 199 ou 2717-2636, em caso de fortes chuvas.
Cratera surge às
margens da RJ-104
Também em decorrência das fortes chuvas que caíram no Rio, no início da noite de sábado, mais uma vez o córrego que passa as margens da Rodovia Amaral Peixoto (RJ-104), encheu e transbordou contribuindo para abertura de uma “cratera”, medindo cerca de 10 metros de diâmetro e quatro de profundidade, por pouco não colocando abaixo uma residência situada na altura do km 5, próximo ao viaduto de Maria Paula.
Vale ressaltar que no dia 19 de outro do ano passado, outra forte chuva que caiu na localidade transformou em “calamidade” a vida dos moradores de uma outra vila de casas nas proximidades, quando o córrego mais uma vez encheu, transbordou, e por conta de uma pequena ponte de concreto (que dava acesso a um posto de gasolina), que desabou e represou a água. O cursos do córrego acabou (por acidente), desviado para o interior da comunidade, inundando tudo. Na ocasião, muitos moradores salvaram suas vidas escapando pelo teto das casas. A perda foi total.
Por conta das chuvas da noite de sábado e queda de barranco no local, uma passarela de pedestres que passava por cima da RJ-104 foi interditado com risco de desabamento. A “promoter” Fabiana Araújo, de 37 anos, moradora há 21 anos no local, afirmou que por conta da abertura da cratera junto ao córrego, também surgiu uma rachadura em seu imóvel e simplesmente seu veículo (um Palio) não pode ser retirado de dentro da residência, porque o buraco surgiu justamente em frente a porta da garagem. Outros dois imóveis foram interditados nas proximidades, entre eles um salão de festas administrado pelo irmão de Fabiana. Outras duas famílias, moradoras no mesmo imóvel, entre elas a do administrador Gerson Pinto Araújo, 47, também amargaram prejuízos materiais e a incerteza se a residência será (ou não) interditada.
Ainda devido as fortes chuvas de sábado, funcionários do Colégio Estadual Paulo Assis Ribeiro, com 30 anos de fundação, situado na Estrada Caetano Monteiro, Badu, tiveram uma surpresa desagradável ao se depararem com várias salas de aula e departamentos da escolas inundadas. Devido ao trabalho de limpeza, ontem as aulas no turno da manhã foram suspensas e cerca de 650 alunos ficaram sem estudar, com a situação sendo normalizada no turno da tarde.